As várias variáveis de uma semana
Opções... Reclamar, reclamar, aguardar, aguardar. Tentar, tentar, buscar, buscar. Nada feito, nada resolvido, a vida segue indefinida. A partilha. A falta de grana. As opções irreais - como dar aulas à noite e aumentar os rendimentos um pouco. Nenhuma mágica. Evito pensar o óbvio: "eu só me fodo nessa merda" e nada me diz que isso vai mudar. Não existe no horizonte pretensão de voltar a estudar, pós - especialização, mestrado etc - tudo abandonado. Ando mais perto de morrer de fome ou de angústia. Os problemas se avolumam. O telefone quando toca é pra oferecer aulas de Inglês. Resta-me ainda um pouco de integridade moral. Fiz a escolha errada optando pelo idioma do Obama, devia ter aprendido o do Dom Quixote e quem sabe assim evitado o vexame de informar para a pessoa do outro lado da linha: "sim, eu posso dar aulas de Inglês, mas não, eu não quero, muito obrigado" (o não quero é não posso). São poucas as opções, a verdade é que quero as aulas para evitar pensar. Quero me ocupar como quando fazia a faculdade. Quando podia conversar toda a noite sobre assuntos variados e me sentir, relativamente, bem. Na verdade ando bem perto de um colapso (palavra incrementada e inclemente essa). Que passas? O tudo e o nada. Sabe quando você vê tudo se desfazendo à sua frente? Relacionamentos, pessoas queridas indo embora, amigos ausentes, canções que desagradam, filhos que necessitam de uma mão, pai que ansia um abraço e eu lá na minha toca. Intocado e completamente vulnerável. Angustiado, ansiando soluções que surjam de qualquer lugar. Odiando os livros por serem alegorias refinadas demais para a realidade. As contas a pagar. Os desejos sentidos. As necessidades básicas não atendidas. É a incerteza rondando de todos os lados, mas, principalmente, a interior. Preciso buscar forças. Tento o sorriso das meninas, mas mesmo neles antevejo desejos contidos quando estão ao meu lado. Canso-me de andar. Entregar currículos. Buscar um lugar ao sol. Fazem falta os contatos. É como se todas as portas se fechassem diante da minha presença. Trabalho. Canso. Reclamo. Busco. Tento. Fujo da tristeza, mesmo ela sendo hoje minha mais fiel companheira. Volto ao meu lado negro. Ele aguarda soluções aos problemas, havia me dado um tempo, três anos de faculdade, e agora a hora chegou. Resoluções minhas. Volto a andar à esmo. "A morte é solitária, ao passo que a servidão é coletiva" (Camus). Somos servis. Necessitamos de dinheiro, para comprar a entrada para vários universos e assim fugir do óbvio: as faltas nos diminuem não nos aperfeiçoam. Felicidade é não pensar. Dividir a dor. Somar experiências. Desejar profundamente. Alcançar objetivos. Sofrer sorrindo. Onde é a saída? Como admitir que você andou errado um vida inteira? Como conseguir dormir quando o seu mundo nunca se transforma numa obra de verdade. São só planos e mais desejos ansiados e nunca conquistados. **** "O sono das maçãs" Acorda bugre velho, desande a trabalhar, corre desgraçado, a vida urge. Não que não urgisse antes, sempre foi esse desespero, mas quando você percebe que naquele mês vai ter que escolher as contas que vai pagar é que algo não vai bem das pernas. A crise financeira é bem engraçada, parece que nem nos afetou - por nós entenda-se a camada em que me encontro, a mais baixa, mas que não recebe nem uma mão governamental. Assim vemos os jornais se esgoelarem a falar da crise, os bancos quebrando, americanos sem eira nem beira, e achamos aquilo tudo tão maluco quanto sem nexo. Nós já vivíamos assim. Tenho amigos que moram de aluguel (como eu moro) que vivem em casas bem precárias, que sobrevivem com salário mínimo. Que trabalham o dia inteiro, que fazem trabalhos braçais. Aqui embaixo a coisa sempre foi complicada e continua a ser. Seguimos rolando dívidas. Dependendo da meia entrada mandrake pra ver filmes, shows, peças. Comemos bem o que os outros rejeitam. Filé mignon não entrou no nosso cardápio, somos extremamente esforçados, mas estamos quase todos completamente endividados. Deixo nos bancos mais de cinquenta por cento do meu salário. Quito um empréstimo e já discuto a possibilidade de outro. Dependo da cortesia alheia para me manter atualizado em músicas e filmes. Já não acho tão esquisito consumir dvds piratas. A ética morre de fome quando o dinheiro some. E o governo bonzinho baixou o IPI, agora podemos nos refestelar e comprar geladeiras, máquinas de lavar, fogões, carros, motos. Comprar como? O que importa em primeiro lugar é sobreviver. Não podemos nos dar ao luxo de quase nada, mas temos uma têmpera diferente. Acreditamos em nós e com certeza, isso é uma grande saída ou, quiçá, uma fuga provisória. "Para se ser feliz é preciso ter tempo, muito tempo. A felicidade é uma questão de longa paciência. E o tempo é-nos roubado pela necessidade do dinheiro. O tempo compra-se. Tudo se compra. Ser rico significa ter tempo para ser feliz, quando se é digno de o ser" (Camus). Nós somos dignos, isso basta, por enquanto, e assim "quero dormir o sono das maçãs para aprender um pranto que me limpe de terra" (Lorca). ***
