As estações humanas


A arte de morrer aos poucos

Aprender a morrer, é o que Montaigne diz que a filosofia ensina ou devia ensinar. Aprender a morrer é o que faço todo dia, meticulosamente. Aprender a morrer é uma arte. Exige desprendimento. Desejo de continuar intacto. Paciência. Vontade de se partir em mil pedaços. Sabedoria para se recriar. De pequenas em pequenas mortes, recrio-me. Adquiro milhagens para o inevitável dia.

Pretendo que meu velório seja uma celebração. Em meu enterro, tocar-se-à Morphine, Belle & Sebastian, Sonic Youth e otras cositas mas como Klaus & Kinski. Na hora de baixar o caixão, please, sem cerimônia, Miles Davis. Nunca me enterrem numa curva, nem em dia de chuva, tenho horror a essa dobradinha: chuva e enterro. Queria que alguns amigos da cidade em que nasci dessem as caras. Que alguns amigos virtuais mandassem e-mails que seriam pendurados junto às inevitáveis coroas de flores. Quem gostar mesmo de mim, evite esse tão tradicional arremedo de consideração, mande livros. Esses devem ficar espalhados por todos os lugares, principalmente nas cadeiras, para que as pessoas que cheguem sejam obrigados a pegar neles, acariciá-los, quem saber ler um trecho. Passarei a marcar passagens que mais adoro, ler será falar direto comigo. Alguns destes livros devem ser dispostos em torno do caixão. Alguns xodós meus, um Borges, algum Kafka, Hesse, deixarei uma lista mais pormenorizada. Todos os livros que não forem levados, pelos sentidos visitantes, devem ser doados em bibliotecas de bairro, o mais longe do centro da cidade. Pode-se aproveitar a presença dos livros e organizar um sarau. Quem souber poemas de cor, recite-os para o morto ou em voz alta, não se constranja. Acredite, se houver vida após a morte, esse morto em questão estará rindo, feliz por velório tão glorioso. Seria pedir demais que algumas bebidas fossem servidas? Nada escandaloso, algumas garrafinhas, cheias de água que passarinho não bebe, democraticamente, passando de mão em mão. Se, porventura, as leis anti-fumos já tiverem chegado à nossa cidade, uma exceção será aberta. Todos poderão fumar paieiros, ou charutos - cigarros não, que estes matam sem glória nem confabulações. As minhas viúvas terão lugar privilegiado. Se assim desejarem, é claro. Poderão enfim se abandonar em falar mau do morto, pois como dizia Dostoiévski: "os ausentes são sempre os culpados". Na hora de me levarem para o cemitério, como tenho muitos irmãos, deles o privilégio de me carregarem em seus braços. Baixado o corpo, joguem pétalas de rosa, ou se puderem, formosas e cheirosas orquídeas. Evitem jogar terra, é uma barulho horripilante aquele. Para missa de sétimo dia, se conseguirem, troquem os hinos por alegres pop songs, os sermões por poemas ou trechos de ShakespeareIa me esquecendo de algo essencial, como tenho muito medo da solidão, apesar de cortejá-la diariamente, dentro do caixão coloquem um mp4 com uma bateria novinha em folha, tendo cuidado de arrumar bem no meu ouvido, algo que dure o tempo exato para que eu me desgrude da terra e parta para o infinito, não o infinito de Milan Kundera: “o infinito está dentro de nós, para encontrá-lo basta fechar os olhos”; falo da eternidade em que todos os vivos que me conheceram curtirão à sua maneira a minha desajeitada ausência, até que lentamente sobre aquela tristeza comedida e uma alegria sóbria enquanto saudosamente, recuperam em seus arquivos imagens minhas que haviam sido arquivadas em pastas passadasA arte de aprender a morrer, que ninguém tarde a aprender, eis uma grande lição.



Escrito por Meridiano Sangrento às 16h32
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Letters

Em datas festivas, comemoro com minhas meninas, sempre com algum presente, mas sempre com 
uma carta. O mundo seria melhor se as pessoas trocassem mais cartas entre si. Cartas são os melhores psicólogos que existem. Em cartas podemos dar vazão a sentimentos parados. Algumas sensações não podem nem devem ficar paradas como poças de água, cria algo parecido com a dengue, só que no espírito.
 
