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Uma mensagem de Natal de um aprendiz de Scrooge
 Nunca tentei escrever uma mensagem de Natal. Dessas que o texto fica tão bom que roubam da gente e montam num powerpoint e replicam infinitamente. Tão infinitamente que lá na frente ninguém mais sabe quem a escreveu. Acho o Natal piegas demais. Sentimental demais. Falso demais. Esquisito demais. Consumista demais. Evito o máximo possível as mensagens, fujo das vitrines coloridas artificialmente. Me desespero com as decorações em formato de estrela de Davi, dos presépios e das renas e do Papai Noel de barba falsa dentro de roupas vermelhas e quentes para o nosso país tropical. Com essa ilusão de não estar participando sobrevivo e me engano. Tem datas que mesmo odiando somos envolvidos por elas. Como o dia das mães, dos pais. Quando menos esperamos já fomos contaminados pela euforia alheia. Sem querer nos pegamos planejando presentes, cardápios, locais. Hábitos arraigados na família acabam te convertendo em partidário das festas. Não tem como fugir e suas convicções nem são tão fortes assim. O Natal acaba se transformando em um momento único, pleno de possibilidades. Como reecontrar parentes que você não teve a oportunidade durante o ano. Rever amigos, que nem eram tão amigos assim, mas que você fica feliz de vê-los para compartilhar uma ceia, pois afinal são pessoas boas. O coração, esse músculo que bombeia o sangue, trabalha trabalha e no Natal ele é bombardeado por cenas que emocionam. Não é o seu coração que se derrete nessa data, é sua razão que fica sensível. Cartinhas para o Papai Noel solicitam emprego para pais. Cesta básica pra família. Muletas, cadeiras de rodas e você acaba entendendo que existe um mundo além da propaganda oficial. Nesses mundos ocultos vivem, alheios, milhares de pessoas que lutam para sobreviver, com força e desespero. E logo você está fazendo listas de presentes. Está participando do amigo oculto da empresa que trabalha. Pensa em reunir os amigos para comer cachorro quente e bater papo. É o espírito de Natal seu tonto. É ele que vai se impregnando em você. Mudando seus hábitos. Quem sabe uma viagem? Visitar a Estante Virtual para verificar alguns livros. As luzes que tanto brilham passam a não incomodar tanto. Acostuma-se a elas. Logo elas passam a fazer parte dos seus sonhos. O Natal com seus mistérios. O Natal com suas celebrações importadas que repisamos todos os anos e logo passam a ser pequenas tradições. O império do peru. Se não dele, então de alguma ave grande que seja passível de uma divisão igualitaria. O telefone que toca daquela instituição de caridade que você doou, por acaso um Natal passado, a monstruosa quantia de R$ 10 e que por isso eles te ligam todo mês, solicitando uma nova boa-ação sua, e você enfim diz SIM. Como vai dizendo sim para uma variedade incrível de assuntos que você não dedicaria um segundo da sua atribulada vida, mas que agora parece ser um atalho para agradar. Sim, você quer agradar. As concessões que você se pega fazendo nada mais são que uma tentativa desesperada de agradar: a si mesmo, aos filhos, os parentes próximos, os não tão próximos, os desconhecidos. Pra que levantar a fúria alheia, disparando NÃO inconsequentemente? Melhor uma alma cheia de compartimentos em que as piores sensações ou desejos fiquem prudentemente guardados. Abertas as gavetas do amor fácil, do sorriso tranquilo, do carinho em forma de abraços, do presente que agrada em cheio. Feito isso, não acontecerá aquela sensação de ter sido corrompido, restará uma alegria difusa de troca de flores. O amor aos borbotões concedido de graça e por vontade própria. Passado esse período, volta-se a ser silensioso, obtuso, raivoso, mas aí ninguém se importa com isso. Sua rabugice de Mr. Scrooge foi dominada pelos espíritos dos natais, passados, presente e futuros e você pode, no seu íntimo, se dar ao luxo de se regozijar com a vida como ela é. Voltar a fingir que não se importa com nada ao seu redor.
Escrito por Meridiano Sangrento às 13h06
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Nada de novo no front
Duas filhas e meia reduzidas sempre a uma. A meia se bandeou de mala e cuia para o lado da mãe. A do meio, a princípio, desapareceu numa bruma de dúvidas. A menor, cresceu e apareceu, e nunca me abandonou em qualquer buraco que eu estivesse. Hoje instala-se essa luta novamente. A meia manteve suas convicções. A do meio mudou de lado para o meu lado. Pela menor trava-se uma luta encarniçada por sua nova posição. Quando separamos, mais do que o espólio físico do casamento, luta-se ferozmente pelo espólio psicológico dos corações e mentes dos filhos. Que importa uma mesa com tampo de mármore? Um fogão assim-assado? Nada perto da possibilidade de adentrar o universo dos filhos com suas reais fidedignas assombrosas verdades. E o que é essa tão propalada verdade? Nada mais do que uma coleção de desastrosas pequenas mentiras. Mentiras, meias-verdades, inverdades. Quando entramos em atrito com pessoas que porventura tenhamos dedicado atenção carinho amor, o outro lado desse sentimento é puro ressentimento. Nos tornamos Casmurros. Recontamos a mesma história milimetricamente para que caiba dentro da nossa dor. Transplantamos a nossa própria dor para o peito dos filhos. Lutamos bravamente pra que ele aceite a nossa realidade. Que se condoa com nossos olhos tristes; olhos, às vezes, propositadamente tristes para ocasiões especiais. Não estou dizendo que somos mentirosos contumazes, é que o bem maior de um casal será sempre não os filhos em si, mas o lado que esses filhos tomam na separação. Demonstrar publicamente que os filhos ficaram com você é provar por a+b que você é uma pessoa legal. É deixar claro que se erros ocorreram foram maiores do outro lado. Hoje a batalha está empatada. A meia filha é só filha dela, o lado mais lógico para ela é onde ela se decidiu ficar (claro que há controvérsias aqui, pois no íntimo acho que ela escolheu o lado mais rentoso da separação). A filha do meio, que é a minha primogênita no começo estranhou, achava que estava tudo correto. Que a separação era inevitável e que a vida de todos havia melhorado com aquele desenlace. Eu não deixei que isso ocorresse. E num daqueles domingos raros e intermináveis em que ela almoçou comigo eu lhe golpeei com as minhas verdades, e contei a história como eu, testemunha ocular, havia vivido. Ela baqueou, tremeu, assustou-se. Descobriu-se enganada. Mudar de lado definitivamente seria apenas questão de tempo. E isso é infalível nessa vida: "o tempo é o senhor da razão", e sempre passa não importa o que estejamos passando. A menor, caçula mimada querida, desesperou-se. Assumiu uma postura que, creio eu, lhe causará profundos problemas futuros. Ficou adulta com tantas provações. Ficou ao meu lado, na pensão da Jô, na quitinete abafada. Viu quando eu me transformei de o menino dos olhos tristes em o namorado da garota do chocolate. Viu quanto eu me esforcei pra me formar. Esteve ali, na alegria e na tristeza. Hoje, quando felizmente posso dedicar a ela uma atenção maior, a vinda da irmã do meio, embaralhou tudo. O sonho maior de um filho é ser único e detentor de todas as atenções, acho eu. Ela se tornou o pomo de ouro do momento atual desta batalha muda. Por ter alugado uma casa com dois quartos, a mãe vislumbrou aí uma brecha pra conquistá-la definitivamente. Armou-se de tintas roxas, beliche novo e me golpeou nas partes baixas. Transportou para o dela, agora, quarto individual, o computador. Eu assisto a tudo impassível. Só posso, no momento atual, oferecer carinho, amor, animadas conversas. Não posso competir por ela no mesmo nível da mãe. Não disse que o espólio de um casamento não são as coisas? As coisas um juiz, brevemente baterá o martelo e dirá com sua voz de Deus: "cumpra-se". Pelos filhos, seguiremos lutando até a morte de nossas convicções. Hoje nem penso num meio-termo, um caminho budista do meio. Penso em conquistar novas posições, armar-me de novos aparatos tecnológicos, estar à altura da minha rival. Conquistar corações e mentes das filhas é uma questão de honra. Sei que estou errado em permanecer nessa luta, poderia mentir e dizer-me arrependido de tudo. Qual o que, façamos a guerra mais um pouco, ainda mais agora que ganhei terreno e conquistei territórios importantes mesmo numa guerra tão desleal. Eu que luto contra o imperialismo dela, numa guerra de guerrilha ao estilo mais cubano possível. Preciso angariar reforços para o ano que começará, novos corações e mentes que me apoiem nesta batalha, hasta la victoria final, que na verdade eu não sei qual é. Pois recolhido os corpos, pensados os feridos, o pós-guerra será nada mais que uma outra guerra, agora fria, lutando pelos mesmos objetivos que é re-conquistar ou manter os filhos ao seu lado. Que talvez então nesse momento, cansados das bombas explodindo ao lado, os filhos mudem-se para suas próprias trincheiras e comecem a lutar suas próprias guerras. E o tempo será o único vitorioso, o tempo que perdemos de assistir ao mais belo espetáculo, para quem é pai ou mãe, que é ver os filhos crescerem.