Paralamas nunca foram minha banda favorita nos idos dos oitentas. Me desgostava aquela pegada pop quase Police da banda. Uma mania de fazer hits chicletes. Uma qualidade sonora que superava todas as outras bandas. Sempre achei incrível que eles escrevessem pop songs mas ao mesmo tempo tivessem um baterista tão monstruoso, um baixista tão barulhento. Pois se eram pop songs, não precisava daquilo tudo. Mas isso era o Paralamas: letras simples, melodias grudentas e uma banda que realmente tocava. Ontem, domingo, reencontrei-me com a banda. Era o final de um feriado prolongando, a cereja no bolo de dias tão legais e simples ao mesmo tempo (estou ficando sentimental demais). E o domingo não prometia nada. Assim como a quinta a sexta e sábado, mas tudo mudou, "tudo muda o tempo todo, num indo e vindo infinito" (Lulu - blargh). Mas é assim mesmo. Minha filha menor chegou trazendo com ela a luz do final de semana. Trazendo com ela, também, uma futura crise de abstinência 'internetal' estampada na face - pois na sua casa ela passa um bom tempo conectada. Mas fizemos o desastre iminente dar certo. E entre conversas, filmes, comidas, saídas, mais filmes - inclusive seis episódios da primeira temporada do Naruto, que assisti bravamente mesmo sem entender direito, conseguimos fugir à exiguidade de expectativas. Vimos inclusive a versão pirata do Wolverine, que de tão pirata ainda apresentava cenas que não tinham sido trabalhadas com efeitos especiais, e eram cordas prendendo os atores, bonequinhos cinzas que voavam e que foram a melhor parte do filme. A chuva de domingo cedo quase encurtou o dia, mas ela sempre traz mudanças e nós a enfrentamos pra visitar meu pai, que nos recebeu com uma carne assada já pronta e seu melhor sorriso. Então quando o show do Paralamas começou, acompanhada do primeiro frio do ano, estávamos no lugar certo na hora certa. E foi um show profissional de quem gosta do que faz. E música após música fomos agraciados pela banda com seu imenso repertório que não cabem nem em duas horas de show, quanto mais num pocket show como aquele. Mas valeu a pena estar ali, e presenciar a redenção paralamistica na minha vida. Tá, não vou virar um fanático da banda, apenas a ouvirei mais atentamente daqui por diante. Com certeza, das bandas que sobraram, Titãs, Engenheiros, Biquiní, Barão entre outras, Paralamas é a melhor disparado, e ver o Herbert tocando guitarra na sua cadeira de rodas, Bi martelado o baixo e o Barone quebrando seu kit de bateria é uma esperiência fascinante.
*** Circulando O término da faculdade não abriu porta nenhuma. Pelo contrário, elas parecem lacradas como as portas do céu para a legião de Lúcifer (assim o disse Milton - o poeta - não o apresentador do programa de TV). E, para fugir à essas trancas, e também aproveitar que ando tendo, injustamente, crises de angústia, decidi fazer um corpo a corpo noturno, levando embaixo do braço (força de expressão) meu currículo. Deveria me aproveitar do Google Earth e organizar as minhas visitas, mas gosto de dar à essa empreitada um ar não oficial ou pelo menos a desaparência de um desespero, então esquadrinhei o centro da cidade, o que para início de conversas já está de bom tamanho. Na primeira noite, tal como um papa-léguas, esparramei meus dados em inacreditáveis quatro escolas; agendei duas entregas para o dia seguinte e consegui me encher de desânimo para os dias posteriores, o que convenhamos, quem já esteve desempregado, sabe que é natural (detalhe, eu não estou desempregado, quero arrumar aulas no período da noite, só isso). Enquanto achava que ser um dos, poucos, bons alunos da sala seria minha melhor propaganda; imaginava que na área da educação o mérito representaria o fiel da balança, perdi tempo e minha campanhia não tocou (tudo bem que não tenho campanhia em casa mesmo). Logo as notícias chegavam: "sabe aquela?"; "quem?"; "aquela"; "não me diga?"; digo sim, está dando aulas de manhã e à tarde". "Sabe aquela outra?"; "se tá brincando?"; "nada, ela está dando aulas no estado e numa escola particular". Não, a educação não tem olhos para a qualidade, antes passa pela camaradagem, pela indicação, e termina como está hoje: sucumbida e sem rumo. Mas eu não desisto, é questão de honra; saio andando e tentando. Uma placa diz "Auto-escola" outra "Escola de Dança de Salão", me pego pensando...se as escolas de verdade contratam professores de fantasia, podia eu era ser contratado por outras "escolas" que não as normais e assim empatar o jogo. Já até me vejo ensinando uma turma a dançar forró: "um dois um dois e gira e vai, um dois um dois e gira e vai; segura, isso, muito bom"; e outra as placas do trânsito: "essa aqui significa, proibido virar à direita, entenderam? Isso muito bom. Agora se você desobedecer à sinalização, cê tá fudido".
Escrito por Meridiano Sangrento às 13h46
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