****
Natividade
 
Quando era pequeno o que eu mais gostava de fazer, e fazia, era sonhar acordado. Tal qual um roteirista criava as histórias e por elas e com elas eu levava meus dias. Para mim a vida era um morte sem fim, a grandeza da minha família me condenava aos cantos das casas, andar sobre muros era meu avião, laranjas roubadas eram tesouros, goiabas tinham o sabor de ambrosia. Eu queria ser jogador de futebol, não mais um, o maior de todos; o Maracanã cantava em coro o meu nome (bem, o meu não, que eu achava feio, era Siro), depois de todos os títulos eu ia para a Itália e lá ganhava todos os troféus também e a história ia ficando sem graça por excessos do criador. Aposentava um pouco o jogador, virava piloto de caça, jogador de tênis, médico da Cruz Vermelha, sempre o cara mais legal, o mais bondoso, o mais...mais, e as histórias morriam por falta de realidades.
 
Um dia vieram me visitar, trazidas por cegonhas gigantescas (rosa com pés pretos) algumas meninas, elas não me deixavam mais sonhar, era pai pra cá, vai pra lá...meus sonhos ficaram pendurados, não sobrava tempo para eles. Todo homem precisa sonhar, eu não, eu vivia meus sonhos e posso dizer que ainda os vivo hoje. Ir ao cinema, pegar na escola, comer cachorro quente com cenouras, tentar ler o Great Expectations do Dickens, ouvir músicas, falar ao telefone...tudo isso parece tão pouco não, para quem tinha tanto. Mas não é, as faltas eu preencho com sonhos, e acredite todos são muito emocionantes. Na última vez nós visitamos Machu Pichu juntos, têm dias que eu sinto o cheiro de Moais, vejo a brancura de imensidões geladas que visitamos oniricamente... B******, não se esqueça de viver mas sempre que possível sonhe, a vida fica mais amena assim...
 
Beijos...Feliz Natal....


Escrito por Meridiano Sangrento às 16h26
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Senhas&Songs&Vidas

A solidão é nossa maior parceira vida afora. Na verdade refletimos a solidão que sentimos, pois somos lobos, vagamos mundos, transbordamos taças, avistamos ilhas. Todas as nossas resoluções são tomadas em meio aos silêncios que emanamos. Podemos até nos decidir ir numa festa pois todos os amigos irão, mas nem sempre nossas decisões tem esse cunho comunitário; uma grande parte delas são cruelmente paridas dentro de nós. Nós e o nosso espelho, que é o nosso duplo. Nem sempre podemos contar hoje com uma decisão de ontem para que o amanhã aconteça. Mas sempre teremos que ouvir aquela falta de som que emanamos lenta e sorrateiramente. A palma da mão se umedece, está dado o sinal – o corpo está confabulando. Ficamos aéreos; sensitivos, voláteis, frágeis. De repente as feições se endurecem, o corpo está tocando em assuntos complexos. Se, ao contrário, sorrimos, o corpo caminha para uma decisão que agrada gregos e taurinos. Quanto tempo levamos tomando decisões? O tempo inteiro, o dia inteiro. Até em sonhos decidimos sobre assuntos de vida e morte. Nós somos na verdade não somos homus sapiens e sim homus decisions. Acordar ou fingir que não acordou. Levantar ou não levantar. Escovar os dentes primeiro ou mijar? Tomar banho ou café? Comer pão com manteiga ou com ovo frito? Vestir a calça jeans de ontem ou a limpa que está no guarda roupa? Tênis ou sapato? De ônibus ou a pé? Hoje estou animado ou mau-humorado? Darei bons dias distantes ou esfuziantes? Almoçarei ou não? Neste restaurante ou naquele? Massa ou carne? Com carne ou sem carne? E seguimos desfiando um rosário de pequenas decisões. Decida-se. Eis uma boa camiseta. Esquerda ou direita? Natureza ou poluição. Cigarro numa esquina ou pulmões limpos como consciência de neném? Decida-se. Dilma ou Serra? Loira ou morena? Azul ou lilás? Kafka ou Dan Brown? Decida-se. A vida lhe impõe isso o tempo inteiro. Decida-se ou morra tentando. Algumas decisões te arrancam novamente da caverna que você se escondeu. Outras são timidamente mostradas em meio a um mar de mãos. Viver é isso, um fascinante decidir-se, sabendo que as suas decisões, são sempre suas, pessoais e intransferíveis. Não cabe ao outro a culpa por suas decisões. Não cabe a ti, se o outro errou nas avaliações dele. O que sempre é bem-vindo são decisões sem dores, ou no máximo, com lágrimas por ter se decidido pelo caminho correto. Seja qual for a decisão tomada, todos as direções tem a sua cota de pedras para enfrentar. Temos que estar aptos para nos decidirmos, todo dia, toda hora, todo minuto, a cada instante – de nossas solitárias micro-decisões faz-se o todo que nos compõe. Queiramos ou não, gostemos ou não, é a solidão que melhor nos representa.

