As estações humanas


10 (quase) outros amores (continua a continuação)

4. Zane – O nome era maior, uma daquelas homenagens feita pelos pais que irritam os filhos. Pra ela combinava. O que não combinava com ela? Não era de beleza estonteante, nunca foi. O que ela tinha era a capacidade de falar o nosso idioma. Éramos amigos. Na verdade nunca passamos disso. Amigos de longa data. As irmãs eram gostosas, mas eu não cheguei a descobrir se ela honrou a tradição familiar, mudei-me antes de cidade. Tivemos um (quase) relacionamento tempestuoso. Por ela ser legal demais; compreensiva, expansiva, delicada, ia derrubando corações. Era uma terra tombada por onde passava. Quantos não se apaixonaram por ela? Na minha contagem, no grupo que andávamos, mais ou menos uns seis (era fulano que odiava cicrano que não gostava mais de beltrano, tudo por causa dela). Será que ela percebia isso? Ela era a filha menor de uma família numerosa. A mãe dela gostava de casa cheia, organizava festas, queria que os filhos fossem felizes e pra cuidar deles trazia todos pra sua casa. Discos, eles tinham muitos discos. Dançava-se de montão. Comia-se à farta. Eu queria muito namorar com ela, dar um beijo que fosse. Nada. Quantas músicas lentas não dancei com ela? Com as irmãs dela? Namorei a prima dela. A prima, que era muito farta de atributos, mas não era assim...uma Zane. O tempo passou, brigamos, fizemos as pazes e um dia sem mais nem menos, descobri que ela estava grávida e mais ainda, tinha se casado às pressas com um cara – pra mim – feio de doer, quieto e muito sem-graça e ainda com um apelido estúpido. Nunca mais tive notícias dela. Nenhuma pra aumentar essa história


3. Carla – Ela fazia programas. Dizia-se à boca pequena e à boca graúda. E boca era o que ela mais tinha. Lábios para engolir o mundo. E diziam, ela fazia muito bem (programas e usar a boca). Até aqui só falei da fama que a precedia, fofocas, mexericos de pessoas desocupadas e ciumentas. Na verdade era só uma vizinha e o que ela fazia com seu corpo não importava em nada, desde que ela um dia o fizesse comigo. Não fez. Fez com dois irmãos meus, mas comigo nada. Um deles a namorou por meses a fio. E eu no encalço, querendo flagrar o que tanto falavam que ela fazia. Não vi. Topava com ela direto, ela não ia em casa, meu pai não gostava dela. O que separava as nossas casas era uma cerca de arame farpado, mas nunca me arrisquei muito pois ela tinha uns irmãos barra-pesada. Eu ficava por ali, ao sabor dos ventos, desfilando minha magreza de faquir, meu rostinho de criança imberbe. Ela não dava nem bola. Um dia, por vingança, saí com uma prima dela, passamos um carnaval juntos. Descobri ser verdade que ela era garota de programa, a prima também era, e me brindou com uma doença de nome impublicável – coisas da vida.


2. Ana Tereza – Ana era vendedora da Pernambucanas. Morena, cabelo curtinho, curtinho. Sorriso delicado, olhos ligeiramente estrábicos (economizo?). Ela dentro do uniforme calça azul marinho, colada à pele, mostrava uma retaguarda de respeito; dentro da blusa branca, seios boníssimos. Era alegre (trabalhar numa loja, cortando tecidos, vendendo roupas de bebê não era mole não). Adorava quando topava com ela nas internas da loja. Nos corredores estreitos. Quando ela fazia uma venda era a alegria dos empacotadores. Brigava-se para fazer o embrulho da venda dela. Pensava que ela nunca daria bola para um magrelo como eu, empacotador, até o dia em que ela começou a 'ficar' com um vendedor (Não disse? Pensei). O namoro não durou muito, um dia encontrei com ela, tínhamos saído da loja, e cruzamos no centro da cidade, conversamos, rimos, rolou um clima, um clima forte (eu, depois do quartel, não era mais um magrelo ossudo). Ficamos de combinar algo...aguardo até hoje. Mudei de cidade, perdi o conforto da possibilidade.