Escrito por Meridiano Sangrento às 10h22
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Provações particulares
Em Corumbá cada habitante tem sua cota de provações diárias a passar. Acredito que se existir o inferno, será como passar a eternidade numa espécie de Corumbá. É o calor aliado a falta de vento. Sensação térmica de 38 a 40º os dias e as noites todas. Se brisa existe, nunca morou em Corumbá. Outra provação são as mutucas, uma mosca que pensa como mosquito e suga o sangue de cavalos e pessoas com a mesma categoria de um vampiro gay do Crepúsculo. Ao cair da tarde surgem os pernilongos e os mosquitos (quando me mudei pra capital o nome dos bichinhos viraram uma complicação, na capital quem suga o sangue é pernilongo e a mosca vira mosquito). Mas colocando os pingos nos is, mosquito e pernilongo em Corumbá são como fantasmas de Henry James, atacam de dia e não descansam à noite. Como os índios americanos dos filmes que cansamos de assistir, eles atacam em bandos e nem contam os mortos. Num determinado horário em Corumbá, quase todas as pessoas são beatificadas por auréolas, não douradas em rostos brilhantes, mas negras de pequenas nuvens envoltas em rostos tisnados e suados. Ao bater palmas como se estivesse num show de rock, mata-se uma quantidade exorbitante desses bichinhos. Corumbá é chamada de cidade branca mas eu tenho certeza que é puro marketing, pois o chão da cidade é como um gigantesco cemitério em que se escondem, diariamente, milhares de corpos negros de mosquitos e pernilongos (a única diferença deles é que um tem as perninhas maiores). Outra provação são os baratões. Já fotografaram, em áureos tempos, baratões do tamanho de latas de cerveja, isso é realidade. Esses baratões povoam os pesadelos de todas as crianças de lá. Algumas mães, ou as pessoas que cuidam de crianças, fazem questão de ter algum espécime desses em casa. Lá não existe o bicho papão vai pegar; lá o terrorismo é feito com "cuidado, o baratão vai de te engolir". "Mas toda cidade tem suas peculiaridades, qual a razão de chamar isso tudo de inferno?" É que lá, todas essas provações surgem juntas, e não dão sossego durante o ano todo. Tem medo de ir para o Inferno? Quer saber como é? Marque suas férias para Corumbá. O lado bom é que o que tem essas pequenas complicações de ruins, fica tudo compensado com a alegria do povo. Em nenhum lugar você será tão bem tratado. Lá, bebe-se cerveja como se fosse água. Come-se peixe ao acordar. Anda-se com camisetas penduradas nos ombros - arma pra matar os mosquitos e espantar as mutucas. Lá, as pessoas falam chiado, dois vira doishii; dez vira déishi. O carnaval é uma festa sem fim. Sempre assim, o Éden era o paraíso, mas eles não podiam comer o fruto do conhecimento. Em Corumbá, pode-se comer todos os frutos que você conseguir, é só ter paciência para enfrentar os pequenos pesadelos diários. Lá, ninguém é expulso do paraíso, nós é que nos resolvemos a partir como Cains que não mataram nenhum Abel, apenas pra conhecer o resto do mundo ao nosso redor, e espalharmos nossa pequena alegria. 
Escrito por Meridiano Sangrento às 18h15
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"Eu escuto as margaridas crescerem"
Os últimos vôos do ano (o acento se foi junto com o ano, mas vou usar ainda uma vez mais) que não sejam de galinhas, rasteiros, frustrados e poeirentos. Lições de vida. Lições de morte. Lições de perda. Lições de paciência. E pensar que comemoramos sempre a chegada dos anos novos. Na verdade não sei se comemoramos a chegada do novo ou que sobrevivemos ao velho. Ou também se procuramos só um motivo pra, enquanto comemoramos, esquecer o que passou e tentar jogar para o futuro o peso de nossas decisões presentes. E como decidimos. A cada dia, milhares de vezes. E como nos perdemos e nos embaralhamos por caminhos errados ou incoerentes. E o meu ano? Passou como o de todos. Mas o meu termina com uma luz, não mais brilhando no fim de um túnel distante, mas iluminando, ao meu lado, o caminho atual. Não sei no que isso vai dar. Não me interesso se as coisas ficarão melhores ou piores. Não sei nem como me preparar para o ano que chega. Não ligo se tudo vai dar errado ou não. O não como partícipe do futuro (eu conheci uma pessoa que dizia que quando usamos a palavra não atraímos maus fluídos; que se fodam os maus fluídos e certas pessoas). Vejo que muitos projetos ficaram em gestação. Planos que não deram em nada por falta de ímpeto, de fôlego, de gás. Percebo que as incongruências do ano reside em uma falta. Faltou mais dinheiro, que impulsionariam mais planos, que se realizariam mais facilmente e que trariam não a felicidade em seu bojo, mas a sensação de movimento. Falta movimento nas nossas vidas. O movimento que fez com existíssimos e que está, imperceptivelmente nos levando ainda agora quando escrevo essas palavras, para algum lugar indefinido. Mova-se, deve ser uma lei universal, deve ser o 11º mandamento. "Não deixaras seu corpo entrar na inércia nem na modorra para o seu bem e o bem dos seus. Faltou movimento na minha vida. Quem sabe isso tenha a ver com impulso vital que nos fala Bergson, deve ser, nunca entendi Bergson direito, complexo demais para meu intelecto de prouni. E a ano que chega então, o que esperar? Kundera fala de mistério. Diz ele que a mulher procura no homem o mistério encoberto de suas vidas passadas ou presentes. Eu, sou um livro bem aberto. Facilmente manejável. Prontamente mutável e acondicionável aos fatos mais banais, logo, espero que eu consiga envolver minha vida no ano que vem numa bruma de mistérios. Ganharei dinheiro e não contarei a fonte. Arrumarei novos empregos, e não direi como. Serei menos atento com pessoas queridas (que não se decidem a ir ou ficar, ou se, a ficarem inteiras ou pela metade). Meio desatento, estarei ainda assim relativamente mais próximo dos que partilham da minha vida, pois o resto será mistério, e o mistério é o verdadeiro charme do mundo. Na verdade eu não acho que as pessoas procurem no homem só o mistério, mas tudo que escuto pelo caminho, apreendo e coloco em prática. Todas os palpites, dicas, chutes, que colaborem pra entender as pessoas com quem convivemos, somam e nos multiplicam. Sozinhos, não damos conta da infinidade de possibilidades que é o conviver no dia a dia: conviver é batalhar. Que fique bem claro que não pretendo roubar, matar, traficar, nem nada para ter um pequeno e significativo sucesso no ano que vem. Pretendo obedecer ao 11º mandamento fielmente. Movimento e uma dose de mistério igual a sucesso, ou pelo menos a algo que pague minhas contas que, pra terminar esse trololó todo, é o que me preocupa. Como paguerei minhas contas se ficar inerte?
