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A silenciosa Gripe A
Cedo, caminhava para o serviço, nas calçadas desviava de cuspidas - sempre quis saber o que leva uma pessoa a cuspir na própria calçada que anda, porra, cospe na sarjeta, nunca vi ninguém andar na sarjeta. Num semáforo perto de casa paro e vejo se encaminhando para o meu lado um moço de bicicleta. Ele solta uma mão do guidão e assoa o nariz escrepitosamente. Seus fluídos corporais se espalham para o meio da rua, ele limpa a mão na própria roupa. Uma cena linda de se ver pela manhã. Linda, bem dito, lá no buraco do qual o dito cujo saiu. Em tempos de gripe matando pessoas, fazer o que ele fez beira o ridículo. Mas, qual a razão de estar falando nisso? Simples, me explico: A garota do chocolate está com suspeita de ter contraído a nova gripe, a irmã dela já pegou; é impressão minha ou a doença está sendo subestimada ou menosprezada pelos governantes? Fica a torcida pra que não seja nada disso; que estejamos preocupados à toa, pois como disse o ministro no Congresso, a pior coisa é entrar em pânico. Mas a gripe segue acontecendo, não no mesmo ritmo das notícias, pois os jornais chegam às bancas ainda timidamente falando sobre ela. Deve ter sido o pito presidencial, acusando de alarmista a imprensa. Pelo visto só sabe da gripe os que conhecem alguma pessoa que já passou pelo problema, como a mãe da garota do chocolate que é enfermeira e vem trabalhando num ritmo maluco. Com o posto de saúde em que dá plantão estando lotado o dia e a noite inteira também, com pessoas morrendo ao redor. E o Ministério da Saúde disse que no ano passado só em julho morreram 4500 pessoas da gripe comum. Como assim? Que país é este? 4500 de gripe comum? E ainda falam pra não nos preocuparmos? Ridículos. São tão ridículos que pra mostrar que a nova gripe não é tão perigosa relativizam com mortos..."Não se preocupem, a gripe comum mata tanto quanto essa nova gripe". Na verdade o que mata é o descaso. "O importante" - brada um tal lá - "é lavar as mãos dez vezes por dia". E aí eu pego um ônibus e seguro na barra que não sei quem segurou. E dentro do ônibus alguém tosse e todos se entreolham assustados. No restaurante self-service todos usam os mesmos pegadores de comida. No supermercado todos compartilham o pegador de pão. Escolas retiram bebedouros coletivos pra que ninguém corra o risco de pegar a doença ali. Agora todos tem que trazer uma garrafinha de casa. Tanta coisa acontecendo e o governo diz o quê? Não se preocupem. E alguns, esses muitos estúpidos também, aproveitam pra espalhar que a gripe é inventada por quem? Sim, pelos americanos. Não se cansam essas pessoas de tanta burrice e vontade de culpar os gringos por tudo? Eles a teriam criado pra vender o Tamiflu. Mesmo que fosse, o que transmite a gripe aqui não são os imperialistas-americanos, na verdade, e de maneira geral é a falência do setor de saúde pública do país. As pessoas ficam gripadas, acham que podem estar com a doença, vão buscar informações precisas nos postos, chegam lá e está tudo lotado, pois todos tiveram a mesma ideia e os postos, é óbvio, não estão preparados pra isso. Resultado? Os postos não conseguem cuidar de todos os casos, algumas pessoas são mandadas de volta pra casa, alguns com a gripe sim, mas o resultado do exame demora a sair; outras são transferidas pra hospitais, também lotados e o caos, lentamente, vai se instalando. E o governo o que diz? "Não sejam alarmistas!". Não dúvido nada se daqui algum tempo, alguma cabeça coroada dizer: "Mesmo que essa gripe tenha matado muita gente, se fosse num governo neoliberal morreria muito mais pessoas. Agora, com o Bolsa-Família as pessoas comem mais, vivem melhor e assim o vírus da gripe não atacou tão forte quanto poderia se fosse em outros tempos". Ou então: "Se a direita não tivesse acabado com a CPMF nada disso teria ocorrido". O silêncio dos meios de comunicação beira o ridículo. Os profissionais da área da saúde estão sobrecarregados, férias são alteradas, trabalham direto sem direito a descanso, alguns médicos estão com medo de atender os pacientes. E o governo o que faz? Como Pôncio Pilatos lava suas mãos em álcool gel. O importante é que ninguém venha dizer depois que a culpa é do governo, pois ano que vem é ano eleitoral e o nada pode abalar o Ibope do presidente, pois "nuncaantesnestepaiz".... 
