As estações humanas


Picolés de cajamanga

Ela é cheia de disposição. Sorrisos fraternos. Apetite voraz. A calma do vento depois de uma tempestade. Ela sorri com covinhas. Conversa sobre os assuntos mais estranhos e simples ao mesmo tempo. Adora filmes, que se pudesse, veria o dia inteiro. Ela gasta toda água do mundo nos seus banhos intermináveis. Ela se dispõe a andar com sua blusas amassadas, a usar suas duas únicas calças jeans até o limite do imponderável. Ela não se repete. Me dá conselhos juvenis. Dicas para um futuro brilhante. Ela não sabe que meu futuro está nela e ela pode me salvar, indiretamente, de não ser ninguém, sendo ela alguém que deu certo. Já estamos juntos a quase um mês e nossas conversas infinitas continuam. Nossos planos para melhorar a vida continuam. Queremos o melhor. Lutamos para isso batalhas devastadoras. E entre as confusões da chegada, o irmos nos acostumando de novo um com o outro, vamos sobrevivendo um ao outro e, juntos, ao mundo hostil. Quem não sei se sobreviverá é a casa. Eu tenho uma Midas em casa. Tudo que ela toca desfalece, desaparece, parte-se. É a cuia de tereré que cai atrás do fogão. É a chave que ela esquece na casa da amiga. É o mp4 que aparece com um risco tão profundo que se fosse um corte precisaria de muitos pontos. É um copo que ela quebrou e varreu malemar e eu sento em cima dos seus restos mortais, furando a mão. É o pegador de saladas do restaurante que ela derrubou ao tentar se servir de salada de beterrabas. Ela se perde ao andar no centro, perdida como deve estar com tantas possibilidades desse novo mundo que ela descobre agora. Somos amigos. Mais que pai e filha, somos companheiros de um infortúnio, que é a incoerência da mãe dela. Enquanto moramos apertados, passamos calor a mãe planeja ir para Parati no fim do ano com o namorado. Enquanto lavamos roupas na mão, passamos num colchão, a mãe compra PS2 e planeja adquirir também a NET pirata que está em moda por aqui, tudo pra cativar as filhas e fazer com que elas não desejem ficar comigo. E pensar que eu gostei dessa mulher um dia. E pensar que ao terminarmos meu mundo quase acabou junto. Quanta estupidez da minha parte. Hoje, a mãe das minhas filhas faz de tudo para que a filha que está comigo volte. Faz de tudo para a que está lá não venha. Não existem pontos sem nós para ela. E nós (sem trocadilho), do nosso jeito espontâneo, seguimos rindo das nossas próprias desgraças: como a geladeira que não gela. Como as minhas roupas que parecem ter urticárias das roupas delas e ficam manchadas ao menor contato delas dentro do molho de sabão em pó. E seguimos, eu me admirando ao chegar em casa com as calcinhas dela penduradas no varal, e que eu escondo jogando uma toalha por cima. Ela, como se nada tivesse acontecido de tão ruim na vida dela, como ficar sem a mordomia da casa dela. Sem carona. Sem computador. Sem suas coisas que não pode trazer tudo, pois não cabem aqui. E ainda temos a outra irmã, que ainda se admira com objetos e coisas. Que ainda não pode ficar sem internet e outras coisas que não tem aqui, e nós temos que cativar na marra, nem que seja inventando improváveis tardes/noites de sábado, regado a conversas fiadas e hilários picolés de cajamangas. A vida é, não temos tempo de saber se o que estamos vivendo é bom ou ruim, só dá pra tentar sermos os melhores possíveis em tudo o que fazemos, colocando em cada atitude nossa uma parte gigantesca de alma. 


Escrito por Meridiano Sangrento às 13h21
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Escritos avulsos que ficaram perdidos numa pasta qualquer do computador...

Minha mínima porção caipira

Ela acordava e buscava a sua rádio preferida para em seguida se levantar cantando. Seria o melhor jeito de ser acordado, não fora um pequeno detalhe, a trilha sonora. Era sempre música sertaneja, que ela acompanhava com sofreguidão. Cantarolava e saltitava daqui pr'ali e de lá pra cá. Logo um cheiro de café invadia a casa, até o café era caipira naquela casa. Feito naqueles coadores de pano que lembram muito a roça. Seria um café perfeito, não fosse ela continuar, entre os goles, cantando as músicas que o rádio não cessava de rolar. Ela conhecia todas ou era uma impressão minha? Conhecia todas, algumas mais que as outras. Sertanejas variadas e todas iguais. Eu comia pão. Bebia leite. Beliscava um queijo entre modas de viola e ela cantarolando. Impossível continuar com aquilo. Quando eu chegava em casa, precisava de um banho de descarrego, ligava David Bowie no máximo, lustrava a alma com Pink Floyd, com minha 'guittar air' fazia os solos de Jimmy Page e ficava aturdido com a pegada do The Who... pronto, podia sair para o trabalho, mas, quando anoitecia, voltava a ela como se fosse a primeira vez e como se sua trilha sonora não me incomodasse nem um pouco. A carne com sua mania de fraqueza.

Ps: time remote time... na verdade não sinto saudades desse tempo, músicas ruins cansam...

Muito no antigamente...

