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Canção in(f)vernal Hoje, como o poeta, sinto no coração um "vago tremor de estrelas" e as minhas lembranças brotam úmidas na fonte da ideia. Todas as rosas brancas tem o odor das minhas penas, e não é por serem brancas que eu gosto delas, é que parece que nevou sobre elas como neva sobre minha alma. Na minha alma a neve surge em cenas misturadas às sombras, no lusco-fusco de como as imagino. Neve, rosa branca e eu, entrelaçados como o sudário ao corpo nobre. Será que um dia minha alma ficará, enfim, sem essa neve? Ou nunca poderei fugir do frio e do odor das rosas brancas? O crepúsculo surge e o mal palpita perto. Nova Babel sendo construída, iluminada por tochas que ocultam a verdade. A inocência é azul; os sonhos de cores perplexas; infelizmente, Cupido não vaga mais por terra tão pouco convidativa. A morte é só a morte de coisas já adormecidas. Sento-me sobre pedras de almas rudes. Na minha alma o mesmo e vago tremor de estrelas, coroado por rosas tão brancas que sinto pena de mim. PS: puro e simples roubo de "Canção Outonal" de Federico Garcia Lorca do "Livro de Poemas" in: "Obra Completa", pgs. 21 e 22. *** Problema pessoal do caso oblíquo “Houston, I have a problem....” *** Projéteis Pensar em tempo futuro é só uma maneira de ludibriar o presente. Afago ou distração benfazeja. Satisfaz-se com a ilusão em forma de projetos. Eu devia disparar projéteis pelos lugares que passo. Mas parece que tenho uma ancora nos meus pés. Satisfaço-me com pouco. Não planejo mais revoluções niilistas. Assombrado por parecer viver numa terra quadrada em que a qualquer momento irei despencar sem glória pelas suas bordas. **** Literatura do Mato Grosso do Sul Como os sacis, nossa literatura é uma lenda. Mas ainda assim ela é, e por hora isso basta. O Rio de Janeiro esperou 372 anos pra que Machado de Assis lançasse 'Memórias Póstumas de Brás Cubas'. Com trinta e dois anos de estado independente ainda engatinhamos em termos de literatura. Se contarmos a nossa vida conjunta com o Mato Grosso temos mais ou menos 261 anos – muito mal vividos por sinal, ou seja, faltam cento e onze anos pra que o nosso futuro Machado lance sua obra prima. Não estarei mais por aqui, mas hoje podemos celebrar o que já conquistamos, Manoel ainda está entre nós, e isso não é pouco. *** Casamento Casamento – fotos - casa – aumento – família de dois – almoço à sós – jantar à dois – dormir abraçado – acordar atrasado – perder-se nas horas – sertanejo gospel – fotos - esquecer da vida – quatro paredes – reino de improviso – cama maior – sono menor – banho de espuma – presente caro – funk gospel – fotos - terno emprestado – gravata dourada – táxi mandrake – uma cerveja? - um vinho? - cachaça? - fanta uva? - charutos? - sorrisos congelados – estrelas – axé gospel - vestidos – saltos altos – pastor – jantar – fotos - doces – noiva feliz – pagode gospel - noivo indefinido? e continua perpetuamente pois ”o amor, que é fome de vida”, pede: “me add no orkut?”......................................................................................... *** 'Twitterature' Num dia de inverno, indefinidamente apático, Gonçalo desceu da sua cama e subiu na canoa de Tadeu, seu irmão, decidido a ganhar o almoço e, quem sabe, o jantar também. 
Escrito por Meridiano Sangrento às 21h28
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Black pages
"morto em palavras" Reparo nas teias de aranha que teimam em me rodear nos últimos três anos. Nada mudou na minha vida a não ser que agora eu sou um inútil diplomado – na verdade mais inútil que diplomado pois ainda não quitei o último semestre e assim sigo com um provisório certificado de conclusão nas mãos. Em tempos lulistas o ‘diproma’ é algo tão útil quanto vendedor de geladeiras no deserto. O Prouni, essa geringonça criada em priscas eras – agora defenestradas – FHC, custeou 50% dos meus estudos. Devia eu me embrenhar pelo interior do país, pagando minha dívida com o governo piedoso, mas, como o corvo de Poe, digo “never more never more”, pois a publicidade com aquela mocinha chorando por ter entrado pra medicina com bolsa total, esconde a realidade atroz. Os cursos são sempre de terceira, como arroz e feijão que fazem parte de alguma cesta básica dividida entre os desvalidos. Formado em que mesmo? Letras, eu me formei em Letras. Estava entre Letras ou História, mas na hora de optar, movido talvez por algum livro devorado na véspera, marquei Letras. E a segunda opção era Direito – “pois eles ganham muito dinheiro e sempre dá fazer um concurso”. Agora já acho ter sido uma ironia do destino ter-me formado em Letras, com bolsa parcial do Prouni, numa universidade particular de padres, com 70% de professores desqualificados. Pergunto se isso não é a realização de todos os pesadelos de uma pessoa? Um pacote de maldades. Acabaram-se os mistérios. A máscara rolou no chão e diante do espelho duas coisas aconteceram: primeiro, recordo-me Borges que diz em ‘Tlön, Uqbar, Orbis Tertius’: “os espelhos e a cópula são abomináveis, porque multiplicam o número dos homens”, lembrança patética e inútil mas que não me abandona nunca (e aqui é só um descanso antes da verdade fatal); segundo, e principal, desfez-se a cadeia de enganos que consegui trazer até aqui, eu fui meu pior guia e por isso, sem misericórdia, me auto condenei ao ostracismo dos inúteis e desinteressantes, aqueles que vivem nem sabem pra quê nem o por quê. Logo, pra pedir autorização para deixar esta vida que não me pertence mais, sento-me nesse banco dos réus. Em frente na bancada dos jurados, diversos eu me observam, reparam, conversam entre si, sacodem as cabeças negativamente ao tomar conhecimento dos fatos que envolvem a causa, o fim está próximo... “A chuva lavou/As pessoas do morto/E lavou o morto/Com a sua fisionomia/De torto/E com seus pés de morto/Que arrastava um rio seco” Manoel de Barros Celebração da inutilidade Com a palavra o réu: “Todos os anos comemoro, em silêncio, o aniversário de alguma grande trapalhada minha. Foram muitas, não faltam fatos, graúdos ou miúdos, pra recordar. Deviam erguer um monumento às pessoas patéticas, assim como tem para o soldado desconhecido ou para aquelas pessoas eminentes. Esses monumentos são a celebração da estupidez humana, ficam ao relento, levando cagadas de pombos e o desconhecimento dos passantes, isso seria uma boa punição pra mim, a imortalidade do cocô de pombos, o olhar parvo dos humanóides. Seria como Níobe, que petrificada, chora para todo o sempre. Eu não celebro quase glórias, são deméritos totais, inúmeros e devastadores. Como a vez em que fui escolhido o jogador revelação do melhor campeonato de várzea da cidade, ah que glória sensacional (tem uma ironia aqui). Todos os meus amigos ou aqueles que estudaram comigo estavam dedicando seu tempo com coisas úteis (todos estão melhores que eu), eu, embriagado por ganhar uma medalha de revelação do campeonato de várzea, tendo como agravante que meus irmãos participaram da votação e fizeram lobby pra que eu ganhasse. Iludi-me por uns dias com aquilo, até que na primeira briga que teve em casa já me jogaram na cara a verdade e eu entendi do provisório e do eterno das coisas. Eu nunca