Mudanças dos planos que não tínhamos...
Quando separei julguei que o mundo estava acabado, descolorido, virtualmente sem reparo. Estava errado. O nosso mundo tem a estranha mania de se renovar; mudar bruscamente de direção. É como o vento, zune cá, refresca lá, falta acolá. Refeito, novos horizontes surgiram. Minha vida se transformou, fui como que renascendo. Até que me senti pronto para novas batalhas. Faltava algo. Sempre parecia que faltaria pedaços nessa nova vida. Filhos... "Filhos?/Melhor não tê-los!/Mas se não os temos/Como sabê-lo?/Se não os temos/Que de consulta/Quanto silêncio/Como os queremos!/Banho de mar/Diz que é um porrete.../Cônjuge voa/Transpõe o espaço/Engole água/Fica salgada/Se iodifica/Depois, que boa/Que morenaço/Que a esposa fica!/Resultado: filho./E então começa/A aporrinhação:/Cocô está branco/Cocô está preto/Bebe amoníaco/Comeu botão./Filhos? Filhos/Melhor não tê-los/Noites de insônia/Cãs prematuras/Prantos convulsos/Meu Deus, salvai-o!Filhos são o demo/Melhor não tê-los.../Mas se não os temos/Como sabê-los?/Como saber/Que macieza/Nos seus cabelos/Que cheiro morno/Na sua carne/Que gosto doce/Na sua boca!/Chupam gilete/Bebem shampoo/Ateiam fogo/No quarteirão/Porém, que coisa/Que coisa louca/Que coisa linda/Que os filhos são!" Vinícius de Moraes
E no meu caso, filhas. Nunca soube porque as tive. Vieram. Surgiram. Sempre preferi as mulheres. A beleza sutil. O carinho cheiroso. Nunca quis ter meninos. Tinha a certeza que ter meninas significava tê-las comigo mais tempo. Era meio óbvio. Pequenas, elas ficam sempre por perto. A menstruação viria aos 14 quem sabe 15 anos. Dai começariam os interesses pelos meninos. Namoricos que eu expulsaria com chispas nos olhos. Moleques que correriam de medo a minha evidência varonil de pai presente. Achava que as meninas que começavam a namorar cedo, a transar cedo era por não terem uma família ajustada. Achava, achava. Achei tudo errado. Menstrua-se agora com 12 às vezes 13 anos. Os hormônios brotam furiosos. Os meninos, ah, pobre de nós os meninos. Somos facilmente induzidos ao erro. A mim, pai de olhos atentos, enganavam com doces mentiras: "vou dormir na casa da fulana, olha, liga pra falar com a mãe dela etc."; "vou no show com minhas amigas". Meninas, eu as quis por achar que seriam minhas até aos 18 quando enfim, entrariam na faculdade e daí eu perderia os bebês. Tudo bem, continuam meus bebês. Mas agora tudo isso é tão diferente. E veio a separação, com suas confusões atrozes, e eu fui, e elas ficaram. E elas vinham e, à princípio, eu nem as via direito. Depois, quando as vi, o mundo já havia girado de novo. Elas haviam crescido. A de 17 faz agora faculdade de economia. A de 13 usa sutiã com bojo. A 1/2 filha bandeou-se para o lado de lá. Filhas pra que tê-las mesmo? Elas comandam tudo. Hoje eu vou, hoje não vou. Façamos assim e não assado. Tão bom quando elas chupavam giletes; quando bebiam shampoos. Como queria que elas ateassem fogo no quarteirão e não, como agora, na cidade inteira. Resumo da ópera: Segunda, telefone toca, atendo. Descubro que algo não vai bem na Dinamarca em que elas moram. Chego em casa. Tenho visita. Entro, descubro o que é, o que foi. Não sei se foi presente. Ou que o que aconteceu é algo que será duradouro. Só sei que nessa semana eu fui instado a cumprir minha obrigação de pai presente. Três tigres chegaram na minha casa, dois foram embora. Uma tigresa de unhas dos pés vermelhos. Livro de estatística. Uma mala preta, pequena até para o alto dos seus 17 anos, ficou. O que vai ser? Não tenho a menor ideia, mas, não deixemos a vida nos levar... Nem façamos como Sócrates dizendo "só sei que nada sei". Eu sei o que aconteceu. É uma chance que surge pra que exista um possível nós de novo. Deixemos de lado os medos e os tremores de ser tudo só uma fuga dela, não pensemos que se trata apenas de uma "temporada" na minha casa, aproveitemos tudo ao máximo. Quando foi a última vez que nós moramos juntos na mesma casa? Junho de 2006... O mundo girou...
Escrito por Meridiano Sangrento às 16h40
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