Não se arrumava os dentes tortos, aprendia-se a viver com eles ou arrancava-se todos e fim de papo;

Mulheres com seios grandes, morriam com seios grandes ou enormes, se engravidassem; e ainda tinham bico de papagaio, e outras coisinhas mais, de carregar o fardo dos seios;

Quem nascesse com lábios leporinos, viviam com janelas na boca, e um nojo medroso em quem os via;

Pessoas com mau hálito consumiam todas as balas de hortelã dos bares e ainda assim fediam ao abrir a boca;

Pegava-se poliomielite e muita gente se atrasava para o futuro ainda criança;

Gordos, ou queimavam suas calorias em academias ou engordavam cada vez mais e mais e mais;

Quem nascia com bundas-banco-de-praça, só sentavam;

Os brigões que levavam um tiro, sangravam e morriam;

Hoje dá-se jeito em tudo. Conserta-se dentes, diminui-se ou aumenta-se seios, opera-se os lábios leporinos, resolve-se o problemas dos bafos, toma-se a gotinha, reduz-se estômagos e coloca-se silicone em bundas, os que levam tiros são remendados e poucos morrem. No fim, o mundo modernizou-se, agora somos tiranizados por qualquer imperfeição.

Ps: seja belo ou morra tentando, eis a ordem dos dias atuais...

E...

De repente tudo à sua volta se choca, transforma-se como por mágica em uma desordem fabulosa. Caminhos se fecham e ao mesmo tempo abrem-se como portas de naves espaciais. Detector de presença. Somos como que carregados por mãos invisíveis e, de repente, estamos no mesmo labirinto de tempos atrás. Dando voltas como cães, num percurso atroz atrás de si mesmo. Como é difícil evitar a filosofia dos dias que passam incólumes, da vida que se esvai entre os dedos, dos cabelos que embranquecem céleres, dos ímpetos que diminuem, das certezas abatidas solitariamente. O sinal se abre e não sabemos a direção exata a tomar. Partir ou chegar. Sorrir ou chorar. Lutar ou fugir. Ganhar ou perder. Tudo tem dois lados, inexiste uma terceira via. Fugir não resolve os problemas, eles permanecem, como um quadro no Louvre. De tanto evitar enfrentá-los, eles se tornam maiores. Uma bola de neve, temperamental, distorcida por dias, meses, anos. Transformado pela minha total apatia. Minhas vitórias, tão grandes aos meus olhos, não se traduziram, novamente, em capital. Foram batalhas disputadas em terrenos íngremes, com reduzido esquadrão. Xerxes e seu exército ficaram presos no desfiladeiro novamente. Eu os retive sozinho. Mas exaurido minhas forças, corro o risco de ser atropelado por todos. Meu futuro passa pela partilha. A partilha define, não o resto da minha vida, mas reorganiza o passado e imporá um futuro. Dos quinze anos de vida em comum, ela propôs pagar por eles módicos R$ 1.000,00 por ano. É uma contabilidade apocalíptica. Nada da apoteose de fazer a primeira mudança conjunta dentro de um Fusca azul. Duas viagens dadas pelo Fusca 1969 do meu cunhado. Nada do glamour de mudar de casa por conta do aluguel, mudar de cidade pra tentar ser feliz em outra, longe do pai da minha ½ filha. Nada do eco de quartos vazios pela falta de móveis. Nada de idas e vindas, nem da vagarosidade com que fomos conquistando as coisas. Nada. A casa nova, que ela recebeu uma proposta dez vezes maior do que ela quer me dar; os móveis; os carros. Agora, passado o tempo, tudo o que conquistamos foi ela quem fez mais. Visito meu advogado dentro do seu Fiat Mille branco, ele conta as novas, péssimas novas e já traz urucum pra que nos pintemos para a guerra. É pegar ou largar. Nenhum outro caminho.

Ps: a partilha, o advogado da partilha, achava que estaria tudo resolvido hoje mas não...

Brave New World

Não era a primeira vez que ficavam a sós naquele lugar; a culpa, se fosse o caso de se descobrir alguma, óbvio era dele. O tempo pesava mais sobre às suas costas, do que sobre os cachos dela, mesmo assim estavam ali, e o limite entre o certo e o duvidoso era a porta fechada e o resto da pensão vazia. A conversa, se houve, rodeava assuntos impróprios para menores, mesmo assim era insistentemente martelada. Os beijos trocados eram tensos, a vontade de derrubar os limites que ainda faltavam para o novo patamar era gigante e, sem quase querer sem temer, tudo seguia...

Ps: a tentação tem cachos e sabor de chocolate...