 

PS: quem voltou? Ana e o Mar. Mar e Ana. Eu sou o mar e ela sempre será Ana por inteiro.

 

PS2: E porque não Once?

 

 



Escrito por Meridiano Sangrento às 14h00
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Eterno jardim

As pessoas olham para o alto dos meus cabelos brancos e querem respostas. Eu devolvo o olhar e informo que uma grande quantidade de dúvidas que surgem do lado de lá, eu cultivo cá com os meus botões, pois sou tão inexperiente no viver como todo mundo. É a inexperiência que nos explica não a sabedoria das rugas. Quando adentramos este "palco de loucos" (Shakespeare) nós nunca havíamos vivido, se sim, possivelmente esquecemos de tudo, para termos agradáveis 'déja vus' vida afora. Dada essa partida magistral tudo fica como que num reino mágico das possibilidades. Primeiro carinho, primeiro leite materno, primeiro cocô, primeiro vômito - vivemos no reino da 'primeiridade'. Nos arrastamos, engatinhamos, andamos trôpegos e vamos rompendo a tênue linha das iniciações. Tudo é novo e feito com temor e desejo. Quando damos o primeiro beijo existe nele uma surrealidade devoradora, mas um outro em pessoa diferente é tão primeiro quanto o número um. São bocas diferentes, são desejos diversos, são situações que nos limitam ou nos empurram. Ninguém aprende com um acidente que porventura sofreu no máximo que ossos quebram, que latarias entortam, que beber e dirigir não combinam, mas tudo isso já sabemos sem precisar nos estatelarmos num muro. Como podemos querer no outro a experiência de vida dele? No máximo ele pode enumerar suas primeiras vezes, suas tentativas e erros e nós tentaremos retirar dali algo benéfico pras nossas estréias. Quando casei, eu nunca havia casado antes. Se casar de novo vai ser tudo tão novo quanto a primeira vez. Talvez eu tenha aprendido com algumas dores, talvez eu deseje tudo novo pra não cair nos mesmos erros. A inexperiência é o que nos empurra. Cada livro começado é uma novidade fascinante; a cada livro terminado sou um pouco mais complexo, mas nem um pouco mais interessante, a não ser que a pessoa queira que eu lhe conte sobre o livro, mas falar sobre um livro não é falar sobre a experiência de ter lido o livro que aí já é outra história. Quando as pessoas esperam soluções brilhantes dos idosos se esquecem que eles nunca haviam sido velhos antes, estão apenas estreando nessa condição. Mesmo quando eles se resignam em contar das suas 'experiências' estão apenas contando das suas estréias em tempos que já passaram. Não existem duas digitais iguais, nem íris repetidas; o jeito que uma pessoa faz uma coisa nunca vai ser parecido como outra faria ou fará. Por isso somos complexos, pois somos incompletos. Ser esse quebra cabeças em criação é o que nos torna tão interessantes. Ter medo das coisas, buscar no outro um pouco das suas vivências fará quando muito que descubramos um pouco do outro, nunca algo sobre nós mesmos. Meu pai, do alto dos seus 86 anos, pouco me ensina, ele está aprendendo a cada dia que passa, e suas mentiras são fantásticas estórias. Eu pouco passo pras minhas filhas, pois sou um eterno aluno. Minhas filhas se iniciam a cada dia em coisas novas que eu mesmo nunca vivi, como poderia ensinar pra elas? As pessoas no máximo gostam de coisas que os outros fazem e, enquanto não sabem como fazer aquilo do seu jeito, imitam o outro. Imitação é um caminho para o aprendizado, nunca é viver por si só. Nem precisamos de muito pra saber que somos poucos, somos eternos atores sempre em dia de lançamento do filme da nossa vida, um filme que nunca termina e que recomeça a cada vez que respiramos...

 

 

 

 

 

 

 

PS: Pra manter uma tradição vários Travis



Escrito por Meridiano Sangrento às 21h13
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