desejei nem uma coisa nem outra, hoje eu quero, a eternidade dos pombos voando ao meu redor com seus piolhos podres, sentando no meu ombro e dialogando entre eles, sujando meu terno de ferro, alugado, é claro (um pássaro eterno e de terno voando ao norte sem sair do lugar). Outra parvoíce? A reprovação na oitava série por conta de uma miopia muda. Não entendia nada de matemática. O professor sempre de terno, com uma careca lustrosa e bigodinho fino parecia saído de algum livro de Proust, empolado para os 38º da nossa cidade. Eu ali, a duas cadeiras de poder enxergar, passei o ano sem compreender direito o que acontecia naquelas aulas e sem compartilhar com ninguém, ao fim falhei, óbvio, fragorosamente. Celebrar a inutilidade de fatos passados é algo que complementa a minha inutilidade em si. É dessa circularidade que minha vida é feita. Esses labirintos a que sempre retorno, essa encruzilhada que evito, temendo os demônios, que sei, inexistentes”. Um acusador: Saber dos problemas não explica nada e sim não os ter enfrentado a tempo. A vida se repete e em se repetindo retornam as chances de corrigir erros ou de não cometê-los de novo, se comete os mesmo erros isso é imperdoável. “As despedidas e o suicídio perdem sua dignidade quando repetidos” (Borges) As vírgulas O réu: Não sei usar as vírgulas. Atrapalho-me com elas e com o idioma como um todo. Minha compreensão é parca, leio mais por distração que para aprender. Dos mais de cem livros lidos, guardo de verdade o clichê da leitura. Como poucos posso debater Kafka só por cima, como uma nata nojenta num copo de leite. Conto pra vocês algumas histórias de Jack London, posso até enfeitiçar meus ouvintes com frases soltas de Nietzsche, apesar de nunca ter entendido uma fuck vírgula dos livros dele que li. Posso dizer pra você mil razões pela qual a leitura de Paulo Coelho é inadequada. Escandalizar-me pela quantidade incrível de livros espíritas lançados toda semana. Mas que sei eu dos prazeres ou fés alheias? Eu que leio sofregamente e nem respeito a pontuação, atrapalho-me com os pensamentos quebrados de um poema. Confundo a obra com a pessoa. Recuso-me a ler alguns autores por conta das suas convicções políticas. Eu não sei usar a pontuação. Não aprendi nas escolas que passei, pois estava mais ocupado macaqueando as pessoas legais que via, tentando ficar parecidas com elas. Uma vida perdida quando se descobre a própria nulidade em usar pontos e mesmo assim insistir e formar-se numa faculdade que exige que a pessoa distinga sujeito de predicado, adjetivo de substantivo. Eu não sei dos problemas dos outros com as vírgulas, sei dos meus problemas e pra mim já basta saber das minhas inutilidades, é por conta delas (minhas inutilidades e não as vírgulas) que me tornei o que o sou. Os jurados: tomam notas meticulosas e disparam: "Tristezas, canta tristezas, e possa o bem triunfar" (Ésquilo). “- nada acontece, apenas um piscar do sol, um movimento apenas, nada, não há redenção, não retorna o tempo, quedos em sua morte estão os mortos e sem poder morrerem de outra morte[...]” (Paz) O escafandro e a borboleta “Hoje, sinto que minha vida é uma série de frustrações. Mulheres que não fui capaz de amar...oportunidades que eu não soube avaliar...momentos de felicidade que deixei escapar. Uma corrida cujo resultado...eu conhecia de antemão, mas falhei em escolher o vencedor. Tenho sido cego e surdo...ou o duro golpe me faz descobrir a minha verdadeira natureza?” & Uma testemunha de acusação: Atado ao seu escafandro impossibilitado de utilizar os refluxos da sua imaginação, nunca foi realmente o que quis ser, menos o que esperavam dele. Recordo-me das incontáveis promessas em que seu nome surgia envolto, eram bons presságios. Ele as demoliu uma a uma. Algo que realmente sempre foi bom, boicotar suas chances de sucesso. Por medo, dúvidas, temor, desespero, vontade corrupta de ajudar alguém na hora e momentos errados. O que sempre faltou e falta, a mistura secreta dos seus desacertos: coragem. Procurar resolver agora, decidido a abreviar essa precária agonia, fugindo aos embates que ainda tem que travar é só colorir com mais cinza sua já descolorida vida... O réu: silencioso, escuta rabiscando em uma folha de papel imaginária. “I have no name: “I am but two days old.” (Blake) & citação do filme 'O escafandro e a borboleta' de Julian Schnabel.... Jasão sem Medéia Uma testemunha de defesa: Ele foi uma boa pessoa. Mesmo sabendo que de boas almas o inferno está cheio, posso dizer que ele cumpriu bem seu papel. Como explicar com palavras a dor que lhe acometeu vida afora? Poderia explicá-lo falando em destino. Sua família está destinada a vagar pelo mundo afora. Trazem no sangue uma condenação mortal, carregam sua cruz pela vida. Mesmo em paz ecoa neles o sino da dor, a marca fatal gravada na história dos seus antepassados. Devem ter jogado pedras na cruz, devem ser descendentes direto de traficantes de escravos, bandeirantes apresadores de indígenas. Hoje, os cabeças de gato herdeiros, pagam o preço daquelas vidas mau vividas, sofrem o que não cometeram pessoalmente, mas sim os seus antepassados. Nenhum deles está livre do sofrimento. Poderia dizer também que a culpa não é dele. Filho de família numerosa e estranha, foi criado sem amor e carinho. Mas isso não explica nada, pelo contrário, prejudicaria muito, pois muitos vivem pior e mesmo assim não querem abandonar a vida. Espero ajudar quando conto que ele solitariamente sobreviveu às agruras familiares, com ímpeto monumental. Na verdade, esperava-se que ele entregasse os pontos bem antes. Este encontro dele com a sua vida está atrasado em alguns anos, o que só comprova sua fibra, ou vontade de acertar. Se não deu certo, não significa que não dará nunca. Por isso posso citar Maduque, e é como se falasse dele: “Cheguei atrasado para a festa da vida e da morte. Cheguei em companhia de quem nem conhecia. Mas, mesmo assim, mesmo estando só, mesmo estando só de passagem, fizeram-me esperar à porta. O riso, não celebrado, não aconteceu de novo. E tudo ficou tão tarde. Desejei passear um pouco lá fora e acompanhar o cortejo de árvores. Tranquei-me sujo com o mijo escuro da noite. Tranquei-me com mil pássaros. Tranquei-me com um pouco da própria carne entre os dentes. Meu medo, enfim, por fim, sem riso celebrado, desencabulou-se e saiu de casa. Foi apanhar-me no meio da rua.” “Charme chulo” Resposta do coro “A resposta de ser ou não ser, é ser, é ser. Mesmo que tudo seja sofrer, é você, só você. E a tristeza vêm da parede pelo ar, sem porquê. Pra agüentar tanta liberdade, é sonhar ou morrer. Sempre estarei feliz apenas a esquecer, de mim mesmo desesperada paz de Deus. Não deixe a vida te levar, não deixe a vida te levar... Quando chove todos reclamam. Quando faz calor todos reclamam. Mas quando está bom ninguém sabe o que fazer, o que fazer! E todos sabem que é assim que as coisas sempre são. São problemas tão pequenos e... existe um mundo imenso por aí, aahhh! Não deixa a vida te levar. Não deixa a vida te levar. E em se tratar de um grande engano esse tal me levar’. Perigoso é a cumplicidade de um país. "Vida, não leva eu, não!" http://www.youtube.com/watch?v=71we6HI_cNs&feature=fvsre2 the end.....