Leitmotiv

Meus dias voltaram a necessitar de fatos que façam valer a pena estar aqui. Já disse isso, mas repito, somos todos Sherlok Holmes, necessitamos de um apoio quando os horizontes se estreitam ou desaparecem, como que por encanto. Nos livros de Sir Arthur Conan Doyle, toda vez que o detetive encontrava-se sem rumo, sem casos pra solucionar, entrava em crise e sacava de uma dose de cocaína e se injetava, sob olhares irritados de Mr. Watson. Eis que estou assim. Sem olhares irritados de ninguém. Só cuidado pelo meu próprio e inquisidor ego. Não precisamos de ninguém pra nos falar de que algo vai errado, eu pra saber disso, olho a minha volta e tropeço em planos abandonados. Achei que nesse ano conseguiria, enfim, mudar-me pra algo meu, mas continuo pagando aluguel. Descobri, por exemplo, que já não gostava mais de cultivar o passado. Abandonei recordações dolorosas e aprontei-me para o futuro. Futuro este que saiu pra brincar o carnaval e depois resolveu se esconder de mim em alguma caixa de Pandora, juntou-se com a obesa esperança. Se ganhei forças com a faculdade, esperei dela demais pois portas não se abrem como nas "mil e uma noites". O encanto se quebrou. Para viver preciso de certezas. Dúvidas têm espinhos como cactos. A Dúvida é funcionária de Satanás. Ganha por hora e dobra o salário conforme a produtividade. Preciso ter certeza que dar aulas é o que quero realmente pra mim. Necessito da certeza que em algum momento, enfim, eu vou poder ser normal e no meu bolso estar a chave da minha casa, que no bolso das minhas filhas estará uma cópia desta mesma chave e elas transitarão pelo meu mundo com mais facilidades e mais entusiasmos e eu pelos universos delas. Como é tênue a linha entre estar bem, mau, muito mal, péssimo, quase morto e novamente feliz. São pequenos detalhes que podem fazer a diferença. Qual a razão de ter vivido tão pouco ao fim de tanto tempo de vida? E agora, em débito, ainda ter tanto por fazer? Por criar. Queria ser misterioso, ter tantas histórias pra contar quanto anos de vida. Eu não vivi. E por isso pago o preço por ter sido pai em tempo integral. Foram quinze anos. Acho que nunca conhecerei Praga, nem comerei aquele macarrão com gosto estranho que nos fala Camus. Não poderei ver Machu Pichu com minha filha menor, pois já vou entrando na época em que eu vou diminuindo e as dores aumentando. Pra que aprender Inglês? Qual a razão de ter muitos motivos pra continuar e ao mesmo tempo eles serem tão vis e mínimos diante das dificuldades? “Em verdade, em verdade, vos digo”, a onda perfeita nunca foi o meu alvo. Eu preciso de diversas pequenas ondas razoáveis, de vitórias diárias que me motivem a acordar no outro dia. Preciso estar sempre na disputa de taças, que ergueria silenciosamente em triunfo secreto. Mas a vida nunca é o que imaginamos, ela nos dribla, nos engana. Quando achamos uma doce alegria ver seriado de TV em dvds piratas, logo descobrimos que é sim, mas que pode ser outra coisa qualquer, e que, possivelmente, muitas dessas possibilidades não estão ao seu alcance. Preciso perder a vontade de ser onisciente, de querer agradar sempre. Preciso aprender a ficar feliz com minhas batalhas internas, e a respeitar as opções alheias. Preciso de tanta coisa, que hoje aceitaria de bom grado uma boa dose de ódio na veia (pois eu não sei odiar). "Sherlok, please, prepara uma pra mim".

Ps: antes da minha filha vir morar comigo, estava entrando em crise, hoje, “crises, what crisis?”, não sobra tempo....




Escrito por Meridiano Sangrento às 10h28
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Estátuas de cera

Bom, qual é o plano agora mesmo?
 
.........
 
É assim, como numa conversa ao telefone em que falta uma resposta plausível pra uma pergunta disparada do lado de lá. Eis como me sinto. Resta um eco incomodo. Não existe um plano, eis a realidade. Não estava preparado para o que aconteceu. Não estava pronto para quase nada. Agora minha vontade de que tudo mude de uma maneira urgente, para se adequar ao novíssimo dia-a-dia, é maior que minha vontade de estar vivo. As chances de tudo dar errado, de minha filha voltar a morar com a mãe são gigantescas quando tudo fica nas minhas, pouco hábeis, mãos. E não é só a filha. Tem o namoro que eu quero muito que dê certo, e para isso eu já vinha investindo muito e que agora ficou tudo muito bagunçado (e professor, três muito numa frase só). E tem a filha menor que ficou. Ela que tem sido um dos assuntos mais comentados em casa agora, pois ficamos com medo de a perdermos, pois ela está sozinha, enfrentando diretamente as ambiguidades da mãe. E tem o calor que parece que quer nos derreter por esses dias e parece que é mais um perigo pra que tudo dê certo nessa nova etapa da nossa vida. Pois o calor quase nos derrete os miolos, nos faz suar em bicas e faz os lençóis 
recenderam a fedido. E do ralo do banheiro, saem baratas, que peregrinam pelo teto do banheiro, reparando em como eu tomo meu banho. E nada pode ser esquecido em cima do fogão pois estraga em pouquíssimo tempo. E os dias que se tornaram curtos pois agora chego cedo em casa pra cozinhar algo pra nós dois, que pode vir a ser três, eventualmente. Como falta poesia nessas noites, mesmo que nos peguemos conversando quase ela toda, organizando a primeira lista de compras que faremos juntos. A vida podia ser mais poética. O advogado podia ser mais urgente, o juiz mais camarada e nos chamar logo para uma conciliação que agradasse a todos. E eu, ou nós, sairiamos desse impasse. Compraríamos uma casa nova, quem sabe um apartamento? Colocaríamos nele os móveis mais simples e belos ao mesmo tempo. Pois só de serem nossos seriam todos de uma beleza estonteante. E assim, quem sabe, as coisas entrariam num eixo, e nós poderiamos seguir a vida, que, do jeito que está, colocou a todos em suspenso. Aguardamos um futuro que pode nem chegar a ser. Mas temos o presente que necessitamos enfrentar com galhardia. E o fazemos. Fazemos pastéis que comemos todos sentados no chão. Organizamos o único guarda-roupa de modo a caberem nossas roupas e nossos objetos. E caber também nossa imperiosa vontade de que dê tudo certo, que consigamos passar esse período sem abandonarmos nada nem sermos abandonados por nada nem ninguém. Difícil. Em grandes mudanças, sempre alguém perde algo. Espero que consigamos atravessar esse mar Vermelho, com a mesma graciosiade com que os pássaros voam. Que os políticos mudam de posição. Que esse calor infernal nos derrete vivos, como estátuas de Madame Tussaud.  