Escrito por Meridiano Sangrento às 14h09
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Correndo para o futuro
Pronto. Terminado. As mudanças a caminho são as mais radicais dos últimos tempos. Nada impede mais o futuro de chegar, nem que seja a golpes de mensalidades das Casas Bahia. A casa nova, vamos modelando aos poucos, e devagar vai ficando a nossa cara. Resolvemos colocar a carroça na frente dos bois; não sabemos o que vai acontecer e assim esperamos que não seja o pior. O pior que andou ao nosso lado durante todo esse tempo, só nos dá pequenas folgas e volta a golpear. Assim resolvemos nos antecipar as possíveis futuras desgraças. Assinar um cheque em branco e modificar o imutável nesses últimos dois anos. A casa nova, com coisas novas, com pessoas novas e as de sempre que continuam bem-vindas. Chances de tornar tudo muito bom ou meter os pés pelas mãos. Mas meter os pés pelas mãos ainda é melhor do que esperar sentado, naquele quarto quente. Voltei a lembrar o que é andar por uma casa. Zelar as lâmpadas para não ficarem acesas. A varanda pra lavar. Portas para abrir e fechar e verificar se estão fechadas na hora de dormir. Será que o bendito gás está aberto? Já tá na hora dela desligar esse rádio, senão vai gastar energia e não sei se fantasmas gostam da programação noturna dessa rádio. O que vamos comer hoje? Será que a namorada vai passar hoje? Tantas preocupações boas para se ter. Logo, casa nova, vida nova. Vislumbro os carnês em cima da mesa. Os três anos de faculdade terão que valer algum no ano que vem chegando. Nesse ano que finda fiz muito pouco por essa nova profissão que sempre quis ter. Mas acho que com a água subindo dentro da caverna, sem lugar para fugir, o melhor a fazer e correr e me virar em mil ou dois mil e fazer com que sonhos virem realidade... enquanto isso, ouço Manic e Marianne... e peno com o peso nos ombros das responsabilidades desse mundo doido que vivemos. Como fazer numa tarde um aluno entender as concordâncias nominais verbais e as vozes do verbo... tudo por um futuro melhor...o meu, pois o dele depende dele e do que conseguiu entender das duas horas de aula que dei.
Escrito por Meridiano Sangrento às 17h59
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Um banheiro que joga xadrez
Capablanca, um dos maiores enxadristas de todos os tempos, uma vez, uma única vez, ganhou uma partida transformando um peão em cavalo e golpeou seu oponente com ele de maneira perfeita. Lenda? Aconteceu de verdade? Quem se importa? Só fãs de xadrez, coisa que eu não sou. Lembrei de ter lido isso em algum lugar, pois agora acho que vou me lembrar disso sempre. A razão? A casa nova que mudamos hoje tem um banheiro com o formato do movimento do cavalo no xadrez. Um L. Alguém já viu banheiro em L? Nós vamos ter que nos acostumar a ele. De resto a casa é boa. Dois quartos, uma sala, cozinha, o banheiro em L, uma varanda e até um corredor por trás da casa que ainda não sabemos como vamos aproveitar. Será que é pra brincar de pega-pega? Veremos. A mudança não foi tranquila. Fazer força com minha coluna dificulta um bocado as coisas. Nesse momento em que digito esse texto, ela (a coluna) dói, dói, em frangalhos é como ela está. À noite nessa cidade de poucas oportunidades virá os Móveis Coloniais de Acaju mas minha coluna dói e a mudança ainda está por ser completada. Explico. Mudamos as coisas de uma para outra casa, mas não conseguimos organizar a casa nova. Resultado, muita coisa por fazer ainda. Mas já está a mesa com seu tampo de mármore, academicamente instalada na sala que não tem sofá. No quarto da minha filha, ela já conta com sua cama, seus cds, seus dvds, seu toca-cds. Por sobre a mesa livros. Fizemos no olhometro uma partilha dos livros. Consegui uns Vargas Llosa, Proust, Fielding, Onetti entre outras pérolas. Deixei muitos também, mas fazer o que com tantos livros? De verdade ultimamente não tenho conseguido ler nenhum livro. Não que eles faltem, comprei o último do Cormac Macarthy - o mesmo autor de Meridiano Sangrento - e não consegui ler. Estou de novo com o Labirinto da Solidão do Octavio Paz e capengo nele. Não sei, os livros andam meio intragáveis. Talvez por eu saber que não será lendo livros que conseguirei sofás, camas e otras cositas que necessito. Na verdade nesse momento, pós trabalho pesado penso que poderia não ter mais nada pra fazer hoje. Queria ficar deitado, ver um filme, beber uma cerveja, dormir, talvez sonhar, como Hamlet...
Escrito por Meridiano Sangrento às 16h20
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Chá de casa nova ou a mais-valia
Vamos mudar. Alugamos uma casa. Eu não esperava por essas alterações assim tão repentinas, mas a vida urge. Não temos nada, na verdade quase nada. Temos o suficiente para encher um quarto e sala. Insuficiente para uma casa com cara de casa. Dois quartos, sala, cozinha, banheiro, varanda. De imediato, conseguimos a cama dela, rosa bebê, de quando ela era criança ainda. Virá com o colchão e combinará com as paredes que não sabemos a cor ainda. Combinará de qualquer jeito. Ela faz planos. Quer posters para as suas quatro paredes. Quando somos novos, paredes são nossos outdoors, falam o que não queremos nos dar o luxo de falar. Um poster de cinema indica o tipo de filme que gostamos, um cartaz de show, a música que ouvimos. Antigamente cartazes de sindicatos eram um luxo de revolta, hoje, não representam mais nada; mas divago. Para a sala teremos o reforço de uma mesa com seis cadeiras, quer dizer, não sei se as cadeiras virão, sei que a pedra de mármore fui eu quem comprei (ela - a mãe das meninas - me fez lembrar disso: "a pedra foi você quem pagou", como se eu fizesse a distinção que ela faz entre as coisas que eu comprava naquela época, pra mim era tudo para a casa e ponto). Voltando, não temos sofá, máquina de lavar, espelho para o banheiro, liquidificador, faltam panelas, armário para a cozinha, espelho para o quarto dela (meninas precisam se olhar; não que eu, narciso convicto não goste). A princípio ficaremos com um guarda roupa, depois viabilizaremos outro. Computador é uma necessidade básica, mas é inviável nesse momento. Mudaremos assim mesmo. As faltas se completam com o tempo. O tempo que desprenderemos numa fila infinita das Casas Bahia. Eu, na realidade estou com muito medo do porvir. Mas não é mais aquele medo de quem não tenta as coisas, é um medo nervoso de quem, é claro, terá que meter os pés pelas mãos, conscientemente, para melhorar não a vida, mas o nosso dia a dia. Aceitaria doações, mas acho melhor não. São muitos os meus fãs, era capaz de alguns se desfazeram de objetos necessários em suas próprias casas para me enviarem. Fico só com a torcida de todos... Enquanto isso, seguimos ouvindo músicas, vendo filmes e tentando entender a porra da mais-valia do Karl Marx para uma prova que ela vai fazer essa semana. O que é essa teoria? Explico: suponha-se que um funcionário leve duas horas para fabricar um par de sapatos. Nesse período ele produz o suficiente para pagar todo o seu trabalho, mas ele permanece mais tempo na fábrica, produzindo mais de um par de sapatos e recebendo o equivalente à confecção de apenas um. Em uma jornada de oito horas, são produzidos quatro pares de sapatos, o custo de cada par continua o mesmo assim como o salário do trabalhador. Logo, conclui-se que o operário trabalha seis horas de graça, reduzindo o custo do produto e aumentando o lucro do patrão. Esse valor a mais é a mais-valia e é apropriado pelo patrão. Aliás isso nunca mudou nem mudará. Lafargue já dizia que tínhamos na verdade que trabalhar apenas o tempo necessário para fazermos nossas atividades e na maior parte do tempo nos dedicarmos a fazer coisas para nós. Ficar com a família, namorar, estudar, ler, viajar... Sonhos que nunca serão realizados, nem num governo trabalhista como o nosso, pois eles não pretendem nada mais do que já conseguiram, um deus na terra e camaradas em todos os postos estratégicos do governo, para manter o que está, para se reelegerem ou tornar a vida do próximo, se for da oposição um inferno. Mas divago, o que interessa é que vamos mudar para uma casa, uma hora a partilha sai e iremos aí sim para algo nosso. Não nos antecipemos às coisas, temos é que aproveitar cada momento, como eles nos surgem.