1. Simone – Se Páris tivesse conhecido Simone não raptaria Helena. Ela trabalhava no Bradesco da cidade. Lá eu pagava contas pra família, fazia questão em pagá-las, ficava na fila, sorvendo um pouco da sua impenetrável beleza. Simone tinha cabelos castanhos claros. Vestia-se impecavelmente - uma diva. Um rosto delicado, boca bem feita, olhos verdes claros (aqui começa o chute), corpo precioso etc. "Quem terá dado nome tão correto a Helena bela, essa esposa de espadas, envolta em desavenças, dor e ruínas, nascida para destruir armadas e perdição dos homens e cidades?" (Ésquilo), e quem acrescentou nome tão lindo: SI-MO-NE, para aquele diamante da cidade branca? Era filha do dono de um mercadinho (naquela época era mercadinho, hoje é mais). Era irmã do gay mais lindo da cidade. Se o gay era lindo o que esperar dela? Ela extrapolava o irreal (li isso em algum lugar, era uma ironia com escritores metidos a besta – cabe bem aqui). Sonhei minha adolescência inteira com ela. Namorávamos, casávamos, tínhamos filhos, éramos milagrosamente felizes até o fim das nossas vidas. Sei que ela casou, que o casamento não durou nada. Devia ser difícil estar casado com uma pessoa como ela. Como a cidade era pequena encontrava com ela ás vezes, andando de bicicleta, na companhia de uma prima loira e também maravilhosa. Ela foi a mais quase de todas, pois nunca troquei nem um oi com ela. Mas acho que ela é a número 1 por ser dela que guardei um ideal de fêmea que aprecio. O que é feito de Simone? Sei lá, deve estar casada, com filhos, gerenciando o supermercado do pai. Mas quem se importa? Ela, como a Marilyn, são imortais na minha memória. Não envelhecem, não morrem. Evito pensar em encontrar qualquer uma delas hoje, prefiro que vivam assim belamente encantadas nas minhas lembranças.

 

Gravuras: Gustav Klimt



Escrito por Meridiano Sangrento às 13h43
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10 (quase) outros amores (continuação)

7. Maria Angélica – Podia amar duas algumas vezes. Como dizia Camus: “Há mulheres em Gênova cujo sorriso amei por toda uma manhã. Não irei revê-las mais, e, sem dúvida, nada é mais simples”. Ao mesmo tempo que me contorcia de amores de um lado, cabia em mim a possibilidade de amar outras, mesmo que fossem trechos dela. Maria Angélica: “a melhor definição de amor não vale um beijo de moça namorada” (Machado de Assis). Seu nome combinava com seu cabelo curto e seus shorts de jogar basquete, sua cara de quem ia aprontar alguma ali na esquina, sua permanente alegoria pré-sexual. Ela triunfava pelos corredores da escola. De uma alegria esfuziante, animada para os combates do centro acadêmico. Ah, como deploro minha saída da escola. Mas o tempo não deixou que eu abandonasse os sonhos em outros palácios, fez isso sim que me reencontrasse com ela depois. Eu trabalhava na Pernambucanas, ela surgiu lá, comprou alguma coisa, e eu a atendi, pois fazia os pacotes na loja. Ela olhou pra mim pela primeira vez, ficamos naquela 'sengraceira', ela comentou com a amiga (sempre elas) que eu era lindo, eu me envergonhei, sorri (eu sorri?). Tudo se encaminhou para um (improvável) encontro. Dias depois passando por uma praça, lá estava ela, aos beijos com um cara bem mais velho que eu. Me viu (viu?). Tudo se desfez e o quase voltou a reinar.


