As estações humanas


Black pages

"morto em palavras"

Reparo nas teias de aranha que teimam em me rodear nos últimos três anos. Nada mudou na minha vida a não ser que agora eu sou um inútil diplomado – na verdade mais inútil que diplomado pois ainda não quitei o último semestre e assim sigo com um provisório certificado de conclusão nas mãos. Em tempos lulistas o ‘diproma’ é algo tão útil quanto vendedor de geladeiras no deserto. O Prouni, essa geringonça criada em priscas eras – agora defenestradas – FHC, custeou 50% dos meus estudos. Devia eu me embrenhar pelo interior do país, pagando minha dívida com o governo piedoso, mas, como o corvo de Poe, digo “never more never more”, pois a publicidade com aquela mocinha chorando por ter entrado pra medicina com bolsa total, esconde a realidade atroz. Os cursos são sempre de terceira, como arroz e feijão que fazem parte de alguma cesta básica dividida entre os desvalidos. Formado em que mesmo? Letras, eu me formei em Letras. Estava entre Letras ou História, mas na hora de optar, movido talvez por algum livro devorado na véspera, marquei Letras. E a segunda opção era Direito – “pois eles ganham muito dinheiro e sempre dá fazer um concurso”. Agora já acho ter sido uma ironia do destino ter-me formado em Letras, com bolsa parcial do Prouni, numa universidade particular de padres, com 70% de professores desqualificados. Pergunto se isso não é a realização de todos os pesadelos de uma pessoa? Um pacote de maldades. Acabaram-se os mistérios. A máscara rolou no chão e diante do espelho duas coisas aconteceram: primeiro, recordo-me Borges que diz em ‘Tlön, Uqbar, Orbis Tertius’: “os espelhos e a cópula são abomináveis, porque multiplicam o número dos homens”, lembrança patética e inútil mas que não me abandona nunca (e aqui é só um descanso antes da verdade fatal); segundo, e principal, desfez-se a cadeia de enganos que consegui trazer até aqui, eu fui meu pior guia e por isso, sem misericórdia, me auto condenei ao ostracismo dos inúteis e desinteressantes, aqueles que vivem nem sabem pra quê nem o por quê. Logo, pra pedir autorização para deixar esta vida que não me pertence mais, sento-me nesse banco dos réus. Em frente na bancada dos jurados, diversos eu me observam, reparam, conversam entre si, sacodem as cabeças negativamente ao tomar conhecimento dos fatos que envolvem a causa, o fim está próximo...

“A chuva lavou/As pessoas do morto/E lavou o morto/Com a sua fisionomia/De torto/E com seus pés de morto/Que arrastava um rio seco” Manoel de Barros

Celebração da inutilidade

Com a palavra o réu:

“Todos os anos comemoro, em silêncio, o aniversário de alguma grande trapalhada minha. Foram muitas, não faltam fatos, graúdos ou miúdos, pra recordar. Deviam erguer um monumento às pessoas patéticas, assim como tem para o soldado desconhecido ou para aquelas pessoas eminentes. Esses monumentos são a celebração da estupidez humana, ficam ao relento, levando cagadas de pombos e o desconhecimento dos passantes, isso seria uma boa punição pra mim, a imortalidade do cocô de pombos, o olhar parvo dos humanóides. Seria como Níobe, que petrificada, chora para todo o sempre. Eu não celebro quase glórias, são deméritos totais, inúmeros e devastadores. Como a vez em que fui escolhido o jogador revelação do melhor campeonato de várzea da cidade, ah que glória sensacional (tem uma ironia aqui). Todos os meus amigos ou aqueles que estudaram comigo estavam dedicando seu tempo com coisas úteis (todos estão melhores que eu), eu, embriagado por ganhar uma medalha de revelação do campeonato de várzea, tendo como agravante que meus irmãos participaram da votação e fizeram lobby pra que eu ganhasse. Iludi-me por uns dias com aquilo, até que na primeira briga que teve em casa já me jogaram na cara a verdade e eu entendi do provisório e do eterno das coisas. Eu nunca desejei nem uma coisa nem outra, hoje eu quero, a eternidade dos pombos voando ao meu redor com seus piolhos podres, sentando no meu ombro e dialogando entre eles, sujando meu terno de ferro, alugado, é claro (um pássaro eterno e de terno voando ao norte sem sair do lugar). Outra parvoíce? A reprovação na oitava série por conta de uma miopia muda. Não entendia nada de matemática. O professor sempre de terno, com uma careca lustrosa e bigodinho fino parecia saído de algum livro de Proust, empolado para os 38º da nossa cidade. Eu ali, a duas cadeiras de poder enxergar, passei o ano sem compreender direito o que acontecia naquelas aulas e sem compartilhar com ninguém, ao fim falhei, óbvio, fragorosamente. Celebrar a inutilidade de fatos passados é algo que complementa a minha inutilidade em si. É dessa circularidade que minha vida é feita. Esses labirintos a que sempre retorno, essa encruzilhada que evito, temendo os demônios, que sei, inexistentes”.

