As estações humanas


Equilibrista de aquário

Tudo pronto? Silêncio no estúdio. 1, 2, 3...gravando.


Corta...muito bom; excelente, ma-ra-vi-lho-so...


Eis o que acontece sempre quando somos expectadores da vida. Tenho sido um excelente público para as novelas que passam diante dos meus olhos e um péssimo protagonista do maior dos enredos, o meu próprio. É como se minha vida fosse um filme dirigido pelo Ed Wood; faço a cena mal e porcamente e o diretor já grita: “excelente”. Eu o interpelo sem muita convicção: “podíamos refazer essa sequência, não gostei muito”; o maestro diz calmamente: “não, vamos pra próxima”. Minha vida necessita de um regente mais rigoroso, eu sou excelente pra obedecer, ótimo pra ouvir, péssimo pra me guiar. Estou entrando em desespero. A minha sorte lançada há tempos atrás, vai complicando vida alheias. Todos se guiando pela minha falta de rumo. Como uma vaca cega com um sino no pescoço; um dos porcos possuído pelo demônio encaminhando-se para o precipício. Tudo mudou novamente, tão rápido que nem deu tempo pra ensaios. Fui pego mal posto para as novas cenas, mas o diretor gravou assim mesmo, e ainda engrandeceu a fotografia. No script estava escrito:


Filme: “A vida do meridiano”


Cena 553467 - “o bom o feio e o mau”

 

Take 1, tomada 1.


Silêncio no estúdio. 1, 2, 3, gravando....


30 segundos depois...


Excelente, ótimo, próxima cena!


O quê? Como? Quem foi? Onde? Pera aí...repete que eu perdi....


Assista às cenas dos próximos capítulos...


“Tem dias que a gente se sente/ Como quem partiu ou morreu/ A gente estancou de repente/
 Ou foi o mundo então que cresceu.../ A gente quer ter voz ativa/ No nosso destino mandar/
 Mas eis que chega a roda viva/ E carrega o destino prá lá.../ Roda mundo, roda gigante/
 Roda moinho, roda pião/ O tempo rodou num instante/ Nas voltas do meu coração.../  (Chico Buarque)



Escrito por Meridiano Sangrento às 13h49
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"fábrica de dias que virão"*

Pés plantados no presente, o imediato e inevitável hoje. Cabeça planejando saltos futuros ou enganando a mente com teorias duvidosas. A alma saudosa de tudo que já foi, lagrimando o presente com eflúvios antigos, histórias sendo recontadas por casmurras memórias. Assim vivemos. Nunca aproveitamos de todo a vida que levamos. Sempre desejando uma ponte entre-mundos, como uma Talita dependurada entre Oliveira, Traveler e o vazio. Passos que faltam pra consumar o presente; voltas que podem recriar uma história; dúvidas que pairam no silêncio e pode, como Prometeu, revelar o futuro. One minute please...estamos sempre perdidos, isto é o contraditório ser humano. "Mentiras piedosas" (Nietzsche) podem salvar. Salvar-se pode ser uma perdição. Perder-se pode levar à glória. Eis a circularidade de nossa vida. Compreender os paradoxos de que somos compostos é como tomar chá de tília e hortelã num dia frio, não acaba com o frio, mas produz um efeito calmante nas muitas dúvidas e pode nos levar ao sono, que é quando realmente podemos realizar o que desejamos com mais liberdade e sem o perigo dos cem olhos de Argos (o mundo) postos em nós. “Agitações secretas que passam desapercebidas nos recônditos da mente, o caos incalculável de impressões, a vida delicada da imaginação vista por lentes de aumento; o avanço aleatório desses pensamentos e sensações, percursos inexplorados e sem trilhas pelo cérebro e pelo coração, estranhas operações dos nervos, o sussurro do sangue, a súplica dos ossos, toda a vida inconsciente da mente” (Knut Hansum).

     

* Pablo Neruda no poema “Esperemos”

 



Escrito por Meridiano Sangrento às 18h28
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O encantamento da Brisa

O mesmo não vinha se sentindo muito bem. A alguns meses começou a apresentar pequenos defeitos: o pino que fazia com que girasse ou não soltou-se e uma peça se quebrou e não aceitou ser colada com superbond (apesar do uso confesso de um genérico do superbond), peça essa da parte traseira do motor do mesmo; mesmo assim continuava prestando seus serviços à contento.

Temperamental, decidiu não mais efetuar o movimento semi-circular, fazendo-o, a partir de então, só para uma direção.

Em seus momentos finais apresentou um barulho de matraca ou tamborim solitário, um ranger de bomba d'água de carro, o que causava transtorno e imediato desligamento de suas funções ordinárias.

Sábado, forçado a funcionar durante o fim da tarde e o começo da noite, rangia, estertorava, gemia, soluçava, quase-parava, voltava...

O mesmo apresentou um quadro periclitante e numa tentativa desesperada e emergencial efetuou-se:

* Respiração boca-a-boca, com a retirada das sujeiras que porventura pudessem estar atrapalhando seu funcionamento, na base do sopro;

* Complementado com uma massagem cardíaca, ou um forte giro das hélices, o popular pegar-no-tranco;

* Espera para que o mesmo esfriasse e assim fosse possível tocar em suas partes sensíveis;

* Desmonte total, com a retirada dos seus parafusos e posterior remontagem;

* Uma última chance de ligá-lo novamente.


O momento final do mesmo aconteceu às 23:00 quando aconteceu um travamento total do seu sistema de giro, ocasionado, talvez, pelo excesso de força, ou falência múltipla dos órgãos.

Após seu passamento, o calor fechou-se qual mão sobre a boca de um assassinado, e a casa com seus moradores à reboque se debateram, se contorceram, mas seus gritos de socorro foram sufocados, sua pressa de evasão tolhida, suas ambições paralisadas, era como uma fonte seca, como um monumento inútil, e mergulhou num coma todos os moradores da casa. (Capote)

A família (eu) agradece as condolências futuras e informa que mesmo num momento de profundo pesar (sentimental e financeiro) todos os órgãos serão doados para a reciclagem. E parafraseando Guimarães, ele não morreu, ficou encantado...e deixou também uma lição de vida: "vai comprar ventilador nas Casas Bahia seu trouxa, que ventilador de camelô não vale o quanto você pena. Tenho dito!".



Escrito por Meridiano Sangrento às 18h24
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