Escrito por Meridiano Sangrento às 16h18
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Picolés de cajamanga
Ela é cheia de disposição. Sorrisos fraternos. Apetite voraz. A calma do vento depois de uma tempestade. Ela sorri com covinhas. Conversa sobre os assuntos mais estranhos e simples ao mesmo tempo. Adora filmes, que se pudesse, veria o dia inteiro. Ela gasta toda água do mundo nos seus banhos intermináveis. Ela se dispõe a andar com sua blusas amassadas, a usar suas duas únicas calças jeans até o limite do imponderável. Ela não se repete. Me dá conselhos juvenis. Dicas para um futuro brilhante. Ela não sabe que meu futuro está nela e ela pode me salvar, indiretamente, de não ser ninguém, sendo ela alguém que deu certo. Já estamos juntos a quase um mês e nossas conversas infinitas continuam. Nossos planos para melhorar a vida continuam. Queremos o melhor. Lutamos para isso batalhas devastadoras. E entre as confusões da chegada, o irmos nos acostumando de novo um com o outro, vamos sobrevivendo um ao outro e, juntos, ao mundo hostil. Quem não sei se sobreviverá é a casa. Eu tenho uma Midas em casa. Tudo que ela toca desfalece, desaparece, parte-se. É a cuia de tereré que cai atrás do fogão. É a chave que ela esquece na casa da amiga. É o mp4 que aparece com um risco tão profundo que se fosse um corte precisaria de muitos pontos. É um copo que ela quebrou e varreu malemar e eu sento em cima dos seus restos mortais, furando a mão. É o pegador de saladas do restaurante que ela derrubou ao tentar se servir de salada de beterrabas. Ela se perde ao andar no centro, perdida como deve estar com tantas possibilidades desse novo mundo que ela descobre agora. Somos amigos. Mais que pai e filha, somos companheiros de um infortúnio, que é a incoerência da mãe dela. Enquanto moramos apertados, passamos calor a mãe planeja ir para Parati no fim do ano com o namorado. Enquanto lavamos roupas na mão, passamos num colchão, a mãe compra PS2 e planeja adquirir também a NET pirata que está em moda por aqui, tudo pra cativar as filhas e fazer com que elas não desejem ficar comigo. E pensar que eu gostei dessa mulher um dia. E pensar que ao terminarmos meu mundo quase acabou junto. Quanta estupidez da minha parte. Hoje, a mãe das minhas filhas faz de tudo para que a filha que está comigo volte. Faz de tudo para a que está lá não venha. Não existem pontos sem nós para ela. E nós (sem trocadilho), do nosso jeito espontâneo, seguimos rindo das nossas próprias desgraças: como a geladeira que não gela. Como as minhas roupas que parecem ter urticárias das roupas delas e ficam manchadas ao menor contato delas dentro do molho de sabão em pó. E seguimos, eu me admirando ao chegar em casa com as calcinhas dela penduradas no varal, e que eu escondo jogando uma toalha por cima. Ela, como se nada tivesse acontecido de tão ruim na vida dela, como ficar sem a mordomia da casa dela. Sem carona. Sem computador. Sem suas coisas que não pode trazer tudo, pois não cabem aqui. E ainda temos a outra irmã, que ainda se admira com objetos e coisas. Que ainda não pode ficar sem internet e outras coisas que não tem aqui, e nós temos que cativar na marra, nem que seja inventando improváveis tardes/noites de sábado, regado a conversas fiadas e hilários picolés de cajamangas. A vida é, não temos tempo de saber se o que estamos vivendo é bom ou ruim, só dá pra tentar sermos os melhores possíveis em tudo o que fazemos, colocando em cada atitude nossa uma parte gigantesca de alma.

Escrito por Meridiano Sangrento às 13h21
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Escritos avulsos que ficaram perdidos numa pasta qualquer do computador...
Minha mínima porção caipira Ela acordava e buscava a sua rádio preferida para em seguida se levantar cantando. Seria o melhor jeito de ser acordado, não fora um pequeno detalhe, a trilha sonora. Era sempre música sertaneja, que ela acompanhava com sofreguidão. Cantarolava e saltitava daqui pr'ali e de lá pra cá. Logo um cheiro de café invadia a casa, até o café era caipira naquela casa. Feito naqueles coadores de pano que lembram muito a roça. Seria um café perfeito, não fosse ela continuar, entre os goles, cantando as músicas que o rádio não cessava de rolar. Ela conhecia todas ou era uma impressão minha? Conhecia todas, algumas mais que as outras. Sertanejas variadas e todas iguais. Eu comia pão. Bebia leite. Beliscava um queijo entre modas de viola e ela cantarolando. Impossível continuar com aquilo. Quando eu chegava em casa, precisava de um banho de descarrego, ligava David Bowie no máximo, lustrava a alma com Pink Floyd, com minha 'guittar air' fazia os solos de Jimmy Page e ficava aturdido com a pegada do The Who... pronto, podia sair para o trabalho, mas, quando anoitecia, voltava a ela como se fosse a primeira vez e como se sua trilha sonora não me incomodasse nem um pouco. A carne com sua mania de fraqueza. Ps: time remote time... na verdade não sinto saudades desse tempo, músicas ruins cansam... Muito no antigamente... Não se arrumava os dentes tortos, aprendia-se a viver com eles ou arrancava-se todos e fim de papo; Mulheres com seios grandes, morriam com seios grandes ou enormes, se engravidassem; e ainda tinham bico de papagaio, e outras coisinhas mais, de carregar o fardo dos seios; Quem nascesse com lábios leporinos, viviam com janelas na boca, e um nojo medroso em quem os via; Pessoas com mau hálito consumiam todas as balas de hortelã dos bares e ainda assim fediam ao abrir a boca; Pegava-se poliomielite e muita gente se atrasava para o futuro ainda criança; Gordos, ou queimavam suas calorias em academias ou engordavam cada vez mais e mais e mais; Quem nascia com bundas-banco-de-praça, só sentavam; Os brigões que levavam um tiro, sangravam e morriam; Hoje dá-se jeito em tudo. Conserta-se dentes, diminui-se ou aumenta-se seios, opera-se os lábios leporinos, resolve-se o problemas dos bafos, toma-se a gotinha, reduz-se estômagos e coloca-se silicone em bundas, os que levam tiros são remendados e poucos morrem. No fim, o mundo modernizou-se, agora somos tiranizados por qualquer imperfeição. Ps: seja belo ou morra tentando, eis a ordem dos dias atuais... E... De repente tudo à sua volta se choca, transforma-se como por mágica em uma desordem fabulosa. Caminhos se fecham e ao mesmo tempo abrem-se como portas de naves