As estações humanas


Quatro vezes dez

O dia se fez noite

as esquinas se alongaram

e tornaram-se retas,

intermináveis.

Quando dei por mim

as mudanças já tinham

sido.

Bebi do cálice com bordas

quebradas.

Sorvi pedregulhos,

sofri engulhos,

vomitei desgraças

na terra branca.

Maravilhas eu vi poucas.

Milagres, alguns, mas,

facilmente desvendáveis.

Angústias alheias e

a espera das borbulhas

do chá.

O pão nosso de cada

miséria dividimos

sempre.

Brigas, ternuras em pontas

de facas.

Mudanças, mortes, sorrisos

pensativos.

Pai-ternidade sem mãe.

Venci a fome.

Evitei os falsos

atalhos.

Cai em tentação.

Mudei de planos e de ares.

Cidade nova, novos erros.

Acertos benditos.

Filhos - filhas, na verdade.

Esconde esconde pega pega.

O pão nosso de cada dia

ganhamos hoje e

preocupamos sempre.

Casas alugadas, casa nova

casa velha? Casa nova,

o fim.

Desesperos.

Caminhadas diárias,

sobes e desces.

A mão da madrugada.

Estudos na mesa de sinuca,

Amizades, saudades.

O tempo passando, passando.

Eu continuo aqui,

para gáudio de uns, 

tristeza de outros e

a completa insignificância

da maioria.

Mas não é assim com todos?



Escrito por Meridiano Sangrento às 12h52
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Abominável homem das neves

É dia nublado, o calor está de licença-médica. Trancado no meu quarto ligo o ventilador no máximo. Fabrico meu inverno particular. Logo o velho edredon amarelo, tanto tempo de prontidão, é convocado ao trabalho de me aquecer. Sou prático. Enrolo-me e pronto lá vem a sensação agradável de corpo ficando quente. Um dia de frio vale por mil palavras, não pela sensação devastadora do frio rachando silenciosamente a pele, queimando os lábios. Mas pelas possibilidades de criar lareiras individuais. Chocolate quente com conhaque; corpos nus embaixo de uma coberta; vestir um vinho tinto; compartilhar uma sopa quente. O frio repõe o ser humano no seu lugar de origem. Toda fragilidade em forma de complicados aparatos. Meias, calças sobre calças, luvas, toucas, cremes, batons especiais, a burocracia dos dias gelados. Camadas e mais camadas de preparo. Treino para essas futuras batalhas congelando minhas noites. O frio se mobiliza, penetra em todos os mínimos espaços, açoita minhas lembranças e assim me prontifico com um sono de urso branco. Recordo frios antigos enfrentados com casacos duvidosos. Noites gélidas portando um pala verde com listras azuis. O vento penetrava pelas telhas, trazia consigo o sussuro das estrelas, prisioneiras de tempos remotos. Lembranças sombrias que renascem a cada brisa glacial que surge. Pena que a melancolia trazida pelo vento não seja permanente, a maioria não está preparada pra ela. Aqui convivemos com pessoas solares demais. Parecem plantas em busca de fotossíntese.  Eu cultivo a noite, a escuridão perversa do frio. O tempo cinza, as emoções vaporosas, as sonoridades da penumbra. Spinoza dizia que “não se sabe da existência singular de algo a não ser conhecida a sua essência”; eis meu trunfo. Congelei-me demais vida afora sem os apetrechos corretos para tais batalhas. Hoje, descolado, sorrio ao ver a tristeza nas faces alheias. A sensação iminente do inverno se aproximando, como as naus gregas de Tróia, é-lhes pesarosa demais. Que venha o hipotético inverno, por aqui, faz mais frio, e isso mesmo no verão, é em muitos corações humanos, desmantelados pela falta de gentileza; e no meu quarto, produzido por minhas mãos de Zéfiro.   


Escrito por Meridiano Sangrento às 12h49
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”mudo aroma de outono”

Para minha mãe em particular...e para as outras mães....

 

 

 

O sorriso exato e a criança se calou. Como explicar o brusco silêncio vindo de alguém que até bem pouco, estridentemente, colocava o mundo de todos em desordem? O cheiro, podia ser ele, o simples odor que exalava daquele ser era uma boa aposta, uma mistura de alimento e proteção. Talvez os olhos, aquele olhar de paz como de um rio manso. Ou então as mãos macias e os braços que lembravam um ninho. A voz, quem sabe se não era aquele doce canto que enfeitava o ar. Podia ser tudo, a matemática perfeita. Mas era tão natural, singelamente puro, sem o peso de dias negros, sem a dor de momentos ruins. Um abraço um sorriso um toque uma fala mansa e o dia não era mais o mesmo. Que elo ligava aquela delicada cadeia? Seria a gestação? Prenhe de dias, horas, minutos, segundos, infinitamente delicados que compunham aquele passar de tempo? A mão que segurava os quadris, os dedos que tocavam a parede que os separava numa carícia fugaz e fértil? O aconchego da cama? O silêncio sutil de um passeio da sala para a cozinha? O calor que emanava do fogão? O zumbido suave que vinha da televisão? Pedaços de sons, bem próximos de ruídos, não incomodavam. Era tudo transformado em ecos, lentos ecos, zumbidos de açúcar. Com gestos descontrolados e mínimos a criança se movimenta nos braços da mãe. Tenta ampliar o alcance do seu toque, alisar o rosto próximo e ziguezagueante. Queria que o instante parasse para poder abarcar essa ilusão de contornos nítidos. Os olhos procuram por ela. As mãos anseiam por ela. A boca deseja o toque branco. Os sentidos, desconexos ainda, só reconhecem ela. E surgem faces estranhas, rostos graves, gestos de delicadeza assustadora, sorrisos polidos de gaveta. Tentam lhe agradar, mas perdem tempo e desperdiçam sua paciência mínima. Logo o choro recoloca ordem na casa. O cheiro diáfano, a voz adocicada e úmida. O sono chega com suas mãos de veludo. A criança dorme, a mãe descansa com um sorriso de pôr-do-sol e a vida segue com seus encantamentos futuros. Todos trabalhando em silêncio comovedor. Evitando o ranger indelicado das portas; o tanger dos talheres; todos com passos de bailarinas; vozes vagamente aprisionadas. A casa com seus moradores parecem estar em dimensão diferente. A criança é o centro do universo. A mãe é a mãe de um pequeno Deus. Tocados os dois pelos encantamentos suaves da maternidade. Uma graça após a outra, uma combinação milimétrica. Como são bons os primeiros dias de uma novidade. Até que o sino toque e o novo deixa de ser o cosmos de todos. Resta a mãe, a uma que é todos. Ela é e basta, sempre bastará. Aos outros mortais resta a pergunta: “quem se deitará no chão por nós?” (Camus). Para a criança não existem indagações nem respostas suspeitas – a mãe é o início o meio e o fim. 

PS: para comemorar The Gossip:  http://www.youtube.com/watch?v=4i_c7VU-IgE



Escrito por Meridiano Sangrento às 12h48
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