Escrito por Meridiano Sangrento às 09h22
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Casas Bahia: dedicação total a você

Cinco e quarenta da tarde. Planos para a noite? A princípio alguns, mas não de todo bem resolvidos. Cozinhar (agora cozinho quase toda noite). Quem sabe um cinema (namorar é preciso, viver não é preciso). Saio do trabalho, que ainda não são aulas, é o mesmo e velho burrocrático trabalho de sempre. Uma missão mais urgente me retém no centro da cidade, pagar uma prestação nas Casas Bahia. Fácil, penso (e se penso existo). Com aquela quantidade de caixas, entro, pago e vazo. Fila. O homem, esse ser absoluto, inventou a fila. A quantidade de caixas esperado se transforma em dois, solitários e lentos, caixas, sendo um para os idosos, pra's gestantes, pessoas com crianças no colo etc... (e de repente uma multidão envelhece, gordinhas tornam-se grávidas...tsk...tsk) A loja está passando por reformas ("aqui tudo é construção e já ruína", pois essa loja está sempre em reforma e nunca chega a ficar pronta). Entro desarmado, pois devolvi os livros que estavam na minha mochila. A fila é heterogênea, pessoas de todas as classes C- D E F se misturam nela. A fila é grandiosa e ondula dentro das balizas colocadas pelo segurança. Passos miúdos são dados. Conversas toscas são trocadas: o ar condicionado desligado, o calor transbordante, os únicos dois caixas, o gerente que ninguém vê, um casal que se beija, aproveitando a leseira da fila. A fila não serpenteia como esperado. O calor esquenta mais que o ideal. Nada é como queríamos que fosse. Posso ir embora? Não vou. Quando me decido por ir, a cidade é abraçada por uma chuva torrencial. Fico e era melhor não. Na loja com pedaços de forros arrancados começa a chover tanto quanto lá fora. O único caixa que atendia as 'pessoas normais' para pois tem uma goteira em cima dele. Corre-corre. Móveis ficam expostos à chuva mesmo estando no interior da loja. As pessoas se agitam. Uma senhora sugere que todos façamos uma greve e quebremos tudo dentro da loja (greve?). O tempo passa. A chuva desaba. O piso, em alguns lugares, vira um rio que faria inveja em Manoel de Barros. Pessoas com rodos procuram afastar a teimosia da água. O caixa protege seus equipamentos com sacos de lixo preto e prossegue sua lida. Mesmo com tanta desordem os vendedores continuam vendendo. Vender é o verbo. Depois de concluída a venda, dane-se o pagador, pois quase sempre, nesses casos, o nome é o maior bem da pessoa. Por isso, as pessoas se sujeitam a ficar mais de uma hora numa fila que não anda, vendo vendedores desesperados para ganhar o seu pão de cada dia, vendo os caixas defenderem o seu também, e a loja em si, essa entidade que leva os sonhos para dentro da casa das pessoas que de outra maneira seria impossível, só faz é publicidade enganosa e a dedicação à você é só isso mesmo, uma frase de efeito, como era a famigerada: "quer pagar quanto?".... mentiras sinceras... tudo bem, mentiras sinceras, como diria o Cazuza, tem dias que me interessam.  
ps: meu tempo quase acabou agora; sem falar na necessidade de aumentar meus ganhos urgentemente...
ps2: o que ando ouvindo assim mesmo? The Bellrays...
aqui 1. ... aqui 2. ... e aqui too 3.


Escrito por Meridiano Sangrento às 13h56
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Mudanças dos planos que não tínhamos...

Quando separei julguei que o mundo estava acabado, descolorido, virtualmente sem reparo. Estava errado. O nosso mundo tem a estranha mania de se renovar; mudar bruscamente de direção. É como o vento, zune cá, refresca lá, falta acolá. Refeito, novos horizontes surgiram. Minha vida se transformou, fui como que renascendo. Até que me senti pronto para novas batalhas. Faltava algo. Sempre parecia que faltaria pedaços nessa nova vida. Filhos...

 

"Filhos?/Melhor não tê-los!/Mas se não os temos/Como sabê-lo?/Se não os temos/Que de consulta/Quanto silêncio/Como os queremos!/Banho de mar/Diz que é um porrete.../Cônjuge voa/Transpõe o espaço/Engole água/Fica salgada/Se iodifica/Depois, que boa/Que morenaço/Que a esposa fica!/Resultado: filho./E então começa/A aporrinhação:/Cocô está branco/Cocô está preto/Bebe amoníaco/Comeu botão./Filhos? Filhos/Melhor não tê-los/Noites de insônia/Cãs prematuras/Prantos convulsos/Meu Deus, salvai-o!Filhos são o demo/Melhor não tê-los.../Mas se não os temos/Como sabê-los?/Como saber/Que macieza/Nos seus cabelos/Que cheiro morno/Na sua carne/Que gosto doce/Na sua boca!/Chupam gilete/Bebem shampoo/Ateiam fogo/No quarteirão/Porém, que coisa/Que coisa louca/Que coisa linda/Que os filhos são!" Vinícius de Moraes

 