Escrito por Meridiano Sangrento às 20h46
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Vendo Cabeça-de-Gato jogar
As cartas nas velhas mãos dele. Uma breve análise das possibilidades, um olhar, fingindo desatenção, aos outros. E começa o embate das figuras. Sua primeira jogada já vislumbra diversas variações. Como num jogo de xadrez os golpes pesam mais a cada lance. Contam-se pontos. Ensurdece o lance maior. Imbido imbido. Trinta e três. Ganhou de mão. As sementes rubro-negras são entregues aos vencedores. Segue. O segundo lance é calculado em bases frágeis. É dado a vaza, uma armadilha silenciosa, tramada com rostos sisudos. É um jogo de gato e rato que termina com o coringa devastando os adversários. Contabiliza-se a primeira rodada, eles ganharam seis sementes, o adversário nada. Pausa, piadas, explicações da rodada anterior, fartos goles de cerveja, tudo sem perder de vista as cartas nas mãos do embaralhador da vez, pode ocorrer um camaço. Recomeça. É a miúda. O velho aguarda sua vez pacientemente. Espia os adversários se digladiando. Os pontos são trocados, o jogo fica parelho. Ele recebe com oito a quatro. Sorri, busca imaginariamente um cheiro inexistente, é a flor. São três tentos de uma vez que ele completa com uma saída auspiciosa e tática. Onze a cinco, o deslavre fica perto. Alguém levanta pra zelar o churrasco. A costela espetada o pernil de carneiro e a linguiça ao lado da mesa é um belo espetáculo. Nova rodada, o mão do velho está péssima. Ele não se abate, pelo contrário, mente descaradamente. Mas é uma mão ruim pra todos, o um ponto ganho foi uma glória. Deslavraram a zero e os outros chegaram a oito. Nova miúda. O adversário vem pesado. O velho apara o ímpeto dele com uma pianca. Revira o imbido e massacra o oponente com golpes de "tomou papudo". Só ele ganhou quatro sementes. Os seus parceiros são abatidos com flores alheias e o jogo fica pau a pau. Eles também deslavraram e contam agora três, o velho sacode a cabeça e ri, observando os quatro pontos de sua equipe. Cerveja nova chega, copos cheios, uma mexida na brasa e nas madeiras do churrasco. É uma rodada decisiva. Os adversários completam a virada, saem com uma mão de qualidade. A saída é fugir do imbido, mas mesmo assim levam a contrapelo um retruco pesado. O jogo oscila perigosamente para os adversários. Agora está oito a quatro pra eles. Resta uma miúda, ganhará quem mentir mais ou for mais competente. O velho gosta disso, são momentos como esse que alegram seus dias agora, aos oitenta e seis anos. O jogo fica truncado, ninguém quer ser o responsável pela derrota e o velho o recebe agora com nove a sete. De cara, troca os quatros. Olha de novo. A sorte bafejou sua mão. Trinta e dois de imbido um sete de espadas e um ás de paus. Ele sobe a serra. Revira no imbido e faz o inimigo fugir deixando dois tentos pra ele, o jogo está empatado. Ele faz a primeira, abre uma brecha e espera o grito do outro. Um truco vem de lá, tímido. O velho embrutece o jogo querendo retruco. O outro o enfrenta bravamente com o quero com vale-quatro. O jogo está ganho ou perdido. Eles mostram as armas de batalha. Tinha um curingão do lado de lá. O velho perde, mas ri saborosamente. Levou um boi, mas se divertiu à ufa. Alguém olha a carne, um pega uma nova cerveja, as cartas são embaralhadas e fica um zum-zum em volta da mesa. O adversário que ganhou do velho sorri ufano, o velho sorri vingativo, na próxima ele há de ver com quantos paus se faz um bom truco.

Escrito por Meridiano Sangrento às 13h43
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Quatro vezes dez
O dia se fez noite as esquinas se alongaram e tornaram-se retas, intermináveis. Quando dei por mim as mudanças já tinham sido. Bebi do cálice com bordas quebradas. Sorvi pedregulhos, sofri engulhos, vomitei desgraças na terra branca. Maravilhas eu vi poucas. Milagres, alguns, mas, facilmente desvendáveis. Angústias alheias e a espera das borbulhas do chá. O pão nosso de cada miséria dividimos sempre. Brigas, ternuras em pontas de facas. Mudanças, mortes, sorrisos pensativos. Pai-ternidade sem mãe. Venci a fome. Evitei os falsos atalhos. Cai em tentação. Mudei de planos e de ares. Cidade nova, novos erros. Acertos benditos. Filhos - filhas, na verdade. Esconde esconde pega pega. O pão nosso de cada dia ganhamos hoje e preocupamos sempre. Casas alugadas, casa nova casa velha? Casa nova, o fim. Desesperos. Caminhadas diárias, sobes e desces. A mão da madrugada. Estudos na mesa de sinuca, Amizades, saudades. O tempo passando, passando. Eu continuo aqui, para gáudio de uns, tristeza de outros e a completa insignificância da maioria. Mas não é assim com todos? 
Escrito por Meridiano Sangrento às 12h52
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Abominável homem das neves
É dia nublado, o calor está de licença-médica. Trancado no meu quarto ligo o ventilador no máximo. Fabrico meu inverno particular. Logo o velho edredon amarelo, tanto tempo de prontidão, é convocado ao trabalho de me aquecer. Sou prático. Enrolo-me e pronto lá vem a sensação agradável de corpo ficando quente. Um dia de frio vale por mil palavras, não pela sensação devastadora do frio rachando silenciosamente a pele, queimando os lábios. Mas pelas possibilidades de criar lareiras individuais. Chocolate quente com conhaque; corpos nus embaixo de uma coberta; vestir um vinho tinto; compartilhar uma sopa quente. O frio repõe o ser humano no seu lugar de origem. Toda fragilidade em forma de complicados aparatos. Meias, calças sobre calças, luvas, toucas, cremes, batons especiais, a burocracia dos dias gelados. Camadas e mais camadas de preparo. Treino para essas futuras batalhas congelando minhas noites. O frio se mobiliza, penetra em todos os mínimos espaços, açoita minhas lembranças e assim me prontifico com um sono de urso branco. Recordo frios antigos enfrentados com casacos duvidosos. Noites gélidas portando um pala verde com listras azuis. O vento penetrava pelas telhas, trazia consigo o sussuro das estrelas, prisioneiras de tempos remotos. Lembranças sombrias que renascem a cada brisa glacial que surge. Pena que a melancolia trazida pelo vento não seja permanente, a maioria não está preparada pra ela. Aqui convivemos com pessoas solares demais. Parecem plantas em busca de fotossíntese. Eu cultivo a noite, a escuridão perversa do frio. O tempo cinza, as emoções vaporosas, as sonoridades da penumbra. Spinoza dizia que “não se sabe da existência singular de algo a não ser conhecida a sua essência”; eis meu trunfo. Congelei-me demais vida afora sem os apetrechos corretos para tais batalhas. Hoje, descolado, sorrio ao ver a tristeza nas faces alheias. A sensação iminente do inverno se aproximando, como as naus gregas de Tróia, é-lhes pesarosa demais. Que venha o hipotético inverno, por aqui, faz mais frio, e isso mesmo no verão, é em muitos corações humanos, desmantelados pela falta de gentileza; e no meu quarto, produzido por minhas mãos de Zéfiro.
Escrito por Meridiano Sangrento às 12h49
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”mudo aroma de outono”
Para minha mãe em particular...e para as outras mães.... O sorriso exato e a criança se calou. Como explicar o brusco silêncio vindo de alguém que até bem pouco, estridentemente, colocava o mundo de todos em desordem? O cheiro, podia ser ele, o simples odor que exalava daquele ser era uma boa aposta, uma mistura de alimento e proteção. Talvez os olhos, aquele olhar de paz como de um rio manso. Ou então as mãos macias e os braços que lembravam um ninho. A voz, quem sabe se não era aquele doce canto que enfeitava o ar. Podia ser tudo, a matemática perfeita. Mas era tão natural, singelamente puro, sem o peso de dias negros, sem a dor de momentos ruins. Um abraço um sorriso um toque uma fala mansa e o dia não era mais o mesmo. Que elo ligava aquela delicada cadeia? Seria a gestação? Prenhe de dias, horas, minutos, segundos, infinitamente delicados que compunham aquele passar de tempo? A mão que segurava os quadris, os dedos que tocavam a parede que os separava numa carícia fugaz e fértil? O aconchego da cama? O silêncio sutil de um passeio da sala para a cozinha? O calor que emanava do fogão? O zumbido suave que vinha da televisão? Pedaços de sons, bem próximos de ruídos, não incomodavam. Era tudo transformado em ecos, lentos ecos, zumbidos de açúcar. Com gestos descontrolados e mínimos a criança se movimenta nos braços da mãe. Tenta ampliar o alcance do seu toque, alisar o rosto próximo e ziguezagueante. Queria que o instante parasse para poder abarcar essa ilusão de contornos nítidos. Os olhos procuram por ela. As mãos anseiam por ela. A boca deseja o toque branco. Os sentidos, desconexos ainda, só reconhecem ela. E surgem faces estranhas, rostos graves, gestos de delicadeza assustadora, sorrisos polidos de gaveta. Tentam lhe agradar, mas perdem tempo e desperdiçam sua paciência mínima. Logo o choro recoloca ordem na casa. O cheiro diáfano, a voz adocicada e úmida. O sono chega com suas mãos de veludo. A criança dorme, a mãe descansa com um sorriso de pôr-do-sol e a vida segue com seus encantamentos futuros. Todos trabalhando em silêncio comovedor. Evitando o ranger indelicado das portas; o tanger dos talheres; todos com passos de bailarinas; vozes vagamente aprisionadas. A casa com seus moradores parecem estar em dimensão diferente. A criança é o centro do universo. A mãe é a mãe de um pequeno Deus. Tocados os dois pelos encantamentos suaves da maternidade. Uma graça após a outra, uma combinação milimétrica. Como são bons os primeiros dias de uma novidade. Até que o sino toque e o novo deixa de ser o cosmos de todos. Resta a mãe, a uma que é todos. Ela é e basta, sempre bastará. Aos outros mortais resta a pergunta: “quem se deitará no chão por nós?” (Camus). Para a criança não existem indagações nem respostas suspeitas – a mãe é o início o meio e o fim. 