6. Cláudia (outra) – Quando amava Waléria e amava Maria Angélica e perdia ambas na fumaça do quase, um amigo amava Cláudia, a quem eu nunca prestara a menor atenção. Até que um dia, meninos eu vi. Acabei percebendo umas sutilezas nela que não tinha nas outras. Como são lindas esses exemplares de futuras mulheres. Ela tinha os cabelos curtos, seios em formação, mas muito bem quase-formados. Usava calças jeans, tênis baixos. Camisetas justas. Era brava, mulheres bravas têm seu charme. Outra coisa que ela tinha diferente das outras era um sorriso luminoso. Ria com todo o corpo, uma tremida suave e doce. Ela foi muito quase. Era um protótipo de traição. Meu amigo a idolatrava, eu não poderia dar o passo que colocaria termo na nossa amizade (como se isso fosse um risco real). Sonhei acordado com ela tempos e tempos depois. Até que seu rosto começou a perder nitidez, foi se misturando aos outros amores impossíveis da minha vida.


5. Sabrina – Estava em outra escola agora, era do curso noturno. Não havia mudado muito, mas já tinha ficado com algumas meninas, já conhecia de verdade o cheiro, a textura delas. E me apaixonei por uma gostosa. Em todo o lugar sempre vai ter uma gostosa. Aquela mulher que parece ter sido esculpida a golpes de um cinzel encantado. As formas invadem nossa retina. Grudam-se no nosso imaginário. Elas são a materialização da mulher de filme pornô na nossa vida, da mulher das revistas proibidas (toda gostosa caminha numa linha tênue entre gostosuras e gorduras, but...). Elas se misturam ao nosso mundo, exalam sensualidade até quando escrevem 'pobrema'; quando falam bobagem. Muitas parecem nem se dar conta desse poder, da força da natureza que possuem e são. Usam shorts curtos, mas elas não têm pernas e sim duas magníficas coxas, com batatas torneadas, pés evidentes, unhas francesas, mesmo encardidas. E essa, em especial, era passista de escola de samba. Uma morena de parar o trânsito, e parava. Nunca achei que alguém como ela pudesse me dar mole. Mas deu. Sabrina 'pesadelou' minha vida, ocupou o lugar de todas as musas que eu conhecia até então. Usava uma bermuda de lycra verde limão inesquecível. Eu não entendia o que ela havia visto em mim. Ainda seco, sem roupas, sem nada de interessante. Mas ela andou atrás de mim. Nos desencontramos, não tive sorte algumas vezes, em outras fugi vergonhosamente. Ela me metia medo em sua excessiva gostosura. Era óbvio que tamanha potranca não iria ficar só e desconhecida muito tempo. Não ficou, logo já estava enganchada com alguém. Logo já era a Rainha do Carnaval da cidade, e foi nesse carnaval que eu consegui falar com ela. O rei e a rainha visitavam todos os clubes, eu estava no Riachuelo, ela chegou, sambou, requebrou, sorriu...eu me aproximei, poderosamente bêbado e gritei em seu ouvido: “VOCÊ É A MULHER MAIS LINDA DO MUNDO”; dei-lhe um beijo no rosto, e fim, nunca mais a vi. Será que ela tem orkut, filhas?

 

Continua.... 



Escrito por Meridiano Sangrento às 18h20
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10 (quase) outros amores