Um acusador: Saber dos problemas não explica nada e sim não os ter enfrentado a tempo. A vida se repete e em se repetindo retornam as chances de corrigir erros ou de não cometê-los de novo, se comete os mesmo erros isso é imperdoável.

“As despedidas e o suicídio perdem sua dignidade quando repetidos” (Borges)

As vírgulas

O réu:

Não sei usar as vírgulas. Atrapalho-me com elas e com o idioma como um todo. Minha compreensão é parca, leio mais por distração que para aprender. Dos mais de cem livros lidos, guardo de verdade o clichê da leitura. Como poucos posso debater Kafka só por cima, como uma nata nojenta num copo de leite. Conto pra vocês algumas histórias de Jack London, posso até enfeitiçar meus ouvintes com frases soltas de Nietzsche, apesar de nunca ter entendido uma fuck vírgula dos livros dele que li. Posso dizer pra você mil razões pela qual a leitura de Paulo Coelho é inadequada. Escandalizar-me pela quantidade incrível de livros espíritas lançados toda semana. Mas que sei eu dos prazeres ou fés alheias? Eu que leio sofregamente e nem respeito a pontuação, atrapalho-me com os pensamentos quebrados de um poema. Confundo a obra com a pessoa. Recuso-me a ler alguns autores por conta das suas convicções políticas. Eu não sei usar a pontuação. Não aprendi nas escolas que passei, pois estava mais ocupado macaqueando as pessoas legais que via, tentando ficar parecidas com elas. Uma vida perdida quando se descobre a própria nulidade em usar pontos e mesmo assim insistir e formar-se numa faculdade que exige que a pessoa distinga sujeito de predicado, adjetivo de substantivo. Eu não sei dos problemas dos outros com as vírgulas, sei dos meus problemas e pra mim já basta saber das minhas inutilidades, é por conta delas (minhas inutilidades e não as vírgulas) que me tornei o que o sou.

Os jurados: tomam notas meticulosas e disparam: "Tristezas, canta tristezas, e possa o bem triunfar" (Ésquilo).

“- nada acontece, apenas um piscar do sol, um movimento apenas, nada, não há redenção, não retorna o tempo, quedos em sua morte estão os mortos e sem poder morrerem de outra morte[...]” (Paz)

O escafandro e a borboleta

“Hoje, sinto que minha vida é uma série de frustrações. Mulheres que não fui capaz de amar...oportunidades que eu não soube avaliar...momentos de felicidade que deixei escapar. Uma corrida cujo resultado...eu conhecia de antemão, mas falhei em escolher o vencedor. Tenho sido cego e surdo...ou o duro golpe me faz descobrir a minha verdadeira natureza?” &

Uma testemunha de acusação:

Atado ao seu escafandro impossibilitado de utilizar os refluxos da sua imaginação, nunca foi realmente o que quis ser, menos o que esperavam dele. Recordo-me das incontáveis promessas em que seu nome surgia envolto, eram bons presságios. Ele as demoliu uma a uma. Algo que realmente sempre foi bom, boicotar suas chances de sucesso. Por medo, dúvidas, temor, desespero, vontade corrupta de ajudar alguém na hora e momentos errados. O que sempre faltou e falta, a mistura secreta dos seus desacertos: coragem. Procurar resolver agora, decidido a abreviar essa precária agonia, fugindo aos embates que ainda tem que travar é só colorir com mais cinza sua já descolorida vida...