PS: para comemorar The Gossip: http://www.youtube.com/watch?v=4i_c7VU-IgE
Escrito por Meridiano Sangrento às 12h48
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As várias variáveis de uma semana
Opções... Reclamar, reclamar, aguardar, aguardar. Tentar, tentar, buscar, buscar. Nada feito, nada resolvido, a vida segue indefinida. A partilha. A falta de grana. As opções irreais - como dar aulas à noite e aumentar os rendimentos um pouco. Nenhuma mágica. Evito pensar o óbvio: "eu só me fodo nessa merda" e nada me diz que isso vai mudar. Não existe no horizonte pretensão de voltar a estudar, pós - especialização, mestrado etc - tudo abandonado. Ando mais perto de morrer de fome ou de angústia. Os problemas se avolumam. O telefone quando toca é pra oferecer aulas de Inglês. Resta-me ainda um pouco de integridade moral. Fiz a escolha errada optando pelo idioma do Obama, devia ter aprendido o do Dom Quixote e quem sabe assim evitado o vexame de informar para a pessoa do outro lado da linha: "sim, eu posso dar aulas de Inglês, mas não, eu não quero, muito obrigado" (o não quero é não posso). São poucas as opções, a verdade é que quero as aulas para evitar pensar. Quero me ocupar como quando fazia a faculdade. Quando podia conversar toda a noite sobre assuntos variados e me sentir, relativamente, bem. Na verdade ando bem perto de um colapso (palavra incrementada e inclemente essa). Que passas? O tudo e o nada. Sabe quando você vê tudo se desfazendo à sua frente? Relacionamentos, pessoas queridas indo embora, amigos ausentes, canções que desagradam, filhos que necessitam de uma mão, pai que ansia um abraço e eu lá na minha toca. Intocado e completamente vulnerável. Angustiado, ansiando soluções que surjam de qualquer lugar. Odiando os livros por serem alegorias refinadas demais para a realidade. As contas a pagar. Os desejos sentidos. As necessidades básicas não atendidas. É a incerteza rondando de todos os lados, mas, principalmente, a interior. Preciso buscar forças. Tento o sorriso das meninas, mas mesmo neles antevejo desejos contidos quando estão ao meu lado. Canso-me de andar. Entregar currículos. Buscar um lugar ao sol. Fazem falta os contatos. É como se todas as portas se fechassem diante da minha presença. Trabalho. Canso. Reclamo. Busco. Tento. Fujo da tristeza, mesmo ela sendo hoje minha mais fiel companheira. Volto ao meu lado negro. Ele aguarda soluções aos problemas, havia me dado um tempo, três anos de faculdade, e agora a hora chegou. Resoluções minhas. Volto a andar à esmo. "A morte é solitária, ao passo que a servidão é coletiva" (Camus). Somos servis. Necessitamos de dinheiro, para comprar a entrada para vários universos e assim fugir do óbvio: as faltas nos diminuem não nos aperfeiçoam. Felicidade é não pensar. Dividir a dor. Somar experiências. Desejar profundamente. Alcançar objetivos. Sofrer sorrindo. Onde é a saída? Como admitir que você andou errado um vida inteira? Como conseguir dormir quando o seu mundo nunca se transforma numa obra de verdade. São só planos e mais desejos ansiados e nunca conquistados. **** "O sono das maçãs" Acorda bugre velho, desande a trabalhar, corre desgraçado, a vida urge. Não que não urgisse antes, sempre foi esse desespero, mas quando você percebe que naquele mês vai ter que escolher as contas que vai pagar é que algo não vai bem das pernas. A crise financeira é bem engraçada, parece que nem nos afetou - por nós entenda-se a camada em que me encontro, a mais baixa, mas que não recebe nem uma mão governamental. Assim vemos os jornais se esgoelarem a falar da crise, os bancos quebrando, americanos sem eira nem beira, e achamos aquilo tudo tão maluco quanto sem nexo. Nós já vivíamos assim. Tenho amigos que moram de aluguel (como eu moro) que vivem em casas bem precárias, que sobrevivem com salário mínimo. Que trabalham o dia inteiro, que fazem trabalhos braçais. Aqui embaixo a coisa sempre foi complicada e continua a ser. Seguimos rolando dívidas. Dependendo da meia entrada mandrake pra ver filmes, shows, peças. Comemos bem o que os outros rejeitam. Filé mignon não entrou no nosso cardápio, somos extremamente esforçados, mas estamos quase todos completamente endividados. Deixo nos bancos mais de cinquenta por cento do meu salário. Quito um empréstimo e já discuto a possibilidade de outro. Dependo da cortesia alheia para me manter atualizado em músicas e filmes. Já não acho tão esquisito consumir dvds piratas. A ética morre de fome quando o dinheiro some. E o governo bonzinho baixou o IPI, agora podemos nos refestelar e comprar geladeiras, máquinas de lavar, fogões, carros, motos. Comprar como? O que importa em primeiro lugar é sobreviver. Não podemos nos dar ao luxo de quase nada, mas temos uma têmpera diferente. Acreditamos em nós e com certeza, isso é uma grande saída ou, quiçá, uma fuga provisória. "Para se ser feliz é preciso ter tempo, muito tempo. A felicidade é uma questão de longa paciência. E o tempo é-nos roubado pela necessidade do dinheiro. O tempo compra-se. Tudo se compra. Ser rico significa ter tempo para ser feliz, quando se é digno de o ser" (Camus). Nós somos dignos, isso basta, por enquanto, e assim "quero dormir o sono das maçãs para aprender um pranto que me limpe de terra" (Lorca). ***
Paralamas nunca foram minha banda favorita nos idos dos oitentas. Me desgostava aquela pegada pop quase Police da banda. Uma mania de fazer hits chicletes. Uma qualidade sonora que superava todas as outras bandas. Sempre achei incrível que eles escrevessem pop songs mas ao mesmo tempo tivessem um baterista tão monstruoso, um baixista tão barulhento. Pois se eram pop songs, não precisava daquilo tudo. Mas isso era o Paralamas: letras simples, melodias grudentas e uma banda que realmente tocava. Ontem, domingo, reencontrei-me com a banda. Era o final de um feriado prolongando, a cereja no bolo de dias tão legais e simples ao mesmo tempo (estou ficando sentimental demais). E o domingo não prometia nada. Assim como a quinta a sexta e sábado, mas tudo mudou, "tudo muda o tempo todo, num indo e vindo infinito" (Lulu - blargh). Mas é assim mesmo. Minha filha menor chegou trazendo com ela a luz do final de semana. Trazendo com ela, também, uma futura crise de abstinência 'internetal' estampada na face - pois na sua casa ela passa um bom tempo conectada. Mas fizemos o desastre iminente dar certo. E entre conversas, filmes, comidas, saídas, mais filmes - inclusive seis episódios da primeira temporada do Naruto, que assisti bravamente mesmo sem entender direito, conseguimos fugir à exiguidade de expectativas. Vimos inclusive a versão pirata do Wolverine, que de tão pirata ainda apresentava cenas que não tinham sido trabalhadas com efeitos especiais, e eram cordas prendendo os atores, bonequinhos cinzas que voavam e que foram a melhor parte do filme. A chuva de domingo cedo quase encurtou o dia, mas ela sempre traz mudanças e nós a enfrentamos pra visitar meu pai, que nos recebeu com uma carne assada já pronta e seu melhor sorriso. Então quando o show do Paralamas começou, acompanhada do primeiro frio do ano, estávamos no lugar certo na hora certa. E foi um show profissional de quem gosta do que faz. E música após música fomos agraciados pela banda com seu imenso repertório que não cabem nem em duas horas de show, quanto mais num pocket show como aquele. Mas valeu a pena estar ali, e presenciar a redenção paralamistica na minha vida. Tá, não vou virar um fanático da banda, apenas a ouvirei mais atentamente daqui por diante. Com certeza, das bandas que sobraram, Titãs, Engenheiros, Biquiní, Barão entre outras, Paralamas é a melhor disparado, e ver o Herbert tocando guitarra na sua cadeira de rodas, Bi martelado o baixo e o Barone quebrando seu kit de bateria é uma esperiência fascinante.