Escrito por Meridiano Sangrento às 20h13
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"A morte inventada"
Sou meu pior algoz. Agonizo em praça pública enquanto caminho lentamente para cadafalsos inexistentes. Dos problemas que ainda persistem, contabilizo os piores: a falta de crença em mim mesmo - algo lindo que combinaria se tivesse quinze anos; o temor de dar alguns passos; o tremor pra dar outros. Estou sempre na defensiva, fugindo de encontros em meio de salões. Criando mundos imaginários, ou seriam problemas imaginários, que expliquem meu mau humor. Dia dos pais. Eu sou pai. Recepciono minhas filhas, que na verdade já estou esperando chegarem a horas. Abro os presentes. Um alívio - desta vez nada de porta-cds. Chinelos lindos, um roupão que nem chego a abrir, com a desculpa de que abrirei na casa nova. Pesado o ar. Trago para a manhã de domingo fantasmas, inventados, de sábado. Vamos tentando. A carne está assando. Explico que vamos comer também feijão preto, arroz, mandioca cozida e farofa de cebola. Elas gostam, na casa delas comida boa só de restaurante. Conversamos, a trilha sonora é rock: Beirut, Killers, Cash, etc. Conto do show; falo da garota do chocolate pogando de vestido amarelo em meio a um bando de doidos. Elas riem. Reclamam da mãe. A menor quer abraços que distribuo a granel. A minha alma está mais pesada que o céu. Opressão inexplicável. Herança maldita. Calo o que devia falar. Falo o que devia calar. Erro, me complico. Vamos conversando, em alguns momentos deixo de sentir o fio que sempre nos ligou - "o problema hoje sou eu", penso. Tenho vontade de sumir, de me recriar para este dia, pelo menos. Mas somos bons atores, não inventamos peças novas, vamos do trivial mesmo. Falamos, falamos, mesmo que eu não me sinta tão à vontade, falamos. O almoço pronto, comemos. Lavo roupas. Rimos. Resolvo um pouco do meu problema, via embratel. Elas cochilam um pouco. Eu vejo futebol na tv. Elas acordam, eu faço jantar. Comemos. Estamos mais animados. Assistimos tv entre vozes dissonantes. Na Record vemos uma reportagem sobre pais separados; pessoas impedidas de verem seus filhos. Nos entreolhamos. Nós nos vemos, podemos nos abraçar, sair, podemos até dormir na mesma casa, péssima, mas podemos. Podemos tanto, fazemos tão pouco. A separação é isso "uma lenta chuva de renúncias" (Cortázar). Nós vamos, devargar, renunciando uns aos outros, nos apegando aos botes que possam garantir uma sobrevida a tudo. Vamos reorganizando nossas vidas. Compondo novos mundos. Nos faltando e criando desculpas plausíveis para nós mesmos. Sete e meia, a campanhia da realidade toca. A mãe chega para nos despedaçar mais uma vez. Somos pacatos, nos últimos abraços queremos nos guardar uns nos bolsos dos outros. Queremos que o tempo pare, que a dor cesse, sejamos honestos, queremos o impossível. - não esqueceram nada bebês? - sim, dá um último quebra-costelas? - vem cá.... E caímos uns braços do outro, cheio de faltas, mesmo com tanta presença...