espaciais. Detector de presença. Somos como que carregados por mãos invisíveis e, de repente, estamos no mesmo labirinto de tempos atrás. Dando voltas como cães, num percurso atroz atrás de si mesmo. Como é difícil evitar a filosofia dos dias que passam incólumes, da vida que se esvai entre os dedos, dos cabelos que embranquecem céleres, dos ímpetos que diminuem, das certezas abatidas solitariamente. O sinal se abre e não sabemos a direção exata a tomar. Partir ou chegar. Sorrir ou chorar. Lutar ou fugir. Ganhar ou perder. Tudo tem dois lados, inexiste uma terceira via. Fugir não resolve os problemas, eles permanecem, como um quadro no Louvre. De tanto evitar enfrentá-los, eles se tornam maiores. Uma bola de neve, temperamental, distorcida por dias, meses, anos. Transformado pela minha total apatia. Minhas vitórias, tão grandes aos meus olhos, não se traduziram, novamente, em capital. Foram batalhas disputadas em terrenos íngremes, com reduzido esquadrão. Xerxes e seu exército ficaram presos no desfiladeiro novamente. Eu os retive sozinho. Mas exaurido minhas forças, corro o risco de ser atropelado por todos. Meu futuro passa pela partilha. A partilha define, não o resto da minha vida, mas reorganiza o passado e imporá um futuro. Dos quinze anos de vida em comum, ela propôs pagar por eles módicos R$ 1.000,00 por ano. É uma contabilidade apocalíptica. Nada da apoteose de fazer a primeira mudança conjunta dentro de um Fusca azul. Duas viagens dadas pelo Fusca 1969 do meu cunhado. Nada do glamour de mudar de casa por conta do aluguel, mudar de cidade pra tentar ser feliz em outra, longe do pai da minha ½ filha. Nada do eco de quartos vazios pela falta de móveis. Nada de idas e vindas, nem da vagarosidade com que fomos conquistando as coisas. Nada. A casa nova, que ela recebeu uma proposta dez vezes maior do que ela quer me dar; os móveis; os carros. Agora, passado o tempo, tudo o que conquistamos foi ela quem fez mais. Visito meu advogado dentro do seu Fiat Mille branco, ele conta as novas, péssimas novas e já traz urucum pra que nos pintemos para a guerra. É pegar ou largar. Nenhum outro caminho. Ps: a partilha, o advogado da partilha, achava que estaria tudo resolvido hoje mas não... Brave New World Não era a primeira vez que ficavam a sós naquele lugar; a culpa, se fosse o caso de se descobrir alguma, óbvio era dele. O tempo pesava mais sobre às suas costas, do que sobre os cachos dela, mesmo assim estavam ali, e o limite entre o certo e o duvidoso era a porta fechada e o resto da pensão vazia. A conversa, se houve, rodeava assuntos impróprios para menores, mesmo assim era insistentemente martelada. Os beijos trocados eram tensos, a vontade de derrubar os limites que ainda faltavam para o novo patamar era gigante e, sem quase querer sem temer, tudo seguia... Ps: a tentação tem cachos e sabor de chocolate... Leitmotiv Meus dias voltaram a necessitar de fatos que façam valer a pena estar aqui. Já disse isso, mas repito, somos todos Sherlok Holmes, necessitamos de um apoio quando os horizontes se estreitam ou desaparecem, como que por encanto. Nos livros de Sir Arthur Conan Doyle, toda vez que o detetive encontrava-se sem rumo, sem casos pra solucionar, entrava em crise e sacava de uma dose de cocaína e se injetava, sob olhares irritados de Mr. Watson. Eis que estou assim. Sem olhares irritados de ninguém. Só cuidado pelo meu próprio e inquisidor ego. Não precisamos de ninguém pra nos falar de que algo vai errado, eu pra saber disso, olho a minha volta e tropeço em planos abandonados. Achei que nesse ano conseguiria, enfim, mudar-me pra algo meu, mas continuo pagando aluguel. Descobri, por exemplo, que já não gostava mais de cultivar o passado. Abandonei recordações dolorosas e aprontei-me para o futuro. Futuro este que saiu pra brincar o carnaval e depois resolveu se esconder de mim em alguma caixa de Pandora, juntou-se com a obesa esperança. Se ganhei forças com a faculdade, esperei dela demais pois portas não se abrem como nas "mil e uma noites". O encanto se quebrou. Para viver preciso de certezas. Dúvidas têm espinhos como cactos. A Dúvida é funcionária de Satanás. Ganha por hora e dobra o salário conforme a produtividade. Preciso ter certeza que dar aulas é o que quero realmente pra mim. Necessito da certeza que em algum momento, enfim, eu vou poder ser normal e no meu bolso estar a chave da minha casa, que no bolso das minhas filhas estará uma cópia desta mesma chave e elas transitarão pelo meu mundo com mais facilidades e mais entusiasmos e eu pelos universos delas. Como é tênue a linha entre estar bem, mau, muito mal, péssimo, quase morto e novamente feliz. São pequenos detalhes que podem fazer a diferença. Qual a razão de ter vivido tão pouco ao fim de tanto tempo de vida? E agora, em débito, ainda ter tanto por fazer? Por criar. Queria ser misterioso, ter tantas histórias pra contar quanto anos de vida. Eu não vivi. E por isso pago o preço por ter sido pai em tempo integral. Foram quinze anos. Acho que nunca conhecerei Praga, nem comerei aquele macarrão com gosto estranho que nos fala Camus. Não poderei ver Machu Pichu com minha filha menor, pois já vou entrando na época em que eu vou diminuindo e as dores aumentando. Pra que aprender Inglês? Qual a razão de ter muitos motivos pra continuar e ao mesmo tempo eles serem tão vis e mínimos diante das dificuldades? “Em verdade, em verdade, vos digo”, a onda perfeita nunca foi o meu alvo. Eu preciso de diversas pequenas ondas razoáveis, de vitórias diárias que me motivem a acordar no outro dia. Preciso estar sempre na disputa de taças, que ergueria silenciosamente em triunfo secreto. Mas a vida nunca é o que imaginamos, ela nos dribla, nos engana. Quando achamos uma doce alegria ver seriado de TV em dvds piratas, logo descobrimos que é sim, mas que pode ser outra coisa qualquer, e que, possivelmente, muitas dessas possibilidades não estão ao seu alcance. Preciso perder a vontade de ser onisciente, de querer agradar sempre. Preciso aprender a ficar feliz com minhas batalhas internas, e a respeitar as opções alheias. Preciso de tanta coisa, que hoje aceitaria de bom grado uma boa dose de ódio na veia (pois eu não sei odiar). "Sherlok, please, prepara uma pra mim". Ps: antes da minha filha vir morar comigo, estava entrando em crise, hoje, “crises, what crisis?”, não sobra tempo....