E no meu caso, filhas. Nunca soube porque as tive. Vieram. Surgiram. Sempre preferi as mulheres. A beleza sutil. O carinho cheiroso. Nunca quis ter meninos. Tinha a certeza que ter meninas significava tê-las comigo mais tempo. Era meio óbvio. Pequenas, elas ficam sempre por perto. A menstruação viria aos 14 quem sabe 15 anos. Dai começariam os interesses pelos meninos. Namoricos que eu expulsaria com chispas nos olhos. Moleques que correriam de medo a minha evidência varonil de pai presente. Achava que as meninas que começavam a namorar cedo, a transar cedo era por não terem uma família ajustada. Achava, achava. Achei tudo errado. Menstrua-se agora com 12 às vezes 13 anos. Os hormônios brotam furiosos. Os meninos, ah, pobre de nós os meninos. Somos facilmente induzidos ao erro. A mim, pai de olhos atentos, enganavam com doces mentiras: "vou dormir na casa da fulana, olha, liga pra falar com a mãe dela etc."; "vou no show com minhas amigas". Meninas, eu as quis por achar que seriam minhas até aos 18 quando enfim, entrariam na faculdade e daí eu perderia os bebês. Tudo bem, continuam meus bebês. Mas agora tudo isso é tão diferente.

E veio a separação, com suas confusões atrozes, e eu fui, e elas ficaram. E elas vinham e, à princípio, eu nem as via direito. Depois, quando as vi, o mundo já havia girado de novo. Elas haviam crescido. A de 17 faz agora faculdade de economia. A de 13 usa sutiã com bojo. A 1/2 filha bandeou-se para o lado de lá. Filhas pra que tê-las mesmo? Elas comandam tudo. Hoje eu vou, hoje não vou. Façamos assim e não assado. Tão bom quando elas chupavam giletes; quando bebiam shampoos. Como queria que elas ateassem fogo no quarteirão e não, como agora, na cidade inteira.

Resumo da ópera: Segunda, telefone toca, atendo. Descubro que algo não vai bem na Dinamarca em que elas moram. Chego em casa. Tenho visita. Entro, descubro o que é, o que foi. Não sei se foi presente. Ou que o que aconteceu é algo que será duradouro. Só sei que nessa semana eu fui instado a cumprir minha obrigação de pai presente. Três tigres chegaram na minha casa, dois foram embora. Uma tigresa de unhas dos pés vermelhos. Livro de estatística. Uma mala preta, pequena até para o alto dos seus 17 anos, ficou. O que vai ser? Não tenho a menor ideia, mas, não deixemos a vida nos levar... Nem façamos como Sócrates dizendo "só sei que nada sei". Eu sei o que aconteceu. É uma chance que surge pra que exista um possível nós de novo. Deixemos de lado os medos e os tremores de ser tudo só uma fuga dela, não pensemos que se trata apenas de uma "temporada" na minha casa, aproveitemos tudo ao máximo. Quando foi a última vez que nós moramos juntos na mesma casa? Junho de 2006... O mundo girou...



Escrito por Meridiano Sangrento às 16h40
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"Os meses e os dias são viajantes da eternidade" *

Perdendo os dentes

Nutro o silêncio com o meu melhor sussurro. Singular é a certeza que percorre os vazios. Vazio como as perdas que acumulamos vida afora. "Sei que perdi tantas coisas que não poderia contá-las, e que essas perdas, agora, são o que é meu" (Borges). Perdi o detalhe das coisas, a miopia levou. Por isso admiro tanto quando o que vejo posso tocar. Toco logo encanto-me. Minha mãe morreu e está sempre ao meu lado. Perdido estão amigos. Presas em algum limbo, mulheres que, porventura, convivi. Escondida, minha fé. Um homem sem fé é invencível, pois nunca luta de verdade, só em doces palavras. Desencontrei-me da gorda esperança, era um fardo carregá-la. Perdi objetos: alguns dei, outros doei, muitos abandonei - como um certo blazer branco no elevador de uma loja de departamentos. Vivo minhas perdas, pois nunca consegui organizar para mim um quarto de despejo, pois o grande despejado da vida fui eu. Meus livros, um cachorro, cds, revistas, pé de pitanga. Uma quase namorada em um carnaval desastroso; uma outra namorada que se foi num outro carnaval. "Penso nas coisas que poderiam ter sido e não foram". Maldita imobilidade de futuros irrevogáveis, de passados imutáveis. Perdi o emprego em um hotel. Hoje nem o hotel existe mais. Perdi chances e me arrependi. Penso sempre em não me render, confabulo com os inimigos, bebo chá com alguns eus duvidosos. Perdi um casaco rosa no shopping. Perdi a hora de alguns encontros (na verdade eu faltei a alguns desses encontros por medo e outros por farra). Perdi peixes na hora de tirar o anzol. As tampas do dedão do pé ao bater em calçadas hostis. Perdi jogos na televisão e também o prazer de vê-los. Perdi pedaços de dentes, reais e imaginários, aqueles que eu sonho e coincidem sempre com a falecimento de algum conhecido meu. Perdi parentes, amigos, levados pelas mãos de veludo da dona morte. Perdi metade da unha do pé esquerdo; o apêndice; dois discos da coluna; muitos fios pretos se assombraram com a minha vida e embranqueceram; posters de cinema esquecidos na pensão da Jô. Perder, perder. Vivemos para perder e para ter o prazer de reecontrar coisas que achávamos perdidas. Ou para ter o prazer de descobrir, em meio a dias confusos, sensações que considerávamos mortas. Prefiro viver, nem que seja para perder inúmeras coisas. O simples fato de poder me lembrar delas já é uma dádiva por demais bela. "Só não me deixe esquecer a cor dos seus olhos de noite".