*** Circulando O término da faculdade não abriu porta nenhuma. Pelo contrário, elas parecem lacradas como as portas do céu para a legião de Lúcifer (assim o disse Milton - o poeta - não o apresentador do programa de TV). E, para fugir à essas trancas, e também aproveitar que ando tendo, injustamente, crises de angústia, decidi fazer um corpo a corpo noturno, levando embaixo do braço (força de expressão) meu currículo. Deveria me aproveitar do Google Earth e organizar as minhas visitas, mas gosto de dar à essa empreitada um ar não oficial ou pelo menos a desaparência de um desespero, então esquadrinhei o centro da cidade, o que para início de conversas já está de bom tamanho. Na primeira noite, tal como um papa-léguas, esparramei meus dados em inacreditáveis quatro escolas; agendei duas entregas para o dia seguinte e consegui me encher de desânimo para os dias posteriores, o que convenhamos, quem já esteve desempregado, sabe que é natural (detalhe, eu não estou desempregado, quero arrumar aulas no período da noite, só isso). Enquanto achava que ser um dos, poucos, bons alunos da sala seria minha melhor propaganda; imaginava que na área da educação o mérito representaria o fiel da balança, perdi tempo e minha campanhia não tocou (tudo bem que não tenho campanhia em casa mesmo). Logo as notícias chegavam: "sabe aquela?"; "quem?"; "aquela"; "não me diga?"; digo sim, está dando aulas de manhã e à tarde". "Sabe aquela outra?"; "se tá brincando?"; "nada, ela está dando aulas no estado e numa escola particular". Não, a educação não tem olhos para a qualidade, antes passa pela camaradagem, pela indicação, e termina como está hoje: sucumbida e sem rumo. Mas eu não desisto, é questão de honra; saio andando e tentando. Uma placa diz "Auto-escola" outra "Escola de Dança de Salão", me pego pensando...se as escolas de verdade contratam professores de fantasia, podia eu era ser contratado por outras "escolas" que não as normais e assim empatar o jogo. Já até me vejo ensinando uma turma a dançar forró: "um dois um dois e gira e vai, um dois um dois e gira e vai; segura, isso, muito bom"; e outra as placas do trânsito: "essa aqui significa, proibido virar à direita, entenderam? Isso muito bom. Agora se você desobedecer à sinalização, cê tá fudido".
Escrito por Meridiano Sangrento às 13h46
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Equilibrista de aquário
Tudo pronto? Silêncio no estúdio. 1, 2, 3...gravando.
Corta...muito bom; excelente, ma-ra-vi-lho-so...
Eis o que acontece sempre quando somos expectadores da vida. Tenho sido um excelente público para as novelas que passam diante dos meus olhos e um péssimo protagonista do maior dos enredos, o meu próprio. É como se minha vida fosse um filme dirigido pelo Ed Wood; faço a cena mal e porcamente e o diretor já grita: “excelente”. Eu o interpelo sem muita convicção: “podíamos refazer essa sequência, não gostei muito”; o maestro diz calmamente: “não, vamos pra próxima”. Minha vida necessita de um regente mais rigoroso, eu sou excelente pra obedecer, ótimo pra ouvir, péssimo pra me guiar. Estou entrando em desespero. A minha sorte lançada há tempos atrás, vai complicando vida alheias. Todos se guiando pela minha falta de rumo. Como uma vaca cega com um sino no pescoço; um dos porcos possuído pelo demônio encaminhando-se para o precipício. Tudo mudou novamente, tão rápido que nem deu tempo pra ensaios. Fui pego mal posto para as novas cenas, mas o diretor gravou assim mesmo, e ainda engrandeceu a fotografia. No script estava escrito:
Filme: “A vida do meridiano”
Cena 553467 - “o bom o feio e o mau” Take 1, tomada 1.
Silêncio no estúdio. 1, 2, 3, gravando....
30 segundos depois...
Excelente, ótimo, próxima cena!
O quê? Como? Quem foi? Onde? Pera aí...repete que eu perdi....
Assista às cenas dos próximos capítulos...
“Tem dias que a gente se sente/ Como quem partiu ou morreu/ A gente estancou de repente/ Ou foi o mundo então que cresceu.../ A gente quer ter voz ativa/ No nosso destino mandar/ Mas eis que chega a roda viva/ E carrega o destino prá lá.../ Roda mundo, roda gigante/ Roda moinho, roda pião/ O tempo rodou num instante/ Nas voltas do meu coração.../ (Chico Buarque)

Escrito por Meridiano Sangrento às 13h49
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"fábrica de dias que virão"*
Pés plantados no presente, o imediato e inevitável hoje. Cabeça planejando saltos futuros ou enganando a mente com teorias duvidosas. A alma saudosa de tudo que já foi, lagrimando o presente com eflúvios antigos, histórias sendo recontadas por casmurras memórias. Assim vivemos. Nunca aproveitamos de todo a vida que levamos. Sempre desejando uma ponte entre-mundos, como uma Talita dependurada entre Oliveira, Traveler e o vazio. Passos que faltam pra consumar o presente; voltas que podem recriar uma história; dúvidas que pairam no silêncio e pode, como Prometeu, revelar o futuro. One minute please...estamos sempre perdidos, isto é o contraditório ser humano. "Mentiras piedosas" (Nietzsche) podem salvar. Salvar-se pode ser uma perdição. Perder-se pode levar à glória. Eis a circularidade de nossa vida. Compreender os paradoxos de que somos compostos é como tomar chá de tília e hortelã num dia frio, não acaba com o frio, mas produz um efeito calmante nas muitas dúvidas e pode nos levar ao sono, que é quando realmente podemos realizar o que desejamos com mais liberdade e sem o perigo dos cem olhos de Argos (o mundo) postos em nós. “Agitações secretas que passam desapercebidas nos recônditos da mente, o caos incalculável de impressões, a vida delicada da imaginação vista por lentes de aumento; o avanço aleatório desses pensamentos e sensações, percursos inexplorados e sem trilhas pelo cérebro e pelo coração, estranhas operações dos nervos, o sussurro do sangue, a súplica dos ossos, toda a vida inconsciente da mente” (Knut Hansum). * Pablo Neruda no poema “Esperemos” 
Escrito por Meridiano Sangrento às 18h28
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O encantamento da Brisa
O mesmo não vinha se sentindo muito bem. A alguns meses começou a apresentar pequenos defeitos: o pino que fazia com que girasse ou não soltou-se e uma peça se quebrou e não aceitou ser colada com superbond (apesar do uso confesso de um genérico do superbond), peça essa da parte traseira do motor do mesmo; mesmo assim continuava prestando seus serviços à contento. Temperamental, decidiu não mais efetuar o movimento semi-circular, fazendo-o, a partir de então, só para uma direção. Em seus momentos finais apresentou um barulho de matraca ou tamborim solitário, um ranger de bomba d'água de carro, o que causava transtorno e imediato desligamento de suas funções ordinárias. Sábado, forçado a funcionar durante o fim da tarde e o começo da noite, rangia, estertorava, gemia, soluçava, quase-parava, voltava... O mesmo apresentou um quadro periclitante e numa tentativa desesperada e emergencial efetuou-se: * Respiração boca-a-boca, com a retirada das sujeiras que porventura pudessem estar atrapalhando seu funcionamento, na base do sopro; * Complementado com uma massagem cardíaca, ou um forte giro das hélices, o popular pegar-no-tranco; * Espera para que o mesmo esfriasse e assim fosse possível tocar em suas partes sensíveis; * Desmonte total, com a retirada dos seus parafusos e posterior remontagem; * Uma última chance de ligá-lo novamente.
