Um mundo nem sempre admirável ou novo
Maínha me deu um lápis Com exceção das músicas, não indico muita coisa aqui não. Mas esse lugar eu tenho visto de vez em sempre, e podem acreditar, é bom. Bom como beijo. Bom como café. Bom como pão com mortadela em movimento. Bom como pastel do japonês. Bom... Godard Estranho o que vivo hoje. Esquisito. Sinto como se fosse necessário pra sobreviver, não ser. Não saber. Não pensar. Me embalar pelo tudo de bom que já foi. Por lembranças ainda quentes, como pão caseiro. Desejos por se completar. Sei lá, são dias de Alphaville. É Godard e Anna Karina. É Anna correndo no Louvre. É Karina dançando no bar. É o começo e o fim. É o fim e o começo. Pesadelos sonhados por outras pessoas e contrabandeados para a minha cama, pra atrapalhar minha noite. É açoite sem esperança. Dias com menos brilhos. É espera numa janela. É um copo com água e terra. A lenta espera pra que tudo assente. Palavras são como lentos punhais abandonados, cravados no ego. Mas eis que permaneço, íntegro. Sem muitas marcas aparentes, nem tantas assim dormentes... "A luz que desaparece, a luz que regressa. Um único sorriso para os dois. Por precisar de saber, vi a noite criar o dia sem que mudássemos de aparência. É bem amado por todos e bem amado por um. Em silêncio, a tua boca prometeu ser feliz. 'Afasta-te, afasta-te', diz o ódio. 'Aproxima-te mais', diz o amor." 
Ilustração: Vânia Medeiros
Escrito por Meridiano Sangrento às 20h41
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Batatinha
Ela sempre foi uma criança lindinha. Existem fotos dela, os olhinhos perdidos num horizonte particular, um queixo altivo, um nariz intrépido. Poderia, hoje, desfiar pra um ela um rosário de adjetivos, mas, adjetivar não vai melhorar sua bacia, machucada no acidente que ela sofreu ontem. Um Ford Ka, o carro adolescente. Pequeno "bólido encapuzado", como diria uma música que não me recordo quem fez, a acertou, forte o suficiente para uma fratura, não tão forte que exija cirurgias e rehab complexa. Dois meses de molho. Dois meses sem faculdade. Dois meses deitada, aguardando o tempo passar lentamente, como só ele não sabe passar quando temos pressa. Ela não é minha filha. Eu a conheci quando tinha três ou quase quatro anos. Numa praça, ela com a mãe. Eu conversava com a mãe dela, até tentei brincar com ela, mas foi fiasco total. Fiasco em cima de fiasco, esse sempre foi meu relacionamento com ela. Eu a chamo de minha 1/2 filha. Ela deve me achar, quando muito, o pai das irmãs dela. Não a culpo pelas complicações na nossa relação. Ela perdeu de uma tacada pai, avó, tias, tios, primos, primas. Eu levei na troca a mãe dela e ela. Talvez hoje ela já entenda os motivos que levaram à separação da mãe dela; os motivos que nos levaram a ficar juntos; os motivos pra tanta mudança em tão pouco tempo, bagunçando a cabecinha de uma criança. Passado o desconforto inicial, eu me atirei de cabeça na tarefa, inglória, de conquistá-la. Me desfiz em mil. Fui o alfa e o ômega dela, bom, pelo menos tentei. Tinha tudo pra dar errado, como acho que deu. Filhos de pais separados, de péssimo desenlace no casamento, mas que mantêm o contato com o pai, tornam-se completas incógnitas. Era o caso dela. O pai nunca se conformou com a situação. Ensinou-lhe que o correto era ter medo de mim. Era me evitar. Não brincar comigo. Ensinou-lhe um mantra pra toda vez que eu chegasse perto dela: "você vai falar pra ele, vagabundo, vagabundo, vagabundo"; ela, criança perdida entre mundos que nunca escolhera repetia então: "vagabundo, vagabundo". Desse começo complicado derivou todo o resto do relacionamento. Por não ser seu pai, ser um vagabundo aos olhos do pai dela, a quem ela achava que devia respeito, a nossa vida não foi fácil. Muita contradição pra uma pessoa só, ainda mais criança, pois eu era legal. Minhas obrigações para com ela eram maiores até de que com as minhas filhas legítimas. Ela vivia entre mundos. Ia e voltava, um final de semana só, bastava pra bagunçar ainda mais a cabeça dela. Passamos por poucas e boas. A pobreza era nossa amiga íntima. Moramos mal, nos mudamos várias vezes e quem vê fotos desse período ela estará sempre longe de mim, propositadamente, para se manter íntegra aos olhos invisíveis do pai. Nunca amenizei, errei com ela tudo que não podia errar. Tentei com ela tudo pra conquistá-la. Lembro-me quando lhe comprei bolitas, é, simples bolitas que a fizeram ficar em êxtase de alegria. Jogávamos numa parte da casa que não dava pra ninguém ver, tínhamos que ser amigos escondidos. Brincar de esconde esconde na penumbra da noite. Montar quebra-cabeças longe de janelas. Ela aprendeu a andar de bicicleta primeiro que eu. Ela achou um skate e existem fotos maravilhosas dela com ele: chupeta amarela, shortinho amarelo e ela em cima de um skate. Eu a ensinei a jogar vôlei, ela sacava bem, mas quando adolesceu os esportes não combinaram mais com saltos altos, ela tinha virado uma patricinha. Vivia então num mundo rosa. Tudo rosa. Se fosse me lembrar de tudo que passamos juntos encheria alguns cadernos. Hoje ela está com a bacia quebrada, mais uma vítima do que podemos chamar de desastre nacional. Campo Grande é uma das cidades que têm mais carros no país inteiro. Impressiona os números da frota. Impressiona os números dos acidentados. Motoqueiros quebrados. Pessoas atropeladas. Carros arrebentados. Todo mundo aqui conhece pelo menos uma pessoa que sofreu um acidente de trânsito. Todo mundo já presenciou um. Nada vai mudar agora que a Batatinha passou a fazer parte desta contabilidade macabra. Ela vai se recuperar. Voltar a ficar longe de mim. Não me ligar. Não ir na minha casa. São coisas que aprendi com a separação. Tudo muda, mas às vezes, tem coisas que já eram assim e nem percebíamos. Nunca fomos íntimos. Nunca trocamos confidências. Mas mesmo assim saber que ela sofreu um acidente e eu só fui informado quando ela já estava em casa é estranho. Lembro-me de quando ela era pequena e acordava no meio da noite era o meu nome que ela chamava. Vivemos entre muros de afetos contidos. Ela hoje tem seu universo, seus sonhos. Eu vivo os meus. Ela me liga no meu aniversário; ás vezes atende as ligações que faço pra falar com as irmãs delas; eu vejo ela no Natal, na Páscoa compro um ovo gigante pra três, e no dia do aniversário sempre compro um presente, algo que está cada vez mais difícil de fazer. E seguimos, como podemos. Somos bons pedreiros, eu faço a massa ela traz os tijolos, nos revezamos na arte de erguer barreiras de indiferenças cada vez maiores, por hora nada vai mudar. 
ps: eu a vi hoje, fraturou um osso com nome de gente, levei-lhe um livro apesar dela não ler nada; está bem na medida do possível... ps2: o livro é A Criança no Tempo do Ian MacEwan...
Escrito por Meridiano Sangrento às 21h17
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