*****

All Star

Sabe esses dias em que você, cansado de dar murros em pontas de facas, resolve deixar a vida escorrer lentamente por entre seus dedos? São dias valiosos. Raros, mas muito valiosos. E por serem poucos devemos receber esses dias em pleno peito como o abraço de uma criança. Singelezas chamam singelezas, possa o bem triunfar (mal copiando Ésquilo). O mundo se transmuta em uma imensidão incolor. São momentos em que cremos pouco, que sorrimos muito, que nos basta a pele e a pele. E a vida escorre então, em câmara lenta, consigo ver a cor dela, é prata como um vestido de festa, com brilhos e miçangas. Ser homem nesses dias é se abandonar ao impossível. É se doar em mil pedaços. É sorrir sempre. Dar você mesmo os bons dias tão solicitados por todos. Abraços de camurça. Palavras escorrem da boca como mel. Ficamos adocicados e fartos. Se pudessemos sinalizar para o mundo que estamos tão fáceis, tão aptos para entreter a todos, nos dariam um estandarte e nos estenderiam o tapete vermelho guardado para os Papas não beijarem o chão sujo. Não nos assusta o ônibus cheio. Nem as pessoas apressadas das calçadas. As notícias ruins não nos alcançam. São dias em que um simples All Star, com listras azuis, em nossos pés abre portas de mundos inviáveis, os caminhos se transformam em estradas de tijolos amarelos. Passo a passo, sigo. É macio. Posso dançar? Nada é mais simples que estar calçado com pés de vento. Se Hermes fosse vivo, trocaria sua asinhas no tornozelo, por um All Star de listras azuis. Como eu, nesse sábado de sol.

*****

Pedra do sol

[...]
 
"vou por teu corpo como pelo mundo,
teu ventre é como praça ensolarada,
teus peitos dois templos onde oficia
o sangue a seus paralelos mistérios,
como hera te cobrem meus olhares,
és cidade que o mar assedia
e muralha que esta luz divide
em duas metades da cor do pêssego,
um lugar de sal, rochas e de pássaros
sob a lei do meio-dia absorto,
 
vestida com a cor dos meus desejos
como meu pensamento vais desnuda,
vou por teus olhos como pela água,
os tigres bebem sonhos nesses olhos,
o beija-flor se queima nessas chamas,
vou por teu rosto como pela lua,
como a nuvem vou por teu pensamento,
vou por teu ventre como por teus sonhos,"
 
[...]
 
Octávio Paz

 

* Matsuo Bashô



Escrito por Meridiano Sangrento às 13h33
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Lembrancelhas

Até que idade nosso cérebro consegue retornar e assim ser uma testemunha crível de fatos passados? MInha mãe morreu e eu tinha quatro parcos anos. Ela se foi e na minha cabeça restaram retalhos de lembranças que nem sei se são meus de verdade ou ecos do que ouvi falar dela. Eu a vejo cozinhando, pra mim ela devia ser uma excelente cozinheira, ou pelo menos era prática o suficiente pra saber alimentar, a contento, sua generosa prole. O que é real? O que é fictício? Nem eu sei mais, ou então, nunca soube. Apenas que algumas imagens dela me surgem desfocadas em que ela sempre tem o rosto do único quadro que temos dela. Ela usa vestidos coloridos e seu rosto é preto e branco. Lembro um desses memoráveis almoços. A carne, por falta de geladeira, era guardada em latas de banha de porco. Nesse dia, parece que passou do ponto e estava com um sabor mais para o ruim do que pro bom. Meu pai, impávido, almoçou tudo, com aquela feição de homem da casa, que não sorria nunca ( e pensar que hoje ele sorri o tempo todo, feliz por estar ludibriando o tempo e ainda ter saúde aos 86 anos - será que ele sente saudades da minha mãe?). Minha mãe, serena e esperta, com um gesto de mão e com todo o carinho possível no rosto indicou que eu não precisava comer. Como ela descobriu que estava ruim? Ela sabia. As mães sempre sabem.

Mas queria lembrar mais. Salvar trechos inteiros. Colá-los com superbond. Remendar e dar-lhes formas. Isso sempre acontece quando converso com alguém da minha família. Eles acrescentam trechos inteiros sobre ela que eu não sabia, eu reorganizo minhas memórias, acrescento as novidades. Sei que ela ensinou todos os meus irmãos. E que como professora ela era carrasca. Não aprendia, apanhava. Sei que um dos meus irmãos não aprendia a tabuada e que ela caia furiosamente sobre ele. Essa simples menção faz com que eu recrie sempre essa história. Coitado desse irmão. Já apanhou de cinto, corda, pau; já foi colocado de castigo no milho, em quarto escuro. Minha mãe, aquele gigantesco doce, era brava? Comigo não. Nunca. Mais qual a razão de lembrar da minha mãe hoje? Na verdade o texto é sobre lembranças, memórias. Como a gente consegue recordar de coisas detalhadamente, de outras razoavelmente, e por fim, de algumas partes da nossa vida surgem borrões. Lembranças partidas, reconstruídas por trechos de e-mail, por acaso guardados, fotos, fatos. As vezes lembramos de trechos de conversas, de momentos tristes. A lembrança mais triste da minha mãe, e eu acho que essa recordação é minha e real, foi numa tarde na fazenda do meu pai em que morávamos. Eu estava no colo dele, ela estava perto, tinhas alguns irmãos? quem sabe irmãs? Só sei que de repente meu pai disse que precisava fazer alguma coisa e ia à cavalo em tal lugar e eu disse que iria também. Meu pai me levou para os braços da minha mãe, mas eu recusei, pulei me joguei e diante de tanto barulho, meu democrático pai, tirou a bainha de sua faca e me bateu: uma, duas, três, quatro vezes. Eu chorei e corri para a minha mãe. Meu pai montou no cavalo e foi embora. Eu não sei o que pensei naquela hora, só me recordo dessa cena inteira, sempre.