Escrito por Meridiano Sangrento às 10h28
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Estátuas de cera
Bom, qual é o plano agora mesmo? ......... É assim, como numa conversa ao telefone em que falta uma resposta plausível pra uma pergunta disparada do lado de lá. Eis como me sinto. Resta um eco incomodo. Não existe um plano, eis a realidade. Não estava preparado para o que aconteceu. Não estava pronto para quase nada. Agora minha vontade de que tudo mude de uma maneira urgente, para se adequar ao novíssimo dia-a-dia, é maior que minha vontade de estar vivo. As chances de tudo dar errado, de minha filha voltar a morar com a mãe são gigantescas quando tudo fica nas minhas, pouco hábeis, mãos. E não é só a filha. Tem o namoro que eu quero muito que dê certo, e para isso eu já vinha investindo muito e que agora ficou tudo muito bagunçado (e professor, três muito numa frase só). E tem a filha menor que ficou. Ela que tem sido um dos assuntos mais comentados em casa agora, pois ficamos com medo de a perdermos, pois ela está sozinha, enfrentando diretamente as ambiguidades da mãe. E tem o calor que parece que quer nos derreter por esses dias e parece que é mais um perigo pra que tudo dê certo nessa nova etapa da nossa vida. Pois o calor quase nos derrete os miolos, nos faz suar em bicas e faz os lençóis recenderam a fedido. E do ralo do banheiro, saem baratas, que peregrinam pelo teto do banheiro, reparando em como eu tomo meu banho. E nada pode ser esquecido em cima do fogão pois estraga em pouquíssimo tempo. E os dias que se tornaram curtos pois agora chego cedo em casa pra cozinhar algo pra nós dois, que pode vir a ser três, eventualmente. Como falta poesia nessas noites, mesmo que nos peguemos conversando quase ela toda, organizando a primeira lista de compras que faremos juntos. A vida podia ser mais poética. O advogado podia ser mais urgente, o juiz mais camarada e nos chamar logo para uma conciliação que agradasse a todos. E eu, ou nós, sairiamos desse impasse. Compraríamos uma casa nova, quem sabe um apartamento? Colocaríamos nele os móveis mais simples e belos ao mesmo tempo. Pois só de serem nossos seriam todos de uma beleza estonteante. E assim, quem sabe, as coisas entrariam num eixo, e nós poderiamos seguir a vida, que, do jeito que está, colocou a todos em suspenso. Aguardamos um futuro que pode nem chegar a ser. Mas temos o presente que necessitamos enfrentar com galhardia. E o fazemos. Fazemos pastéis que comemos todos sentados no chão. Organizamos o único guarda-roupa de modo a caberem nossas roupas e nossos objetos. E caber também nossa imperiosa vontade de que dê tudo certo, que consigamos passar esse período sem abandonarmos nada nem sermos abandonados por nada nem ninguém. Difícil. Em grandes mudanças, sempre alguém perde algo. Espero que consigamos atravessar esse mar Vermelho, com a mesma graciosiade com que os pássaros voam. Que os políticos mudam de posição. Que esse calor infernal nos derrete vivos, como estátuas de Madame Tussaud.
Escrito por Meridiano Sangrento às 09h22
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Casas Bahia: dedicação total a você
Cinco e quarenta da tarde. Planos para a noite? A princípio alguns, mas não de todo bem resolvidos. Cozinhar (agora cozinho quase toda noite). Quem sabe um cinema (namorar é preciso, viver não é preciso). Saio do trabalho, que ainda não são aulas, é o mesmo e velho burrocrático trabalho de sempre. Uma missão mais urgente me retém no centro da cidade, pagar uma prestação nas Casas Bahia. Fácil, penso (e se penso existo). Com aquela quantidade de caixas, entro, pago e vazo. Fila. O homem, esse ser absoluto, inventou a fila. A quantidade de caixas esperado se transforma em dois, solitários e lentos, caixas, sendo um para os idosos, pra's gestantes, pessoas com crianças no colo etc... (e de repente uma multidão envelhece, gordinhas tornam-se grávidas...tsk...tsk) A loja está passando por reformas ("aqui tudo é construção e já ruína", pois essa loja está sempre em reforma e nunca chega a ficar pronta). Entro desarmado, pois devolvi os livros que estavam na minha mochila. A fila é heterogênea, pessoas de todas as classes C- D E F se misturam nela. A fila é grandiosa e ondula dentro das balizas colocadas pelo segurança. Passos miúdos são dados. Conversas toscas são trocadas: o ar condicionado desligado, o calor transbordante, os únicos dois caixas, o gerente que ninguém vê, um casal que se beija, aproveitando a leseira da fila. A fila não serpenteia como esperado. O calor esquenta mais que o ideal. Nada é como queríamos que fosse. Posso ir embora? Não vou. Quando me decido por ir, a cidade é abraçada por uma chuva torrencial. Fico e era melhor não. Na loja com pedaços de forros arrancados começa a chover tanto quanto lá fora. O único caixa que atendia as 'pessoas normais' para pois tem uma goteira em cima dele. Corre-corre. Móveis ficam expostos à chuva mesmo estando no interior da loja. As pessoas se agitam. Uma senhora sugere que todos façamos uma greve e quebremos tudo dentro da loja (greve?). O tempo passa. A chuva desaba. O piso, em alguns lugares, vira um rio que faria inveja em Manoel de Barros. Pessoas com rodos procuram afastar a teimosia da água. O caixa protege seus equipamentos com sacos de lixo preto e prossegue sua lida. Mesmo com tanta desordem os vendedores continuam vendendo. Vender é o verbo. Depois de concluída a venda, dane-se o pagador, pois quase sempre, nesses casos, o nome é o maior bem da pessoa. Por isso, as pessoas se sujeitam a ficar mais de uma hora numa fila que não anda, vendo vendedores desesperados para ganhar o seu pão de cada dia, vendo os caixas defenderem o seu também, e a loja em si, essa entidade que leva os sonhos para dentro da casa das pessoas que de outra maneira seria impossível, só faz é publicidade enganosa e a dedicação à você é só isso mesmo, uma frase de efeito, como era a famigerada: "quer pagar quanto?".... mentiras sinceras... tudo bem, mentiras sinceras, como diria o Cazuza, tem dias que me interessam. ps: meu tempo quase acabou agora; sem falar na necessidade de aumentar meus ganhos urgentemente... ps2: o que ando ouvindo assim mesmo? The Bellrays... aqui 1. ... aqui 2. ... e aqui too 3.
Escrito por Meridiano Sangrento às 13h56
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Mudanças dos planos que não tínhamos...
Quando separei julguei que o mundo estava acabado, descolorido, virtualmente sem reparo. Estava errado. O nosso mundo tem a estranha mania de se renovar; mudar bruscamente de direção. É como o vento, zune cá, refresca lá, falta acolá. Refeito, novos horizontes surgiram. Minha vida se transformou, fui como que renascendo. Até que me senti pronto para novas batalhas. Faltava algo. Sempre parecia que faltaria pedaços nessa nova vida. Filhos... "Filhos?/Melhor não tê-los!/Mas se não os temos/Como sabê-lo?/Se não os temos/Que de consulta/Quanto silêncio/Como os queremos!/Banho de mar/Diz que é um porrete.../Cônjuge voa/Transpõe o espaço/Engole água/Fica salgada/Se iodifica/Depois, que boa/Que morenaço/Que a esposa fica!/Resultado: filho./E então começa/A aporrinhação:/Cocô está branco/Cocô está preto/Bebe amoníaco/Comeu botão./Filhos? Filhos/Melhor não tê-los/Noites de insônia/Cãs prematuras/Prantos convulsos/Meu Deus, salvai-o!Filhos são o demo/Melhor não tê-los.../Mas se não os temos/Como sabê-los?/Como saber/Que macieza/Nos seus cabelos/Que cheiro morno/Na sua carne/Que gosto doce/Na sua boca!/Chupam gilete/Bebem shampoo/Ateiam fogo/No quarteirão/Porém, que coisa/Que coisa louca/Que coisa linda/Que os filhos são!" Vinícius de Moraes
E no meu caso, filhas. Nunca soube porque as tive. Vieram. Surgiram. Sempre preferi as mulheres. A beleza sutil. O carinho cheiroso. Nunca quis ter meninos. Tinha a certeza que ter meninas significava tê-las comigo mais tempo. Era meio óbvio. Pequenas, elas ficam sempre por perto. A menstruação viria aos 14 quem sabe 15 anos. Dai começariam os interesses pelos meninos. Namoricos que eu expulsaria com chispas nos olhos. Moleques que correriam de medo a minha evidência varonil de pai presente. Achava que as meninas que começavam a namorar cedo, a transar cedo era por não terem uma família ajustada. Achava, achava. Achei tudo errado. Menstrua-se agora com 12 às vezes 13 anos. Os hormônios brotam furiosos. Os meninos, ah, pobre de nós os meninos. Somos facilmente induzidos ao erro. A mim, pai de olhos atentos, enganavam com doces mentiras: "vou dormir na casa da fulana, olha, liga pra falar com a mãe dela etc."; "vou no show com minhas amigas". Meninas, eu as quis por achar que seriam minhas até aos 18 quando enfim, entrariam na faculdade e daí eu perderia os bebês. Tudo bem, continuam meus bebês. Mas agora tudo isso é tão diferente. E veio a separação, com suas confusões atrozes, e eu fui, e elas ficaram. E elas vinham e, à princípio, eu nem as via direito. Depois, quando as vi, o mundo já havia girado de novo. Elas haviam crescido. A de 17 faz agora faculdade de economia. A de 13 usa sutiã com bojo. A 1/2 filha bandeou-se para o lado de lá. Filhas pra que tê-las mesmo? Elas comandam tudo. Hoje eu vou, hoje não vou. Façamos assim e não assado. Tão bom quando elas chupavam giletes; quando bebiam shampoos. Como queria que elas ateassem fogo no quarteirão e não, como agora, na cidade inteira. Resumo da ópera: Segunda, telefone toca, atendo. Descubro que algo não vai bem na Dinamarca em que elas moram. Chego em casa. Tenho visita. Entro, descubro o que é, o que foi. Não sei se foi presente. Ou que o que aconteceu é algo que será duradouro. Só sei que nessa semana eu fui instado a cumprir minha obrigação de pai presente. Três tigres chegaram na minha casa, dois foram embora. Uma tigresa de unhas dos pés vermelhos. Livro de estatística. Uma mala preta, pequena até para o alto dos seus 17 anos, ficou. O que vai ser? Não tenho a menor ideia, mas, não deixemos a vida nos levar... Nem façamos como Sócrates dizendo "só sei que nada sei". Eu sei o que aconteceu. É uma chance que surge pra que exista um possível nós de novo. Deixemos de lado os medos e os tremores de ser tudo só uma fuga dela, não pensemos que se trata apenas de uma "temporada" na minha casa, aproveitemos tudo ao máximo. Quando foi a última vez que nós moramos juntos na mesma casa? Junho de 2006... O mundo girou...
