As estações humanas


Uma barreira entre nós

Relacionamento pais e filhos é algo bem instável. Aos pais ordena-se que mantenha a lei e a ordem. Que crie seus filhos dentro dos padrões pré-estabelecidos pela sociedade. Os pais são os primeiros censores dos filhos. Entregamos a eles a cartilha a seguir, não de maneira brusca, mas à conta-gotas, diariamente. Não faça isso, não vá por esse caminho, seja assim, agora assado (aqui é uma citação sutil de uma música do Secos&Molhados, lembram-se?). Manipulamos, cortamos, ordenamos, forçamos, aparamos o que achamos serem arestas que os outros não podem ver nunca. O que a sociedade enxerga nos nossos filhos, é claro, será colocado na conta dos 
pais. Por isso é um tal de "não fale de boca cheia"; "vista-se bem"; "respeite isso"...uma imensidão de "você pode ou não pode". Relação de pais e filhos nunca muda. Agora a relação de pai separado com as filhas, quanta diferença. Inexiste nele (o relacionamento) contrapartidas. Perde-se grandes nacos um da vida do outro. De repente, por conta de um feriado, de uma alteração qualquer no dia a dia das partes, você reencontra sua filha, olha pra ela, a analisa, primeiro sutilmente, depois mais atenciosamente e eis que você descobre o que mudou. Do nada, seu bebê agora usa sutiã com bojo. Seu bebê agora tem seios, aquela mesma menina que passava uma parte do tempo vestida só de calcinhas agora tem uma vaidade a mais no seu catálogo. 
 
Céus, existe uma barreira entre pais e filhos, a menarca surge, o tempo, agora ganha pés de Hermes. E eu, pai separado coruja, sofro a cada mínima alteração. Dói a alma toda vez que percebo que os bebês não são mais bebês. De que têm gostos diferentes do meu. Penso maluquices, quem sabe um pacto com o demônio, riscando alguma encruzilhada à meia noite: "devolva os meus bebês e leve minha alma simplória". Tenho medo do escuro que é ver minhas filhas crescendo. Partindo pra longe de mim, a cada semestre da faculdade que uma completa; a cada creme pra cabelos que a outra experimenta. Sutiã com bojo é uma novidade por demais atroz para um pai presente, quanto mais pra um ausente que nem eu. Sinto vontade de chorar, mesmo sabendo que minha obrigação de pai diz: "felicite-a, diga-lhe que ela ficou linda com o sutiã, lembre-se que você é o primeiro homem da vida dela, dos seus carinhos paternais derivarão os carinhos que ela vai cobrar dos futuros namorados". Sei de toda essa psicologia, mas, a princípio, fecho a cara, me incomoda saber que minha filha tem seios. A sexualidade de filhas só deveria surgir quando elas tivessem dezoito anos, tá pelo menos a das minhas filhas. E eu vou aprendendo conforme a dança. Foi assim com a minha filha do meio. Um dia menstruou; quando eu menos esperava, beijou; quando eu nem fazia ideia...melhor deixar esse assunto pra lá...
 
O bojo do sutiã da minha filha é só o bojo do sutiã dela. As pedras no meio do caminho, ficam por conta da minha imaginação paternal. Ela ficou linda com o novo sutiã. Ela está crescendo, se tornando mais ela, ganhando contornos de uma futura mulher, que eu espero, seja uma pessoa legal, honesta, ética, carinhosa, independente, profissional, mas principalmente, feliz. O bojo é só uma fase, pior talvez será aquela fase em que a mulher sai de casa com o bico do seio furando blusas, adoro ver isso em outras mulheres, mas acho que me matarei quando vir isso nelas....prefiro, aí sim, estar ausente nesta hora, pois se tiver perto, mandarei elas pra casa, colocarem uma roupa mais decente, ou porque não, um sutiã com bojo.
 
 
ps: para ler ouvindo "ciranda da balairina" com a Mônica Salmaso


Escrito por Meridiano Sangrento às 19h35
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