Hoje quando vejo minhas filhas, fico tentado a recriar alguns dos bons momentos que tivemos juntos e descubro, horrorizado, que muitos deles, estão se tornando borrões. Apagados como algum fax porventura guardado. Como extrato de banco em que os números vão distraidamente se apagando. A história se repete, o que elas guardam de mim? O que é mais importante? Como fazer pra ter sempre dias memoráveis? Viver é um eterno recontar de fatos. Eu sou um prisioneiro de minhas lembranças, mesmo as que vão se apagando, pois eu me apego a elas como um náufrago segura uma tábua no oceano.

ps: Canastra no Fly? Yes, nós fomos...



Escrito por Meridiano Sangrento às 13h07
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Caldo de piranha

Elas chegaram no porta-malas de Jorge, meu cunhado. Ele ainda tem familiares em Corumbá, e, sempre que possível vai passear por lá, agora que sua vida está apaziguada. Trouxe doze mimosas piranhas. A uma simples menção delas - piranhas - abala-se corações e mentes dos nhecolandenses da família. Salivamos só de pensar nelas, tal qual cachorros em frente de frangos que giram em portas de padarias. Fato: doze piranhas não conseguiriam satisfazer os veneráveis saudosistas da família e para completar compraram também dois pacus e, voilá, estava combinado o jantar. Família reunida e nem é feriadão? Aniversário de um sobrinho-neto meu. É, família grande faz com que tenhamos tantos parentes que nem chegamos a conseguir contabilizá-los. O caldo de piranha é apenas um preparativo antes do grande almoço de domingo. Se minhas sextas-feiras contassem com explendidos jantares como esse, acho que minha vida seria melhor - mas divago.

Estão asfaltando o bairro do meu pai. Meus irmãos moram nele a inacreditáveis 16 anos, e nesse explêndido ano de 2009, mais que ser sede da Olimpíada de 2016, vale festejar o asfalto tão pretinho, estendido aos pés da casinha dele. Tudo é tão bucólico na região em que ele mora, agora, se tornará um pouco mais cosmopolita, mas ele recebe a todos com o caldo já pronto, mal terminado os abraços já coloca na minha mão meu primeiro copo de caldo. Ah! queria ser Proust e explicar o que acontece comigo quando bebo o primeiro gole. O caldo rústico não tem a leveza da madeleine proustiana, mas me remete de pronto a diversos lugares em que já morei e a outros tantos que desconheço. Sinto cheiro de camalotes. Sinto o gosto de água correndo, impávida e colossal. Escuto pássaros e o zumbido frenético de mosquitos e mutucas. Posso, como Manoel de Barros, sentir o cheiro do sol.

Passada essa comoção, sentamos pra tomar cervejas e não consersar sobre nada efetivamente. Psicólogos, psiquiatras, livros de auto-ajuda, nada se compara a isso, sentar, bebericar uma cerveja, tomar um caldo e desconversar. Ficamos nisso até descobrir que os pacus, cortados e temperados numa bacia estavam à minha espera para serem fritos. Mãos à obra. De pé, na minúscula cozinha, ás vezes quatro, em outras, sete pessoas se espremem pra tentar fritar o peixe, continuar esquentando o caldo, fazer um arroz, lavar e temperar uma salada, falar de pessoas ausentes, rir. Minha família passou a maior parte do tempo em torno de fogões e churrasqueiras, no trabalho, ou solitários em seus lares. Somos assim, simples e expansivos. Uma vez me chamaram de simplório, hoje acho que a simplicidade é uma roupa que visto bem.

Os peixes fritos estão encantados. Mal os coloco numa assadeira forrada com papel toalha, desaparecem. Os peixes fritos são apenas mais um aperitivo. Embaixo da mesa, sim embaixo, pois não restam lugares na cozinha do meu pai, está uma panelona e dentro o resto das piranhas. Essas, meu pai fritou e ensopou, junto com todas as doze cabeças. Cabeça de piranha. Se o caldo de piranha na minha mão, na minha boca, é uma pétit madeleine, degustar a cabeça ensopada de uma piranha é o meu Aleph. Um ponto em que todos os pontos do universos podem ser visualizados. Será que Borges comeu alguma vez cabeça de piranha ensopada? Ou, na sua infinita cegueira, sequer supôs a existência dessa abençoada iguaria?

