As estações humanas


"Os meses e os dias são viajantes da eternidade" *

Perdendo os dentes

Nutro o silêncio com o meu melhor sussurro. Singular é a certeza que percorre os vazios. Vazio como as perdas que acumulamos vida afora. "Sei que perdi tantas coisas que não poderia contá-las, e que essas perdas, agora, são o que é meu" (Borges). Perdi o detalhe das coisas, a miopia levou. Por isso admiro tanto quando o que vejo posso tocar. Toco logo encanto-me. Minha mãe morreu e está sempre ao meu lado. Perdido estão amigos. Presas em algum limbo, mulheres que, porventura, convivi. Escondida, minha fé. Um homem sem fé é invencível, pois nunca luta de verdade, só em doces palavras. Desencontrei-me da gorda esperança, era um fardo carregá-la. Perdi objetos: alguns dei, outros doei, muitos abandonei - como um certo blazer branco no elevador de uma loja de departamentos. Vivo minhas perdas, pois nunca consegui organizar para mim um quarto de despejo, pois o grande despejado da vida fui eu. Meus livros, um cachorro, cds, revistas, pé de pitanga. Uma quase namorada em um carnaval desastroso; uma outra namorada que se foi num outro carnaval. "Penso nas coisas que poderiam ter sido e não foram". Maldita imobilidade de futuros irrevogáveis, de passados imutáveis. Perdi o emprego em um hotel. Hoje nem o hotel existe mais. Perdi chances e me arrependi. Penso sempre em não me render, confabulo com os inimigos, bebo chá com alguns eus duvidosos. Perdi um casaco rosa no shopping. Perdi a hora de alguns encontros (na verdade eu faltei a alguns desses encontros por medo e outros por farra). Perdi peixes na hora de tirar o anzol. As tampas do dedão do pé ao bater em calçadas hostis. Perdi jogos na televisão e também o prazer de vê-los. Perdi pedaços de dentes, reais e imaginários, aqueles que eu sonho e coincidem sempre com a falecimento de algum conhecido meu. Perdi parentes, amigos, levados pelas mãos de veludo da dona morte. Perdi metade da unha do pé esquerdo; o apêndice; dois discos da coluna; muitos fios pretos se assombraram com a minha vida e embranqueceram; posters de cinema esquecidos na pensão da Jô. Perder, perder. Vivemos para perder e para ter o prazer de reecontrar coisas que achávamos perdidas. Ou para ter o prazer de descobrir, em meio a dias confusos, sensações que considerávamos mortas. Prefiro viver, nem que seja para perder inúmeras coisas. O simples fato de poder me lembrar delas já é uma dádiva por demais bela. "Só não me deixe esquecer a cor dos seus olhos de noite".

*****

All Star

Sabe esses dias em que você, cansado de dar murros em pontas de facas, resolve deixar a vida escorrer lentamente por entre seus dedos? São dias valiosos. Raros, mas muito valiosos. E por serem poucos devemos receber esses dias em pleno peito como o abraço de uma criança. Singelezas chamam singelezas, possa o bem triunfar (mal copiando Ésquilo). O mundo se transmuta em uma imensidão incolor. São momentos em que cremos pouco, que sorrimos muito, que nos basta a pele e a pele. E a vida escorre então, em câmara lenta, consigo ver a cor dela, é prata como um vestido de festa, com brilhos e miçangas. Ser homem nesses dias é se abandonar ao impossível. É se doar em mil pedaços. É sorrir sempre. Dar você mesmo os bons dias tão solicitados por todos. Abraços de camurça. Palavras escorrem da boca como mel. Ficamos adocicados e fartos. Se pudessemos sinalizar para o mundo que estamos tão fáceis, tão aptos para entreter a todos, nos dariam um estandarte e nos estenderiam o tapete vermelho guardado para os Papas não beijarem o chão sujo. Não nos assusta o ônibus cheio. Nem as pessoas apressadas das calçadas. As notícias ruins não nos alcançam. São dias em que um simples All Star, com listras azuis, em nossos pés abre portas de mundos inviáveis, os caminhos se transformam em estradas de tijolos amarelos. Passo a passo, sigo. É macio. Posso dançar? Nada é mais simples que estar calçado com pés de vento. Se Hermes fosse vivo, trocaria sua asinhas no tornozelo, por um All Star de listras azuis. Como eu, nesse sábado de sol.

*****

Pedra do sol

[...]
 
"vou por teu corpo como pelo mundo,
teu ventre é como praça ensolarada,
teus peitos dois templos onde oficia
o sangue a seus paralelos mistérios,
como hera te cobrem meus olhares,
és cidade que o mar assedia
e muralha que esta luz divide
em duas metades da cor do pêssego,
um lugar de sal, rochas e de pássaros
sob a lei do meio-dia absorto,
 
vestida com a cor dos meus desejos
como meu pensamento vais desnuda,
vou por teus olhos como pela água,
os tigres bebem sonhos nesses olhos,
o beija-flor se queima nessas chamas,
vou por teu rosto como pela lua,
como a nuvem vou por teu pensamento,
vou por teu ventre como por teus sonhos,"
 
[...]
 
Octávio Paz

 

* Matsuo Bashô



Escrito por Meridiano Sangrento às 13h33
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