Escrito por Meridiano Sangrento às 13h46
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Cultura pop ou canções a muito esperadas
O mosh rolou tímido, o terceiro que tentou, os seguranças já levaram pra longe do palco. O pogo também foi tímido, o espaço não permitia grandes arroubos, com exceção da música final, em que alguns malucos e algumas doidas de vestido amarelo, executaram uma perfeita dança do desastre. De resto "o bom e velho rock n'roll" passeou entre nós através da figura estranha e camarada dele, Wander Wildner. Os desavisados tentavam falar seu nome e soletravam lendo o cartaz do lado de fora do 21, wann-der-uil-d-ner...como assim uil-d-ner? Algumas pessoas realmente não conhecem o Wander? De que planetas essas pessoas vem? É a falta da imprescindível cultura pop. As pessoas não tem cultura pop, não conhecem músicas, bandas de rock, desconhecem filmes, autores, gibis, toda uma cultura trash. Se esbatem diante de falésias em forma de nomes, beatniks, punk, marginal, cult, cool, rajnesh. Pogar ou não pogar eis a questão. Como explicar que, para alguns desafortunados, Wander ser quase um alienígena? À primeira vista as pessoas podem estranhar sua figura esquisita, dentes tortos, calça social, camisa entreaberta, sua pose de amante latino brega-e-chique. Mas como pode ser que as pessoas não conheçam sua música, sua carreira, sua fase replicante, a fase solo...tudo se explica, tudo, até isso, é a cultura pop que inexiste malgrado a presença do sagrado You Tube, é a falta de gosto pelo inusitado, pelo diferente, o que destoa, o que se inventa e não se vende. "Ah, mas ele gravou o acústico pra MTV, como não se vende?"´. As pessoas estão sempre prontas pra apontar seus dedinhos sujos e dizer: "esse cara é podre que só vendo, tão ruim quanto uma banda de pagode". Pode ser, pode ser. A fidelidade nunca é das coisas mais fáceis, fidelidade é coisa individual, pois se gostamos, somos incondicionais e pronto. Wander é o que é e o que mostrou ali no palco. Uma pessoa que canta "eu não consigo ser alegre o tempo inteiro" falando direto à nossa alma, mas com aquele sorriso de escárnio no canto da boca. Eu, que não consigo ser alegre o tempo inteiro mesmo que tente com muita força, acho bom demais. Se ele tem uma camiseta escrita eu te amo, e isso é muito brega, é que dentro de nós, mesmo que escondamos, todos temos nosso cadinho brega camuflado. Não temos nenhum amigo punk, deve ser isso. A nossa diversidade é elitista, decadente e preconceituosa. Os ouvidos nunca estão preparados para novas milongas, ou oito ou oitocentos. O público do show era na realidade uma mescla de alguns desses elitistas conhecedores do moço e uma maioria elitista de surfistas, que pegaram a onda errada e se afogaram na primeira braçada e os corpos foram contablizados aos montes numa praia cheia de pedras ridentes e pedaços de cálices. Melhor assim, dos nossos primeiros balbúcios, os trêmulos passos inaugurais, das primeiras palavras que escrevemos, tímidos num papel, a nossa vida toda é um aprendizado. Wander, pedagogicamente, serviu como mestre de cerimônia pra muitos. Alguns talvez tenham tentado, no domingo, ouvir alguma coisa dele novamente, dando uma chance às suas emoções; outros podem tê-lo descartado definitivamente de suas vidas, e reclamado o tempo perdido. Os que lá foram porque queriam, gostaram e poderiam até terem ficado um pouco mais naquela vibe, tudo acaba, muitas não como começa. Wander, como César, veio, viu, venceu - felizes os convidados para a ceia que dela se aproveitaram, evitaram a conversa torta, os discursos vagos, os inimigos da incerteza, e enquanto a benção rolava, comeram todos os pães e beberam todo o vinho...sozinhos e apaixonados, como bons professores de underground. Ser cult ou não ser....eis a questão...enquanto somos ouvimos uma bela "canción inesperada" que a vida é curta como coice de porco...ou por conta da gripe do porco.

Escrito por Meridiano Sangrento às 19h55
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