As estações humanas


Vendo Cabeça-de-Gato jogar

As cartas nas velhas mãos dele. Uma breve análise das possibilidades, um olhar, fingindo desatenção, aos outros. E começa o embate das figuras. Sua primeira jogada já vislumbra diversas variações. Como num jogo de xadrez os golpes pesam mais a cada lance. Contam-se pontos. Ensurdece o lance maior. Imbido imbido. Trinta e três. Ganhou de mão. As sementes rubro-negras são entregues aos vencedores. Segue. O segundo lance é calculado em bases frágeis. É dado a vaza, uma armadilha silenciosa, tramada com rostos sisudos. É um jogo de gato e rato que termina com o coringa devastando os adversários. Contabiliza-se a primeira rodada, eles ganharam seis sementes, o adversário nada. Pausa, piadas, explicações da rodada anterior, fartos goles de cerveja, tudo sem perder de vista as cartas nas mãos do embaralhador da vez, pode ocorrer um camaço. Recomeça. É a miúda. O velho aguarda sua vez pacientemente. Espia os adversários se digladiando. Os pontos são trocados, o jogo fica parelho. Ele recebe com oito a quatro. Sorri, busca imaginariamente um cheiro inexistente, é a flor. São três tentos de uma vez que ele completa com uma saída auspiciosa e tática. Onze a cinco, o deslavre fica perto. Alguém levanta pra zelar o churrasco. A costela espetada o pernil de carneiro e a linguiça ao lado da mesa é um belo espetáculo. Nova rodada, o mão do velho está péssima. Ele não se abate, pelo contrário, mente descaradamente. Mas é uma mão ruim pra todos, o um ponto ganho foi uma glória. Deslavraram a zero e os outros chegaram a oito. Nova miúda. O adversário vem pesado. O velho apara o ímpeto dele com uma pianca. Revira o imbido e massacra o oponente com golpes de "tomou papudo". Só ele ganhou quatro sementes. Os seus parceiros são abatidos com flores alheias e o jogo fica pau a pau. Eles também deslavraram e contam agora três, o velho sacode a cabeça e ri, observando os quatro pontos de sua equipe. Cerveja nova chega, copos cheios, uma mexida na brasa e nas madeiras do churrasco. É uma rodada decisiva. Os adversários completam a virada, saem com uma mão de qualidade. A saída é fugir do imbido, mas mesmo assim levam a contrapelo um retruco pesado. O jogo oscila perigosamente para os adversários. Agora está oito a quatro pra eles. Resta uma miúda, ganhará quem mentir mais ou for mais competente. O velho gosta disso, são momentos como esse que alegram seus dias agora, aos oitenta e seis anos. O jogo fica truncado, ninguém quer ser o responsável pela derrota e o velho o recebe agora com nove a sete. De cara, troca os quatros. Olha de novo. A sorte bafejou sua mão. Trinta e dois de imbido um sete de espadas e um ás de paus. Ele sobe a serra. Revira no imbido e faz o inimigo fugir deixando dois tentos pra ele, o jogo está empatado. Ele faz a primeira, abre uma brecha e espera o grito do outro. Um truco vem de lá, tímido. O velho embrutece o jogo querendo retruco. O outro o enfrenta bravamente com o quero com vale-quatro. O jogo está ganho ou perdido. Eles mostram as armas de batalha. Tinha um curingão do lado de lá. O velho perde, mas ri saborosamente. Levou um boi, mas se divertiu à ufa. Alguém olha a carne, um pega uma nova cerveja, as cartas são embaralhadas e fica um zum-zum em volta da mesa. O adversário que ganhou do velho sorri ufano, o velho sorri vingativo, na próxima ele há de ver com quantos paus se faz um bom truco.    



Escrito por Meridiano Sangrento às 13h43
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