Caldo de piranha
Elas chegaram no porta-malas de Jorge, meu cunhado. Ele ainda tem familiares em Corumbá, e, sempre que possível vai passear por lá, agora que sua vida está apaziguada. Trouxe doze mimosas piranhas. A uma simples menção delas - piranhas - abala-se corações e mentes dos nhecolandenses da família. Salivamos só de pensar nelas, tal qual cachorros em frente de frangos que giram em portas de padarias. Fato: doze piranhas não conseguiriam satisfazer os veneráveis saudosistas da família e para completar compraram também dois pacus e, voilá, estava combinado o jantar. Família reunida e nem é feriadão? Aniversário de um sobrinho-neto meu. É, família grande faz com que tenhamos tantos parentes que nem chegamos a conseguir contabilizá-los. O caldo de piranha é apenas um preparativo antes do grande almoço de domingo. Se minhas sextas-feiras contassem com explendidos jantares como esse, acho que minha vida seria melhor - mas divago. Estão asfaltando o bairro do meu pai. Meus irmãos moram nele a inacreditáveis 16 anos, e nesse explêndido ano de 2009, mais que ser sede da Olimpíada de 2016, vale festejar o asfalto tão pretinho, estendido aos pés da casinha dele. Tudo é tão bucólico na região em que ele mora, agora, se tornará um pouco mais cosmopolita, mas ele recebe a todos com o caldo já pronto, mal terminado os abraços já coloca na minha mão meu primeiro copo de caldo. Ah! queria ser Proust e explicar o que acontece comigo quando bebo o primeiro gole. O caldo rústico não tem a leveza da madeleine proustiana, mas me remete de pronto a diversos lugares em que já morei e a outros tantos que desconheço. Sinto cheiro de camalotes. Sinto o gosto de água correndo, impávida e colossal. Escuto pássaros e o zumbido frenético de mosquitos e mutucas. Posso, como Manoel de Barros, sentir o cheiro do sol. Passada essa comoção, sentamos pra tomar cervejas e não consersar sobre nada efetivamente. Psicólogos, psiquiatras, livros de auto-ajuda, nada se compara a isso, sentar, bebericar uma cerveja, tomar um caldo e desconversar. Ficamos nisso até descobrir que os pacus, cortados e temperados numa bacia estavam à minha espera para serem fritos. Mãos à obra. De pé, na minúscula cozinha, ás vezes quatro, em outras, sete pessoas se espremem pra tentar fritar o peixe, continuar esquentando o caldo, fazer um arroz, lavar e temperar uma salada, falar de pessoas ausentes, rir. Minha família passou a maior parte do tempo em torno de fogões e churrasqueiras, no trabalho, ou solitários em seus lares. Somos assim, simples e expansivos. Uma vez me chamaram de simplório, hoje acho que a simplicidade é uma roupa que visto bem. Os peixes fritos estão encantados. Mal os coloco numa assadeira forrada com papel toalha, desaparecem. Os peixes fritos são apenas mais um aperitivo. Embaixo da mesa, sim embaixo, pois não restam lugares na cozinha do meu pai, está uma panelona e dentro o resto das piranhas. Essas, meu pai fritou e ensopou, junto com todas as doze cabeças. Cabeça de piranha. Se o caldo de piranha na minha mão, na minha boca, é uma pétit madeleine, degustar a cabeça ensopada de uma piranha é o meu Aleph. Um ponto em que todos os pontos do universos podem ser visualizados. Será que Borges comeu alguma vez cabeça de piranha ensopada? Ou, na sua infinita cegueira, sequer supôs a existência dessa abençoada iguaria? Me abandono em mim destroçando a maior das cabeças de piranha da panela. Algo de mágico ocorre. Recordo das vezes em que, morando em Corumbá, a única coisa que podíamos comer eram peixes. Pra nós, o milagre da multiplicação dos peixes era mais que um milagre, era uma necessidade dolorosa. Se os peixes não comessem as nossas iscas na beira do rio, passávamos o vazio frio da fome. Sobrevivemos, os peixes não nos abandonaram. Ontem, comendo uma cabeça de peixe, sentado ao lado do meu pai, perto de alguns irmãos, o tempo parou, como já não parava há muito. Não seria exagero dizer, mesmo que o exagero faça parte do meu modo de escrever, que na casa do meu pai, despida de móveis, sem um sofá que seja. Com bancos à guisa de poltronas, com cadeiras contrabandeadas da casa ao lado, não seria exagero dizer que esse ambiente tão simples é um portal para outros mundos, outras dimensões, que lá, em algum lugar que desconhecemos todos, existe uma escada que liga direto com o céu. Meu pai seria então o guardião dessa dádiva. Peixe frito ou carne assada são o néctar divino, servidos numa ceia, que dado a idade do meu pai, pode ser sempre a última, mas fazemos sempre parecer que é a primeira, a primeira de muitas.
Escrito por Meridiano Sangrento às 13h28
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