10. Cláudia - Era o nome dela. Eu estava na primeira série, seis anos? Me apaixonei por ela, não conseguia afastá-la do meu pensamento. Em casa, sentava-me pra tomar chá, e enquanto esperava que ele esfriasse (nunca entendi a razão de lá, naquela cidade quente como o inferno, nós tomarmos chá mate Leão pelando) pensava nela. Na escola eu ficava olhando pra ela de longe. Na fila, ela era sempre a primeira, eu um dos últimos. Quando a professora saia da sala pedia para que ela anotasse o nome de quem fizesse bagunça, e pasmem, ela anotava, obediência ingênua. Eu ficava ali, quieto vendo os outros meninos conversarem, rirem, sairem dos seus lugares, enquanto ela ia dando nome aos bois e depois entregava pra professora. O amor de uma criança é tão puro, eu via naquele gesto a importância dela, não a falta de beleza por entregar um amigo de sala. Bom, na verdade não éramos amigos mesmo. Criança fica amigo e briga tão rapidamente que ela podia entregar o nome de todos, eu não, ficava ali, quieto namorando ela. Ela só tirava dez, eu nem me lembro da minhas notas, mas sei que ela era o exemplo da sala. A tia (naquele tempo podia chamar de tia) adorava ela, mas isso eu também fazia, adorá-la. Uma vez, eu disse uma única vez, brinquei com ela. Na verdade ela brincou com um menino que estava ao meu lado, correu atrás dele, e eu, sem ter o que fazer corri junto, ri junto, até hoje nem sei do que, nem para quê. No final daquele ano nosso relacionamento foi bruscamente encurtado, seus pais se mudaram pra outra cidade. Ah, como era triste ficar sem o amor daquela japonesinha. Nunca mais fiquei com nenhuma outra japonesa, queria que tivesse sido ela a primeira.


9. A menina de franjinha - Nunca descobri o nome dela. Era a menina de cabelos pretos que tinha uma franjinha milimetricamente cortada. Nenhuma franjinha combinava com alguém como aquela. Era linda. Um delírio em forma de mistério. Nos encontrávamos no recreio das aulas. As vezes ela estava na escola a tarde, quando eu praticava atletismo. Ela flanava sempre acompanhada de outras amigas (meninas e meninos tem essa mistério em forma de grupo). Em alguns dias nos desencontrávamos e quando a via novamente era como se ela tivesse ainda mais bela. Foi um amor maravilhoso que durou às 5ª e 6ª séries, e não descobrir o nome dela fazia com que ela tivesse todos os nomes que eu conseguisse inventar. Falar com ela? Pra quê? Tempos depois eu jogava futebol de salão e lá estava ela, sentada na arquibancada, com uma camiseta no colo. Lá, na minha cidade, a garota segurar a camiseta de um rapaz era como usar aliança, pois todos nós andávamos só de bermudas, e era como um troféu na mão da namorada, tanto para o cara, como para a menina. A camiseta em seu colo selou o fim do nosso (quase) relacionamento.


8. Waléria - Minhas primeiras frustrações atrasaram todos os meus outros relacionamentos. Me apaixonei de novo só quando conheci Waléria, a de sobrenomes infinitos. Era a 7ª série. Um ano impressionante. Não aconteceu nada nele que eu me lembre assim de primeira, só que um amigo reprovou - eu quase - e eu me apaixonei por ela. O que ela tinha? Cabelo encaracolados. Rosto forte e lisinho (sem aquelas horrorosas espinhas que faziam a festa em muitas faces). Um sorriso encantador e etc. Andava com corpo tenso, movimentando levemente os quadris, como aqueles círculos que se formam quando jogamos uma pedra n'água. Era inteligente. Não me lembro de ter conversado com ela nesse ano, só me recordo uma vez, numa aula de matemática a professora ter dividido a sala em grupos, que resolveriam exercícios no quadro e ela era do meu grupo - assim como outros 19 alunos. Fui chamado para fazer um exercício, a nota valia para o grupo, fui, acertei, ela me fez um gesto (lá nós chamamos o que ela fez de chimite, que nada mais é do que levantar o polegar – tem até um poema do Manoel de Barros que fala de uma “romaria chimite”). Um pequeno gesto para uma menina linda, um universo para um garoto tímido. Só fui falar com ela novamente (o gesto que ela me fez é uma forma de conversa não?) no final do outro ano, quando ela ficou responsável pela arrecadação de dinheiro de uma festa da sala. Eu fui na sua casa levar a minha parte, a mãe dela me chamou pra entrar, recusei, envergonhado até à medula. Quando ela veio, me deu um beijo, meu joelhos tremeram. Passei pra ela o valor e me veio uma vontade de desaparecer naquele momento. Trocamos umas duas ou três palavras, "oi, o dinheiro, tchau", mas foi como se tivéssemos discutido "O ser e o nada" do Sartre. Na festa, ela de biquini era ainda mais linda. E o fim foi ainda mais catastrófico que o meu (quase) relacionamento anterior: reprovei, me mudaram de escola, me arrumaram emprego, justo quando eu começava a ficar apresentável, pois até então eu era um monte de osso, seguro por uma pele queimada de sol, com as costelas à mostra, e umas pernas de seriema. Por ela cometi uma das maiores loucuras pra época, comprei uma camiseta vermelha de um catálogo da Posthaus, que tinha um W branco gigante no peito, era a maior declaração de amor que eu podia fazer. Um sábado, anos depois, nos reencontramos. Eu havia passado o dia pescando na beira do rio. Na subida, cheio de peixes, paramos para tomar uma cerveja num bar mirante que tinha ali. Um grupo jogava cartas, a reconheci atrás de um dos caras que estava no jogo, ela espremia espinhas na costa dele. Mais linda ainda, carinhosa, entregue ao ato de cutucar as costas do (talvez) namorado. Ri (eu ri?).

