Lembrancelhas
Até que idade nosso cérebro consegue retornar e assim ser uma testemunha crível de fatos passados? MInha mãe morreu e eu tinha quatro parcos anos. Ela se foi e na minha cabeça restaram retalhos de lembranças que nem sei se são meus de verdade ou ecos do que ouvi falar dela. Eu a vejo cozinhando, pra mim ela devia ser uma excelente cozinheira, ou pelo menos era prática o suficiente pra saber alimentar, a contento, sua generosa prole. O que é real? O que é fictício? Nem eu sei mais, ou então, nunca soube. Apenas que algumas imagens dela me surgem desfocadas em que ela sempre tem o rosto do único quadro que temos dela. Ela usa vestidos coloridos e seu rosto é preto e branco. Lembro um desses memoráveis almoços. A carne, por falta de geladeira, era guardada em latas de banha de porco. Nesse dia, parece que passou do ponto e estava com um sabor mais para o ruim do que pro bom. Meu pai, impávido, almoçou tudo, com aquela feição de homem da casa, que não sorria nunca ( e pensar que hoje ele sorri o tempo todo, feliz por estar ludibriando o tempo e ainda ter saúde aos 86 anos - será que ele sente saudades da minha mãe?). Minha mãe, serena e esperta, com um gesto de mão e com todo o carinho possível no rosto indicou que eu não precisava comer. Como ela descobriu que estava ruim? Ela sabia. As mães sempre sabem. Mas queria lembrar mais. Salvar trechos inteiros. Colá-los com superbond. Remendar e dar-lhes formas. Isso sempre acontece quando converso com alguém da minha família. Eles acrescentam trechos inteiros sobre ela que eu não sabia, eu reorganizo minhas memórias, acrescento as novidades. Sei que ela ensinou todos os meus irmãos. E que como professora ela era carrasca. Não aprendia, apanhava. Sei que um dos meus irmãos não aprendia a tabuada e que ela caia furiosamente sobre ele. Essa simples menção faz com que eu recrie sempre essa história. Coitado desse irmão. Já apanhou de cinto, corda, pau; já foi colocado de castigo no milho, em quarto escuro. Minha mãe, aquele gigantesco doce, era brava? Comigo não. Nunca. Mais qual a razão de lembrar da minha mãe hoje? Na verdade o texto é sobre lembranças, memórias. Como a gente consegue recordar de coisas detalhadamente, de outras razoavelmente, e por fim, de algumas partes da nossa vida surgem borrões. Lembranças partidas, reconstruídas por trechos de e-mail, por acaso guardados, fotos, fatos. As vezes lembramos de trechos de conversas, de momentos tristes. A lembrança mais triste da minha mãe, e eu acho que essa recordação é minha e real, foi numa tarde na fazenda do meu pai em que morávamos. Eu estava no colo dele, ela estava perto, tinhas alguns irmãos? quem sabe irmãs? Só sei que de repente meu pai disse que precisava fazer alguma coisa e ia à cavalo em tal lugar e eu disse que iria também. Meu pai me levou para os braços da minha mãe, mas eu recusei, pulei me joguei e diante de tanto barulho, meu democrático pai, tirou a bainha de sua faca e me bateu: uma, duas, três, quatro vezes. Eu chorei e corri para a minha mãe. Meu pai montou no cavalo e foi embora. Eu não sei o que pensei naquela hora, só me recordo dessa cena inteira, sempre. Hoje quando vejo minhas filhas, fico tentado a recriar alguns dos bons momentos que tivemos juntos e descubro, horrorizado, que muitos deles, estão se tornando borrões. Apagados como algum fax porventura guardado. Como extrato de banco em que os números vão distraidamente se apagando. A história se repete, o que elas guardam de mim? O que é mais importante? Como fazer pra ter sempre dias memoráveis? Viver é um eterno recontar de fatos. Eu sou um prisioneiro de minhas lembranças, mesmo as que vão se apagando, pois eu me apego a elas como um náufrago segura uma tábua no oceano. ps: Canastra no Fly? Yes, nós fomos...
Escrito por Meridiano Sangrento às 13h07
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