Escrito por Meridiano Sangrento às 16h40
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"Os meses e os dias são viajantes da eternidade" *
Perdendo os dentes Nutro o silêncio com o meu melhor sussurro. Singular é a certeza que percorre os vazios. Vazio como as perdas que acumulamos vida afora. "Sei que perdi tantas coisas que não poderia contá-las, e que essas perdas, agora, são o que é meu" (Borges). Perdi o detalhe das coisas, a miopia levou. Por isso admiro tanto quando o que vejo posso tocar. Toco logo encanto-me. Minha mãe morreu e está sempre ao meu lado. Perdido estão amigos. Presas em algum limbo, mulheres que, porventura, convivi. Escondida, minha fé. Um homem sem fé é invencível, pois nunca luta de verdade, só em doces palavras. Desencontrei-me da gorda esperança, era um fardo carregá-la. Perdi objetos: alguns dei, outros doei, muitos abandonei - como um certo blazer branco no elevador de uma loja de departamentos. Vivo minhas perdas, pois nunca consegui organizar para mim um quarto de despejo, pois o grande despejado da vida fui eu. Meus livros, um cachorro, cds, revistas, pé de pitanga. Uma quase namorada em um carnaval desastroso; uma outra namorada que se foi num outro carnaval. "Penso nas coisas que poderiam ter sido e não foram". Maldita imobilidade de futuros irrevogáveis, de passados imutáveis. Perdi o emprego em um hotel. Hoje nem o hotel existe mais. Perdi chances e me arrependi. Penso sempre em não me render, confabulo com os inimigos, bebo chá com alguns eus duvidosos. Perdi um casaco rosa no shopping. Perdi a hora de alguns encontros (na verdade eu faltei a alguns desses encontros por medo e outros por farra). Perdi peixes na hora de tirar o anzol. As tampas do dedão do pé ao bater em calçadas hostis. Perdi jogos na televisão e também o prazer de vê-los. Perdi pedaços de dentes, reais e imaginários, aqueles que eu sonho e coincidem sempre com a falecimento de algum conhecido meu. Perdi parentes, amigos, levados pelas mãos de veludo da dona morte. Perdi metade da unha do pé esquerdo; o apêndice; dois discos da coluna; muitos fios pretos se assombraram com a minha vida e embranqueceram; posters de cinema esquecidos na pensão da Jô. Perder, perder. Vivemos para perder e para ter o prazer de reecontrar coisas que achávamos perdidas. Ou para ter o prazer de descobrir, em meio a dias confusos, sensações que considerávamos mortas. Prefiro viver, nem que seja para perder inúmeras coisas. O simples fato de poder me lembrar delas já é uma dádiva por demais bela. "Só não me deixe esquecer a cor dos seus olhos de noite". ***** All Star Sabe esses dias em que você, cansado de dar murros em pontas de facas, resolve deixar a vida escorrer lentamente por entre seus dedos? São dias valiosos. Raros, mas muito valiosos. E por serem poucos devemos receber esses dias em pleno peito como o abraço de uma criança. Singelezas chamam singelezas, possa o bem triunfar (mal copiando Ésquilo). O mundo se transmuta em uma imensidão incolor. São momentos em que cremos pouco, que sorrimos muito, que nos basta a pele e a pele. E a vida escorre então, em câmara lenta, consigo ver a cor dela, é prata como um vestido de festa, com brilhos e miçangas. Ser homem nesses dias é se abandonar ao impossível. É se doar em mil pedaços. É sorrir sempre. Dar você mesmo os bons dias tão solicitados por todos. Abraços de camurça. Palavras escorrem da boca como mel. Ficamos adocicados e fartos. Se pudessemos sinalizar para o mundo que estamos tão fáceis, tão aptos para entreter a todos, nos dariam um estandarte e nos estenderiam o tapete vermelho guardado para os Papas não beijarem o chão sujo. Não nos assusta o ônibus cheio. Nem as pessoas apressadas das calçadas. As notícias ruins não nos alcançam. São dias em que um simples All Star, com listras azuis, em nossos pés abre portas de mundos inviáveis, os caminhos se transformam em estradas de tijolos amarelos. Passo a passo, sigo. É macio. Posso dançar? Nada é mais simples que estar calçado com pés de vento. Se Hermes fosse vivo, trocaria sua asinhas no tornozelo, por um All Star de listras azuis. Como eu, nesse sábado de sol. ***** Pedra do sol [...] "vou por teu corpo como pelo mundo, teu ventre é como praça ensolarada, teus peitos dois templos onde oficia o sangue a seus paralelos mistérios, como hera te cobrem meus olhares, és cidade que o mar assedia e muralha que esta luz divide em duas metades da cor do pêssego, um lugar de sal, rochas e de pássaros sob a lei do meio-dia absorto, vestida com a cor dos meus desejos como meu pensamento vais desnuda, vou por teus olhos como pela água, os tigres bebem sonhos nesses olhos, o beija-flor se queima nessas chamas, vou por teu rosto como pela lua, como a nuvem vou por teu pensamento, vou por teu ventre como por teus sonhos," [...] Octávio Paz * Matsuo Bashô 
Escrito por Meridiano Sangrento às 13h33
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Lembrancelhas
Até que idade nosso cérebro consegue retornar e assim ser uma testemunha crível de fatos passados? MInha mãe morreu e eu tinha quatro parcos anos. Ela se foi e na minha cabeça restaram retalhos de lembranças que nem sei se são meus de verdade ou ecos do que ouvi falar dela. Eu a vejo cozinhando, pra mim ela devia ser uma excelente cozinheira, ou pelo menos era prática o suficiente pra saber alimentar, a contento, sua generosa prole. O que é real? O que é fictício? Nem eu sei mais, ou então, nunca soube. Apenas que algumas imagens dela me surgem desfocadas em que ela sempre tem o rosto do único quadro que temos dela. Ela usa vestidos coloridos e seu rosto é preto e branco. Lembro um desses memoráveis almoços. A carne, por falta de geladeira, era guardada em latas de banha de porco. Nesse dia, parece que passou do ponto e estava com um sabor mais para o ruim do que pro bom. Meu pai, impávido, almoçou tudo, com aquela feição de homem da casa, que não sorria nunca ( e pensar que hoje ele sorri o tempo todo, feliz por estar ludibriando o tempo e ainda ter saúde aos 86 anos - será que ele sente saudades da minha mãe?). Minha mãe, serena e esperta, com um gesto de mão e com todo o carinho possível no rosto indicou que eu não precisava comer. Como ela descobriu que estava ruim? Ela sabia. As mães sempre sabem. Mas queria lembrar mais. Salvar trechos inteiros. Colá-los com superbond. Remendar e dar-lhes formas. Isso sempre acontece quando converso com alguém da minha família. Eles acrescentam trechos inteiros sobre ela que eu não sabia, eu reorganizo minhas memórias, acrescento as novidades. Sei que ela ensinou todos os meus irmãos. E que como professora ela era carrasca. Não aprendia, apanhava. Sei que um dos meus irmãos não aprendia a tabuada e que ela caia furiosamente