 

Continua....

 



Escrito por Meridiano Sangrento às 19h26
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A mão que balança o berço

A manchete estava em todos os jornais. Depois das imagens que foram veiculadas no plim plim ontem. Funcionários agredindo passageiros com chutes e o fio do apito. A empresa "Super Via" se apressou e demitiu os funcionários. O ministro da Justiça, aquele geringonço chamado Tarso falou: "Achei uma barbárie. Eu acho que é um péssimo exemplo e acho que essas pessoas, inclusive a direção da empresa, têm de ser responsabilizadas". Todos extremamente irritados com o que viram. "Tem que demitir mesmo"; "filhos da puta, maltratando trabalhadores", etc. Quem agrediu eram o que mesmo? Ets? A empresa demitir, a polícia chamar pra depor, soluções rápidas para um desagravo imediato, tudo no burburinho das imagens. Demissão. Processo. Cadeia com eles. E daí?

Como somos fúteis mesmo não? Não ouvi ninguém defedendo o indefensável. Nada contra a empresa, responsável pelos trabalhadores. Nada sobre a greve. Mas ouvi: "essa empresa ganhou a concessão por 25 anos no governo FHC, e o estado pode tomar se quiser". "É o resultdo das privatizações do governo anterior". Exageros, exageros. Ocorre no país uma falta de comedimento. Como se quem foi agredido fossem santos na história. Estivessem ali quietos como inválidos. Nunca aprendemos nada com os fatos. Queremos sangue. A empresa "Super Via" é a responsável por tudo - fácil assim. Contratou os futuros agressores; treinou-os, pois disse que eles (os funcionários) eram "orientados a coibir tentativas de depredação ao patrimônio público, atos de vandalismo e condutas que coloquem em risco os demais passageiros e a operação regular dos trens". Demitir os funcionários no burburinho da notícia é estúpido. Se havia trabalhadores de um lado, os demitidos também o são.

Quando começaremos a resolver nossos problemas com a razão não com o fogo da hora? Devem ser punidos? Com certeza. Mas não com a forca, a demissão por justa causa, a carteira suja e a chance de só serem aceitos então pelo mercado negro do tráfico, do assalto à mão armada etc. Pune-se a empresa, uma multa. Quem foi agredido e deu queixa receba um valor decidido por um juiz (algo simbólico e não pensão eterna como os nossos ex-guerrilheiros). Os agressores sejam punidos com suspensão do trabalho e, eis a grande verdade, que prestem serviços comunitários para a sociedade, em algum jardim zoológico, em alguma obra de caridade por aí. Depois sejam transferidos de local e que continuem levando a vida do que jeito que conseguirem.