O momento final do mesmo aconteceu às 23:00 quando aconteceu um travamento total do seu sistema de giro, ocasionado, talvez, pelo excesso de força, ou falência múltipla dos órgãos. Após seu passamento, o calor fechou-se qual mão sobre a boca de um assassinado, e a casa com seus moradores à reboque se debateram, se contorceram, mas seus gritos de socorro foram sufocados, sua pressa de evasão tolhida, suas ambições paralisadas, era como uma fonte seca, como um monumento inútil, e mergulhou num coma todos os moradores da casa. (Capote) A família (eu) agradece as condolências futuras e informa que mesmo num momento de profundo pesar (sentimental e financeiro) todos os órgãos serão doados para a reciclagem. E parafraseando Guimarães, ele não morreu, ficou encantado...e deixou também uma lição de vida: "vai comprar ventilador nas Casas Bahia seu trouxa, que ventilador de camelô não vale o quanto você pena. Tenho dito!".
Escrito por Meridiano Sangrento às 18h24
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10 (quase) outros amores (continua a continuação)
4. Zane – O nome era maior, uma daquelas homenagens feita pelos pais que irritam os filhos. Pra ela combinava. O que não combinava com ela? Não era de beleza estonteante, nunca foi. O que ela tinha era a capacidade de falar o nosso idioma. Éramos amigos. Na verdade nunca passamos disso. Amigos de longa data. As irmãs eram gostosas, mas eu não cheguei a descobrir se ela honrou a tradição familiar, mudei-me antes de cidade. Tivemos um (quase) relacionamento tempestuoso. Por ela ser legal demais; compreensiva, expansiva, delicada, ia derrubando corações. Era uma terra tombada por onde passava. Quantos não se apaixonaram por ela? Na minha contagem, no grupo que andávamos, mais ou menos uns seis (era fulano que odiava cicrano que não gostava mais de beltrano, tudo por causa dela). Será que ela percebia isso? Ela era a filha menor de uma família numerosa. A mãe dela gostava de casa cheia, organizava festas, queria que os filhos fossem felizes e pra cuidar deles trazia todos pra sua casa. Discos, eles tinham muitos discos. Dançava-se de montão. Comia-se à farta. Eu queria muito namorar com ela, dar um beijo que fosse. Nada. Quantas músicas lentas não dancei com ela? Com as irmãs dela? Namorei a prima dela. A prima, que era muito farta de atributos, mas não era assim...uma Zane. O tempo passou, brigamos, fizemos as pazes e um dia sem mais nem menos, descobri que ela estava grávida e mais ainda, tinha se casado às pressas com um cara – pra mim – feio de doer, quieto e muito sem-graça e ainda com um apelido estúpido. Nunca mais tive notícias dela. Nenhuma pra aumentar essa história
3. Carla – Ela fazia programas. Dizia-se à boca pequena e à boca graúda. E boca era o que ela mais tinha. Lábios para engolir o mundo. E diziam, ela fazia muito bem (programas e usar a boca). Até aqui só falei da fama que a precedia, fofocas, mexericos de pessoas desocupadas e ciumentas. Na verdade era só uma vizinha e o que ela fazia com seu corpo não importava em nada, desde que ela um dia o fizesse comigo. Não fez. Fez com dois irmãos meus, mas comigo nada. Um deles a namorou por meses a fio. E eu no encalço, querendo flagrar o que tanto falavam que ela fazia. Não vi. Topava com ela direto, ela não ia em casa, meu pai não gostava dela. O que separava as nossas casas era uma cerca de arame farpado, mas nunca me arrisquei muito pois ela tinha uns irmãos barra-pesada. Eu ficava por ali, ao sabor dos ventos, desfilando minha magreza de faquir, meu rostinho de criança imberbe. Ela não dava nem bola. Um dia, por vingança, saí com uma prima dela, passamos um carnaval juntos. Descobri ser verdade que ela era garota de programa, a prima também era, e me brindou com uma doença de nome impublicável – coisas da vida.
2. Ana Tereza – Ana era vendedora da Pernambucanas. Morena, cabelo curtinho, curtinho. Sorriso delicado, olhos ligeiramente estrábicos (economizo?). Ela dentro do uniforme calça azul marinho, colada à pele, mostrava uma retaguarda de respeito; dentro da blusa branca, seios boníssimos. Era alegre (trabalhar numa loja, cortando tecidos, vendendo roupas de bebê não era mole não). Adorava quando topava com ela nas internas da loja. Nos corredores estreitos. Quando ela fazia uma venda era a alegria dos empacotadores. Brigava-se para fazer o embrulho da venda dela. Pensava que ela nunca daria bola para um magrelo como eu, empacotador, até o dia em que ela começou a 'ficar' com um vendedor (Não disse? Pensei). O namoro não durou muito, um dia encontrei com ela, tínhamos saído da loja, e cruzamos no centro da cidade, conversamos, rimos, rolou um clima, um clima forte (eu, depois do quartel, não era mais um magrelo ossudo). Ficamos de combinar algo...aguardo até hoje. Mudei de cidade, perdi o conforto da possibilidade.
1. Simone – Se Páris tivesse conhecido Simone não raptaria Helena. Ela trabalhava no Bradesco da cidade. Lá eu pagava contas pra família, fazia questão em pagá-las, ficava na fila, sorvendo um pouco da sua impenetrável beleza. Simone tinha cabelos castanhos claros. Vestia-se impecavelmente - uma diva. Um rosto delicado, boca bem feita, olhos verdes claros (aqui começa o chute), corpo precioso etc. "Quem terá dado nome tão correto a Helena bela, essa esposa de espadas, envolta em desavenças, dor e ruínas, nascida para destruir armadas e perdição dos homens e cidades?" (Ésquilo), e quem acrescentou nome tão lindo: SI-MO-NE, para aquele diamante da cidade branca? Era filha do dono de um mercadinho (naquela época era mercadinho, hoje é mais). Era irmã do gay mais lindo da cidade. Se o gay era lindo o que esperar dela? Ela extrapolava o irreal (li isso em algum lugar, era uma ironia com escritores metidos a besta – cabe bem aqui). Sonhei minha adolescência inteira com ela. Namorávamos, casávamos, tínhamos filhos, éramos milagrosamente felizes até o fim das nossas vidas. Sei que ela casou, que o casamento não durou nada. Devia ser difícil estar casado com uma pessoa como ela. Como a cidade era pequena encontrava com ela ás vezes, andando de bicicleta, na companhia de uma prima loira e também maravilhosa. Ela foi a mais quase de todas, pois nunca troquei nem um oi com ela. Mas acho que ela é a número 1 por ser dela que guardei um ideal de fêmea que aprecio. O que é feito de Simone? Sei lá, deve estar casada, com filhos, gerenciando o supermercado do pai. Mas quem se importa? Ela, como a Marilyn, são imortais na minha memória. Não envelhecem, não morrem. Evito pensar em encontrar qualquer uma delas hoje, prefiro que vivam assim belamente encantadas nas minhas lembranças. 