O réu: silencioso, escuta rabiscando em uma folha de papel imaginária.

“I have no name:

“I am but two days old.”

(Blake)

& citação do filme 'O escafandro e a borboleta' de Julian Schnabel....

Jasão sem Medéia

Uma testemunha de defesa:

Ele foi uma boa pessoa. Mesmo sabendo que de boas almas o inferno está cheio, posso dizer que ele cumpriu bem seu papel. Como explicar com palavras a dor que lhe acometeu vida afora? Poderia explicá-lo falando em destino. Sua família está destinada a vagar pelo mundo afora. Trazem no sangue uma condenação mortal, carregam sua cruz pela vida. Mesmo em paz ecoa neles o sino da dor, a marca fatal gravada na história dos seus antepassados. Devem ter jogado pedras na cruz, devem ser descendentes direto de traficantes de escravos, bandeirantes apresadores de indígenas. Hoje, os cabeças de gato herdeiros, pagam o preço daquelas vidas mau vividas, sofrem o que não cometeram pessoalmente, mas sim os seus antepassados. Nenhum deles está livre do sofrimento. Poderia dizer também que a culpa não é dele. Filho de família numerosa e estranha, foi criado sem amor e carinho. Mas isso não explica nada, pelo contrário, prejudicaria muito, pois muitos vivem pior e mesmo assim não querem abandonar a vida. Espero ajudar quando conto que ele solitariamente sobreviveu às agruras familiares, com ímpeto monumental. Na verdade, esperava-se que ele entregasse os pontos bem antes. Este encontro dele com a sua vida está atrasado em alguns anos, o que só comprova sua fibra, ou vontade de acertar. Se não deu certo, não significa que não dará nunca. Por isso posso citar Maduque, e é como se falasse dele:

“Cheguei atrasado para a festa da vida e da morte. Cheguei em companhia de quem nem conhecia. Mas, mesmo assim, mesmo estando só, mesmo estando só de passagem, fizeram-me esperar à porta. O riso, não celebrado, não aconteceu de novo. E tudo ficou tão tarde. Desejei passear um pouco lá fora e acompanhar o cortejo de árvores. Tranquei-me sujo com o mijo escuro da noite. Tranquei-me com mil pássaros. Tranquei-me com um pouco da própria carne entre os dentes. Meu medo, enfim, por fim, sem riso celebrado, desencabulou-se e saiu de casa. Foi apanhar-me no meio da rua.”

Charme chulo”

Resposta do coro

A resposta de ser ou não ser, é ser, é ser. Mesmo que tudo seja sofrer, é você, só você. E a tristeza vêm da parede pelo ar, sem porquê. Pra agüentar tanta liberdade, é sonhar ou morrer. Sempre estarei feliz apenas a esquecer, de mim mesmo desesperada paz de Deus. Não deixe a vida te levar, não deixe a vida te levar... Quando chove todos reclamam. Quando faz calor todos reclamam. Mas quando está bom ninguém sabe o que fazer, o que fazer! E todos sabem que é assim que as coisas sempre são. São problemas tão pequenos e... existe um mundo imenso por aí, aahhh! Não deixa a vida te levar. Não deixa a vida te levar. E em se tratar de um grande engano esse tal me levar’. Perigoso é a cumplicidade de um país. "Vida, não leva eu, não!"

 

http://www.youtube.com/watch?v=71we6HI_cNs&feature=fvsre2

 

the end.....



Escrito por Meridiano Sangrento às 20h46
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