Esse é o retrato do Brasil, a "exuberância irracional", os quase oito anos de crescimentos maravilhosos, e, no fim, é pobre agredindo pobre. Rico mesmo só ficou quem era amigo do rei e conseguiu uma vaguinha no serviço público, o resto é o resto, e que venha o sangue, a prisão dos bandidos pobres (pobres bandidos). Enquanto isso em Brasília.....



Escrito por Meridiano Sangrento às 19h25
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"Caos portátil"

Ser pai separado é cruel, bem cruel. Ganha-se em liberdade, paz; sobra tempo para se fazer muita coisa, vivemos num mundo em que ocorre "uma chuva lenta de renúncias e de despedidas" (Cortázar). O estranho da história é que às vezes não queremos tamanha liberdade, queremos um pouco de tumulto no dia. Um jantar em volta de uma mesa, conversas sendo servidas junto com a comida. Risos, alegrias, tristezas compartilhadas e bebidas com o suco. Só por isso, pelo simbolismo dessa perda, já seria o suficiente pra que eu não perdoasse nunca a mãe das meninas. Não o fim do nosso relacionamento - que esse foi se tornando uma maçaroca perdida em meio a ilusões e mentiras - mas aquele fim em particular. O estar perto das minhas filhas, todas as noites possíveis, ao redor de uma mesa de comidas recém-feitas, aproveitando cada instante desses instantes, para esquecermos do mundo. Janto hoje, quando faço isso, sentado num colchão, alguma música tocando, pensando longe ou nem. Não consigo ler enquanto como, reminiscência, talvez, dos tempos de mesa posta. Prefiro conversar, contar fatos pitorescos do dia. Gosto de ouvir o inédito de dias alheios. Degustar uma piada - pois sou péssimo contador delas. Estes pequenos detalhes que faziam a vida em família melhor estão irremediavelmente perdidos. Quando estamos juntos agora, e isso torna a nossa realidade tão atroz, temos momentos em que queremos aquele passado e, por isso, nos tornamos caricaturas de nós mesmos. Nos portamos como péssimos atores, uns querendo agradar os outros. Nessa distância, uma avenida em que transitam sentimentos díspares, tropeçamos em nossas próprias pernas. Ansiosos por agradar; sequiosos de abraços; beijos perdidos; assuntos não contados. Acabamos nos tornando um caleidoscópio de emoções irreais. Não conseguimos falar dos dias inteiros em que não nos vimos. Não dá pra falar da saudade sentida naquele dia especial que não foi. Ficam tantas coisas pra trás, por-ser-ditas. Colhemos as melhores imagens possíveis uns dos outros. Elas mentem pra mim; eu minto pra elas. Frágeis construções momentâneas. Elas não querem me desapontar; eu não posso desagradá-las. "A verdade, como a luz, cega. A mentira, ao contrário, é um belo crepúsculo, que valoriza cada objeto" (Camus). Dizemos: "vamos morar juntos" - acredito tanto nisso quanto elas desejam trocar a vida que levam, cheia de liberdades e vazios decorados. Não lhes agrada a dificuldade. Não lhes atrai o coletivo lotado. Não conseguem compreender, ou talvez nem tentem, a diferença dos mundos que vivemos. Lá, desperdício, aqui a falta. Lá, o excesso, aqui a carência. O que sobra lá, em coisas, sobra aqui em afetos. Perdidas elas não conseguem se decidir. A facilidade das coisas, agrada. A dificuldade da falta das coisas, agride. Não devia ser assim. Tinha que ser tudo mais fácil. Me enganei, pensando que elas ficariam comigo em qualquer estação. Elas, ainda se enganam, achando que as coisas mudarão drasticamente, e eu, possuidor das coisas e dos afetos guardados, estarei enfim apto para ser elevado novamente ao pavilhão de pai.



Escrito por Meridiano Sangrento às 18h54
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