Gravuras: Gustav Klimt
Escrito por Meridiano Sangrento às 13h43
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10 (quase) outros amores (continuação)
7. Maria Angélica – Podia amar duas algumas vezes. Como dizia Camus: “Há mulheres em Gênova cujo sorriso amei por toda uma manhã. Não irei revê-las mais, e, sem dúvida, nada é mais simples”. Ao mesmo tempo que me contorcia de amores de um lado, cabia em mim a possibilidade de amar outras, mesmo que fossem trechos dela. Maria Angélica: “a melhor definição de amor não vale um beijo de moça namorada” (Machado de Assis). Seu nome combinava com seu cabelo curto e seus shorts de jogar basquete, sua cara de quem ia aprontar alguma ali na esquina, sua permanente alegoria pré-sexual. Ela triunfava pelos corredores da escola. De uma alegria esfuziante, animada para os combates do centro acadêmico. Ah, como deploro minha saída da escola. Mas o tempo não deixou que eu abandonasse os sonhos em outros palácios, fez isso sim que me reencontrasse com ela depois. Eu trabalhava na Pernambucanas, ela surgiu lá, comprou alguma coisa, e eu a atendi, pois fazia os pacotes na loja. Ela olhou pra mim pela primeira vez, ficamos naquela 'sengraceira', ela comentou com a amiga (sempre elas) que eu era lindo, eu me envergonhei, sorri (eu sorri?). Tudo se encaminhou para um (improvável) encontro. Dias depois passando por uma praça, lá estava ela, aos beijos com um cara bem mais velho que eu. Me viu (viu?). Tudo se desfez e o quase voltou a reinar.
6. Cláudia (outra) – Quando amava Waléria e amava Maria Angélica e perdia ambas na fumaça do quase, um amigo amava Cláudia, a quem eu nunca prestara a menor atenção. Até que um dia, meninos eu vi. Acabei percebendo umas sutilezas nela que não tinha nas outras. Como são lindas esses exemplares de futuras mulheres. Ela tinha os cabelos curtos, seios em formação, mas muito bem quase-formados. Usava calças jeans, tênis baixos. Camisetas justas. Era brava, mulheres bravas têm seu charme. Outra coisa que ela tinha diferente das outras era um sorriso luminoso. Ria com todo o corpo, uma tremida suave e doce. Ela foi muito quase. Era um protótipo de traição. Meu amigo a idolatrava, eu não poderia dar o passo que colocaria termo na nossa amizade (como se isso fosse um risco real). Sonhei acordado com ela tempos e tempos depois. Até que seu rosto começou a perder nitidez, foi se misturando aos outros amores impossíveis da minha vida.
5. Sabrina – Estava em outra escola agora, era do curso noturno. Não havia mudado muito, mas já tinha ficado com algumas meninas, já conhecia de verdade o cheiro, a textura delas. E me apaixonei por uma gostosa. Em todo o lugar sempre vai ter uma gostosa. Aquela mulher que parece ter sido esculpida a golpes de um cinzel encantado. As formas invadem nossa retina. Grudam-se no nosso imaginário. Elas são a materialização da mulher de filme pornô na nossa vida, da mulher das revistas proibidas (toda gostosa caminha numa linha tênue entre gostosuras e gorduras, but...). Elas se misturam ao nosso mundo, exalam sensualidade até quando escrevem 'pobrema'; quando falam bobagem. Muitas parecem nem se dar conta desse poder, da força da natureza que possuem e são. Usam shorts curtos, mas elas não têm pernas e sim duas magníficas coxas, com batatas torneadas, pés evidentes, unhas francesas, mesmo encardidas. E essa, em especial, era passista de escola de samba. Uma morena de parar o trânsito, e parava. Nunca achei que alguém como ela pudesse me dar mole. Mas deu. Sabrina 'pesadelou' minha vida, ocupou o lugar de todas as musas que eu conhecia até então. Usava uma bermuda de lycra verde limão inesquecível. Eu não entendia o que ela havia visto em mim. Ainda seco, sem roupas, sem nada de interessante. Mas ela andou atrás de mim. Nos desencontramos, não tive sorte algumas vezes, em outras fugi vergonhosamente. Ela me metia medo em sua excessiva gostosura. Era óbvio que tamanha potranca não iria ficar só e desconhecida muito tempo. Não ficou, logo já estava enganchada com alguém. Logo já era a Rainha do Carnaval da cidade, e foi nesse carnaval que eu consegui falar com ela. O rei e a rainha visitavam todos os clubes, eu estava no Riachuelo, ela chegou, sambou, requebrou, sorriu...eu me aproximei, poderosamente bêbado e gritei em seu ouvido: “VOCÊ É A MULHER MAIS LINDA DO MUNDO”; dei-lhe um beijo no rosto, e fim, nunca mais a vi. Será que ela tem orkut, filhas? 
Continua....
Escrito por Meridiano Sangrento às 18h20
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10 (quase) outros amores
10. Cláudia - Era o nome dela. Eu estava na primeira série, seis anos? Me apaixonei por ela, não conseguia afastá-la do meu pensamento. Em casa, sentava-me pra tomar chá, e enquanto esperava que ele esfriasse (nunca entendi a razão de lá, naquela cidade quente como o inferno, nós tomarmos chá mate Leão pelando) pensava nela. Na escola eu ficava olhando pra ela de longe. Na fila, ela era sempre a primeira, eu um dos últimos. Quando a professora saia da sala pedia para que ela anotasse o nome de quem fizesse bagunça, e pasmem, ela anotava, obediência ingênua. Eu ficava ali, quieto vendo os outros meninos conversarem, rirem, sairem dos seus lugares, enquanto ela ia dando nome aos bois e depois entregava pra professora. O amor de uma criança é tão puro, eu via naquele gesto a importância dela, não a falta de beleza por entregar um amigo de sala. Bom, na verdade não éramos amigos mesmo. Criança fica amigo e briga tão rapidamente que ela podia entregar o nome de todos, eu não, ficava ali, quieto namorando ela. Ela só tirava dez, eu nem me lembro da minhas notas, mas sei que ela era o exemplo da sala. A tia (naquele tempo podia chamar de tia) adorava ela, mas isso eu também fazia, adorá-la. Uma vez, eu disse uma única vez, brinquei com ela. Na verdade ela brincou com um menino que estava ao meu lado, correu atrás dele, e eu, sem ter o que fazer corri junto, ri junto, até hoje nem sei do que, nem para quê. No final daquele ano nosso relacionamento foi bruscamente encurtado, seus pais se mudaram pra outra cidade. Ah, como era triste ficar sem o amor daquela japonesinha. Nunca mais fiquei com nenhuma outra japonesa, queria que tivesse sido ela a primeira.
9. A menina de franjinha - Nunca descobri o nome dela. Era a menina de cabelos pretos que tinha uma franjinha milimetricamente cortada. Nenhuma franjinha combinava com alguém como aquela. Era linda. Um delírio em forma de mistério. Nos encontrávamos no recreio das aulas. As vezes ela estava na escola a tarde, quando eu praticava atletismo. Ela flanava sempre acompanhada de outras amigas (meninas e meninos tem essa mistério em forma de grupo). Em alguns dias nos desencontrávamos e quando a via novamente era como se ela tivesse ainda mais bela. Foi um amor maravilhoso que durou às 5ª e 6ª séries, e não descobrir o nome dela fazia com que ela tivesse todos os nomes que eu conseguisse inventar. Falar com ela? Pra quê? Tempos depois eu jogava futebol de salão e lá estava ela, sentada na arquibancada, com uma camiseta no colo. Lá, na minha cidade, a garota segurar a camiseta de um rapaz era como usar aliança, pois todos nós andávamos só de bermudas, e era como um troféu na mão da namorada, tanto para o cara, como para a menina. A camiseta em seu colo selou o fim do nosso (quase) relacionamento.