sobre ele. Essa simples menção faz com que eu recrie sempre essa história. Coitado desse irmão. Já apanhou de cinto, corda, pau; já foi colocado de castigo no milho, em quarto escuro. Minha mãe, aquele gigantesco doce, era brava? Comigo não. Nunca. Mais qual a razão de lembrar da minha mãe hoje? Na verdade o texto é sobre lembranças, memórias. Como a gente consegue recordar de coisas detalhadamente, de outras razoavelmente, e por fim, de algumas partes da nossa vida surgem borrões. Lembranças partidas, reconstruídas por trechos de e-mail, por acaso guardados, fotos, fatos. As vezes lembramos de trechos de conversas, de momentos tristes. A lembrança mais triste da minha mãe, e eu acho que essa recordação é minha e real, foi numa tarde na fazenda do meu pai em que morávamos. Eu estava no colo dele, ela estava perto, tinhas alguns irmãos? quem sabe irmãs? Só sei que de repente meu pai disse que precisava fazer alguma coisa e ia à cavalo em tal lugar e eu disse que iria também. Meu pai me levou para os braços da minha mãe, mas eu recusei, pulei me joguei e diante de tanto barulho, meu democrático pai, tirou a bainha de sua faca e me bateu: uma, duas, três, quatro vezes. Eu chorei e corri para a minha mãe. Meu pai montou no cavalo e foi embora. Eu não sei o que pensei naquela hora, só me recordo dessa cena inteira, sempre. Hoje quando vejo minhas filhas, fico tentado a recriar alguns dos bons momentos que tivemos juntos e descubro, horrorizado, que muitos deles, estão se tornando borrões. Apagados como algum fax porventura guardado. Como extrato de banco em que os números vão distraidamente se apagando. A história se repete, o que elas guardam de mim? O que é mais importante? Como fazer pra ter sempre dias memoráveis? Viver é um eterno recontar de fatos. Eu sou um prisioneiro de minhas lembranças, mesmo as que vão se apagando, pois eu me apego a elas como um náufrago segura uma tábua no oceano. ps: Canastra no Fly? Yes, nós fomos...
Escrito por Meridiano Sangrento às 13h07
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Caldo de piranha
Elas chegaram no porta-malas de Jorge, meu cunhado. Ele ainda tem familiares em Corumbá, e, sempre que possível vai passear por lá, agora que sua vida está apaziguada. Trouxe doze mimosas piranhas. A uma simples menção delas - piranhas - abala-se corações e mentes dos nhecolandenses da família. Salivamos só de pensar nelas, tal qual cachorros em frente de frangos que giram em portas de padarias. Fato: doze piranhas não conseguiriam satisfazer os veneráveis saudosistas da família e para completar compraram também dois pacus e, voilá, estava combinado o jantar. Família reunida e nem é feriadão? Aniversário de um sobrinho-neto meu. É, família grande faz com que tenhamos tantos parentes que nem chegamos a conseguir contabilizá-los. O caldo de piranha é apenas um preparativo antes do grande almoço de domingo. Se minhas sextas-feiras contassem com explendidos jantares como esse, acho que minha vida seria melhor - mas divago. Estão asfaltando o bairro do meu pai. Meus irmãos moram nele a inacreditáveis 16 anos, e nesse explêndido ano de 2009, mais que ser sede da Olimpíada de 2016, vale festejar o asfalto tão pretinho, estendido aos pés da casinha dele. Tudo é tão bucólico na região em que ele mora, agora, se tornará um pouco mais cosmopolita, mas ele recebe a todos com o caldo já pronto, mal terminado os abraços já coloca na minha mão meu primeiro copo de caldo. Ah! queria ser Proust e explicar o que acontece comigo quando bebo o primeiro gole. O caldo rústico não tem a leveza da madeleine proustiana, mas me remete de pronto a diversos lugares em que já morei e a outros tantos que desconheço. Sinto cheiro de camalotes. Sinto o gosto de água correndo, impávida e colossal. Escuto pássaros e o zumbido frenético de mosquitos e mutucas. Posso, como Manoel de Barros, sentir o cheiro do sol. Passada essa comoção, sentamos pra tomar cervejas e não consersar sobre nada efetivamente. Psicólogos, psiquiatras, livros de auto-ajuda, nada se compara a isso, sentar, bebericar uma cerveja, tomar um caldo e desconversar. Ficamos nisso até descobrir que os pacus, cortados e temperados numa bacia estavam à minha espera para serem fritos. Mãos à obra. De pé, na minúscula cozinha, ás vezes quatro, em outras, sete pessoas se espremem pra tentar fritar o peixe, continuar esquentando o caldo, fazer um arroz, lavar e temperar uma salada, falar de pessoas ausentes, rir. Minha família passou a maior parte do tempo em torno de fogões e churrasqueiras, no trabalho, ou solitários em seus lares. Somos assim, simples e expansivos. Uma vez me chamaram de simplório, hoje acho que a simplicidade é uma roupa que visto bem. Os peixes fritos estão encantados. Mal os coloco numa assadeira forrada com papel toalha, desaparecem. Os peixes fritos são apenas mais um aperitivo. Embaixo da mesa, sim embaixo, pois não restam lugares na cozinha do meu pai, está uma panelona e dentro o resto das piranhas. Essas, meu pai fritou e ensopou, junto com todas as doze cabeças. Cabeça de piranha. Se o caldo de piranha na minha mão, na minha boca, é uma pétit madeleine, degustar a cabeça ensopada de uma piranha é o meu Aleph. Um ponto em que todos os pontos do universos podem ser visualizados. Será que Borges comeu alguma vez cabeça de piranha ensopada? Ou, na sua infinita cegueira, sequer supôs a existência dessa abençoada iguaria? Me abandono em mim destroçando a maior das cabeças de piranha da panela. Algo de mágico ocorre. Recordo das vezes em que, morando em Corumbá, a única coisa que podíamos comer eram peixes. Pra nós, o milagre da multiplicação dos peixes era mais que um milagre, era uma necessidade dolorosa. Se os peixes não comessem as nossas iscas na beira do rio, passávamos o vazio frio da fome. Sobrevivemos, os peixes não nos abandonaram. Ontem, comendo uma cabeça de peixe, sentado ao lado do meu pai, perto de alguns irmãos, o tempo parou, como já não parava há muito. Não seria exagero dizer, mesmo que o exagero faça parte do meu modo de escrever, que na casa do meu pai, despida de móveis, sem um sofá que seja. Com bancos à guisa de poltronas, com cadeiras contrabandeadas da casa ao lado, não seria exagero dizer que esse ambiente tão simples é um portal para outros mundos, outras dimensões, que lá, em algum lugar que desconhecemos todos, existe uma escada que liga direto com o céu. Meu pai seria então o guardião dessa dádiva. Peixe frito ou carne assada são o néctar divino, servidos numa ceia, que dado a idade do meu pai, pode ser sempre a última, mas fazemos sempre parecer que é a primeira, a primeira de muitas.
Escrito por Meridiano Sangrento às 13h28
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