8. Waléria - Minhas primeiras frustrações atrasaram todos os meus outros relacionamentos. Me apaixonei de novo só quando conheci Waléria, a de sobrenomes infinitos. Era a 7ª série. Um ano impressionante. Não aconteceu nada nele que eu me lembre assim de primeira, só que um amigo reprovou - eu quase - e eu me apaixonei por ela. O que ela tinha? Cabelo encaracolados. Rosto forte e lisinho (sem aquelas horrorosas espinhas que faziam a festa em muitas faces). Um sorriso encantador e etc. Andava com corpo tenso, movimentando levemente os quadris, como aqueles círculos que se formam quando jogamos uma pedra n'água. Era inteligente. Não me lembro de ter conversado com ela nesse ano, só me recordo uma vez, numa aula de matemática a professora ter dividido a sala em grupos, que resolveriam exercícios no quadro e ela era do meu grupo - assim como outros 19 alunos. Fui chamado para fazer um exercício, a nota valia para o grupo, fui, acertei, ela me fez um gesto (lá nós chamamos o que ela fez de chimite, que nada mais é do que levantar o polegar – tem até um poema do Manoel de Barros que fala de uma “romaria chimite”). Um pequeno gesto para uma menina linda, um universo para um garoto tímido. Só fui falar com ela novamente (o gesto que ela me fez é uma forma de conversa não?) no final do outro ano, quando ela ficou responsável pela arrecadação de dinheiro de uma festa da sala. Eu fui na sua casa levar a minha parte, a mãe dela me chamou pra entrar, recusei, envergonhado até à medula. Quando ela veio, me deu um beijo, meu joelhos tremeram. Passei pra ela o valor e me veio uma vontade de desaparecer naquele momento. Trocamos umas duas ou três palavras, "oi, o dinheiro, tchau", mas foi como se tivéssemos discutido "O ser e o nada" do Sartre. Na festa, ela de biquini era ainda mais linda. E o fim foi ainda mais catastrófico que o meu (quase) relacionamento anterior: reprovei, me mudaram de escola, me arrumaram emprego, justo quando eu começava a ficar apresentável, pois até então eu era um monte de osso, seguro por uma pele queimada de sol, com as costelas à mostra, e umas pernas de seriema. Por ela cometi uma das maiores loucuras pra época, comprei uma camiseta vermelha de um catálogo da Posthaus, que tinha um W branco gigante no peito, era a maior declaração de amor que eu podia fazer. Um sábado, anos depois, nos reencontramos. Eu havia passado o dia pescando na beira do rio. Na subida, cheio de peixes, paramos para tomar uma cerveja num bar mirante que tinha ali. Um grupo jogava cartas, a reconheci atrás de um dos caras que estava no jogo, ela espremia espinhas na costa dele. Mais linda ainda, carinhosa, entregue ao ato de cutucar as costas do (talvez) namorado. Ri (eu ri?).
Continua....
Escrito por Meridiano Sangrento às 19h26
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A mão que balança o berço
A manchete estava em todos os jornais. Depois das imagens que foram veiculadas no plim plim ontem. Funcionários agredindo passageiros com chutes e o fio do apito. A empresa "Super Via" se apressou e demitiu os funcionários. O ministro da Justiça, aquele geringonço chamado Tarso falou: "Achei uma barbárie. Eu acho que é um péssimo exemplo e acho que essas pessoas, inclusive a direção da empresa, têm de ser responsabilizadas". Todos extremamente irritados com o que viram. "Tem que demitir mesmo"; "filhos da puta, maltratando trabalhadores", etc. Quem agrediu eram o que mesmo? Ets? A empresa demitir, a polícia chamar pra depor, soluções rápidas para um desagravo imediato, tudo no burburinho das imagens. Demissão. Processo. Cadeia com eles. E daí? Como somos fúteis mesmo não? Não ouvi ninguém defedendo o indefensável. Nada contra a empresa, responsável pelos trabalhadores. Nada sobre a greve. Mas ouvi: "essa empresa ganhou a concessão por 25 anos no governo FHC, e o estado pode tomar se quiser". "É o resultdo das privatizações do governo anterior". Exageros, exageros. Ocorre no país uma falta de comedimento. Como se quem foi agredido fossem santos na história. Estivessem ali quietos como inválidos. Nunca aprendemos nada com os fatos. Queremos sangue. A empresa "Super Via" é a responsável por tudo - fácil assim. Contratou os futuros agressores; treinou-os, pois disse que eles (os funcionários) eram "orientados a coibir tentativas de depredação ao patrimônio público, atos de vandalismo e condutas que coloquem em risco os demais passageiros e a operação regular dos trens". Demitir os funcionários no burburinho da notícia é estúpido. Se havia trabalhadores de um lado, os demitidos também o são. Quando começaremos a resolver nossos problemas com a razão não com o fogo da hora? Devem ser punidos? Com certeza. Mas não com a forca, a demissão por justa causa, a carteira suja e a chance de só serem aceitos então pelo mercado negro do tráfico, do assalto à mão armada etc. Pune-se a empresa, uma multa. Quem foi agredido e deu queixa receba um valor decidido por um juiz (algo simbólico e não pensão eterna como os nossos ex-guerrilheiros). Os agressores sejam punidos com suspensão do trabalho e, eis a grande verdade, que prestem serviços comunitários para a sociedade, em algum jardim zoológico, em alguma obra de caridade por aí. Depois sejam transferidos de local e que continuem levando a vida do que jeito que conseguirem. Esse é o retrato do Brasil, a "exuberância irracional", os quase oito anos de crescimentos maravilhosos, e, no fim, é pobre agredindo pobre. Rico mesmo só ficou quem era amigo do rei e conseguiu uma vaguinha no serviço público, o resto é o resto, e que venha o sangue, a prisão dos bandidos pobres (pobres bandidos). Enquanto isso em Brasília.....
Escrito por Meridiano Sangrento às 19h25
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"Caos portátil"
Ser pai separado é cruel, bem cruel. Ganha-se em liberdade, paz; sobra tempo para se fazer muita coisa, vivemos num mundo em que ocorre "uma chuva lenta de renúncias e de despedidas" (Cortázar). O estranho da história é que às vezes não queremos tamanha liberdade, queremos um pouco de tumulto no dia. Um jantar em volta de uma mesa, conversas sendo servidas junto com a comida. Risos, alegrias, tristezas compartilhadas e bebidas com o suco. Só por isso, pelo simbolismo dessa perda, já seria o suficiente pra que eu não perdoasse nunca a mãe das meninas. Não o fim do nosso relacionamento - que esse foi se tornando uma maçaroca perdida em meio a ilusões e mentiras - mas aquele fim em particular. O estar perto das minhas filhas, todas as noites possíveis, ao redor de uma mesa de comidas recém-feitas, aproveitando cada instante desses instantes, para esquecermos do mundo. Janto hoje, quando faço isso, sentado num colchão, alguma música tocando, pensando longe ou nem. Não consigo ler enquanto como, reminiscência, talvez, dos tempos de mesa posta. Prefiro conversar, contar fatos pitorescos do dia. Gosto de ouvir o inédito de dias alheios. Degustar uma piada - pois sou péssimo contador delas. Estes pequenos detalhes que faziam a vida em família melhor estão irremediavelmente perdidos. Quando estamos juntos agora, e isso torna a nossa realidade tão atroz, temos momentos em que queremos aquele passado e, por isso, nos tornamos caricaturas de nós mesmos. Nos portamos como péssimos atores, uns querendo agradar os outros. Nessa distância, uma avenida em que transitam sentimentos díspares, tropeçamos em nossas próprias pernas. Ansiosos por agradar; sequiosos de abraços; beijos perdidos; assuntos não contados. Acabamos nos tornando um caleidoscópio de emoções irreais. Não conseguimos falar dos dias inteiros em que não nos vimos. Não dá pra falar da saudade sentida naquele dia especial que não foi. Ficam tantas coisas pra trás, por-ser-ditas. Colhemos as melhores imagens possíveis uns dos outros. Elas mentem pra mim; eu minto pra elas. Frágeis construções momentâneas. Elas não querem me desapontar; eu não posso desagradá-las. "A verdade, como a luz, cega. A mentira, ao contrário, é um belo crepúsculo, que valoriza cada objeto" (Camus). Dizemos: "vamos morar juntos" - acredito tanto nisso quanto elas desejam trocar a vida que levam, cheia de liberdades e vazios decorados. Não lhes agrada a dificuldade. Não lhes atrai o coletivo lotado. Não conseguem compreender, ou talvez nem tentem, a diferença dos mundos que vivemos. Lá, desperdício, aqui a falta. Lá, o excesso, aqui a carência. O que sobra lá, em coisas, sobra aqui em afetos. Perdidas elas não conseguem se decidir. A facilidade das coisas, agrada. A dificuldade da falta das coisas, agride. Não devia ser assim. Tinha que ser tudo mais fácil. Me enganei, pensando que elas ficariam comigo em qualquer estação. Elas, ainda se enganam, achando que as coisas mudarão drasticamente, e eu, possuidor das coisas e dos afetos guardados, estarei enfim apto para ser elevado novamente ao pavilhão de pai.
Escrito por Meridiano Sangrento às 18h54
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