Me abandono em mim destroçando a maior das cabeças de piranha da panela. Algo de mágico ocorre. Recordo das vezes em que, morando em Corumbá, a única coisa que podíamos comer eram peixes. Pra nós, o milagre da multiplicação dos peixes era mais que um milagre, era uma necessidade dolorosa. Se os peixes não comessem as nossas iscas na beira do rio, passávamos o vazio frio da fome. Sobrevivemos, os peixes não nos abandonaram. Ontem, comendo uma cabeça de peixe, sentado ao lado do meu pai, perto de alguns irmãos, o tempo parou, como já não parava há muito. Não seria exagero dizer, mesmo que o exagero faça parte do meu modo de escrever, que na casa do meu pai, despida de móveis, sem um sofá que seja. Com bancos à guisa de poltronas, com cadeiras contrabandeadas da casa ao lado, não seria exagero dizer que esse ambiente tão simples é um portal para outros mundos, outras dimensões, que lá, em algum lugar que desconhecemos todos, existe uma escada que liga direto com o céu. Meu pai seria então o guardião dessa dádiva. Peixe frito ou carne assada são o néctar divino, servidos numa ceia, que dado a idade do meu pai, pode ser sempre a última, mas fazemos sempre parecer que é a primeira, a primeira de muitas.



Escrito por Meridiano Sangrento às 13h28
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perdido

Os Sobreviventes

"Sri Lanka, quem sabe? ela me diz, morena e ferina, e eu respondo por que não? mas inabalável continua: você pode pelo menos mandar cartões-postais de lá, para que as pessoas pensem nossa, como é que ele foi parar em Sri Lanka, que cara louco esse, hein, e morram de saudade, não é isso que te importa? uma certa saudade: em Sri Lanka, brincando de Rimbaud, que nem foi tão longe, para que todos lamentem ai como ele era bonzinho e nós não lhe demos a dose suficiente de atenção para que ficasse entre nós, palmeiras e abacaxis. Sem parar, abana-se com a capa do disco de Angela enquanto fuma sem parar e bebe sem parar sua vodka nacional sem gelo nem limão. Quanto a mim, a voz rouca, fico por aqui comparecendo a atos públicos, entre uma e outra carreira, pixando muros contra usinas nucleares, em plena ressaca, um dia de monja, um dia de puta, um dia de Joplin, um dia de Tereza de Calcutá, um dia de merda enquanto seguro aquele maldito emprego de oito horas para poder pagar essa poltrona de couro autêntico onde neste exato momento vossa reverendíssima assenta sua preciosa bunda e essa exótica mesinha de centro em junco indiano que apóia vossos fatigados pés descalços ao fim de mais uma semana de batalhas inúteis, fantasias escapistas, maus ogasmos e crediários atrasados. Mas tentamos tudo, eu digo, e ela diz que sim, claaaaaaro, tentamos tudo, inclusive trepar, porque tantos livros emprestados, tantos filmes vistos juntos, tantos pontos de vista sócio político artístico filosófico existenciais e bababá em comum só podiam dar mesmo nisso: cama. Realmente tentamos, mas foi uma bosta. Que foi que aconteceu, que foi meu Deus que aconteceu, eu pensava depois acendendo um cigarro no outro, e não queria lembrar mas não me saía da cabeça o teu pau murcho e os bicos dos meus seios que nem sequer ficaram duros, pela primeira vez na vida, você disse, e eu acreditei, pela primeira vez na vida, eu disse, mas não sei se você acreditou. Quero dizer que sim, que acreditei, mas ela não pára, tanta tesão mental espiritual moral existencial e nenhuma física, eu não queria aceitar que fosse isso: éramos diferentes, ai como éramos diferentes, éramos melhores, éramos mais, éramos superiores, éramos escolhidos, éramos vagamente sagrados, mas no final das contas os bicos dos meus seios não endureceram e o teu pau não levantou, cultura demais mata o corpo da gente, cara, filmes demais, livros demais, palavras demais, só consegui te possuir me masturbando, tinha a biblioteca de Alexandria separando nossos corpos [...]"

****

O que é isso darling? Um trecho de um conto do Caio Fernando Abreu. Parei ali, pois iam surgir imagens fortes para os leitores deste blog. Na verdade quem quiser mais é só procurar no Estante Virtual, o livro é "Morangos Mofados", e pelo que diz aqui dentro essa edição que está comigo é a "1º edição 1982 - 6ª edição".

Na verdade eu estava escrevendo aquele meu chororo de sempre, falava disso e daquilo, mas no fim o que eu queria dizer era algo mais ou menos isso aí de cima. Deletei meu texto e parti pra cópia pura e simples. Pois tem dias, ou semanas, ou meses que só queremos o que a personagem deste conto quer: "só queria ser feliz, burro, gordo, alienado, e completamente feliz". É pedir demais?

o retorno das três bruxas

Ela voltaram, as bruxas que abriram o caminho para o triunfo e a derrocada de Macbeth. As criaturas que predisseram o futuro inglório no meio de tanta glória. Como lá vieram silenciosas. Como lá, abriram sua caixa de Pandora e soltaram as desgraças. Pena que esqueceram-se de nos avisar, e fomos catapultados de surpresa ruim em surpresa ruim. Resultado? Doenças e mais pequenas doenças. Como na música dos Titãs. Desfiamos um rosário delas, estar de pé é só uma meta. Mas somos aroeiras, temos fibras. E os três sapos enfeitiçados, em que colocaram nossos nomes, quando forem localizados serão enterrados em lugar mais ameno.

as mais belas mortes

Morrer não é todo ruim, quando é com os outros, ou quando a morte vira arte. Sim, até na morte pode-se encontrar belezas sutis.

 



Escrito por Meridiano Sangrento às 18h44
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Uma barreira entre nós

Relacionamento pais e filhos é algo bem instável. Aos pais ordena-se que mantenha a lei e a ordem. Que crie seus filhos dentro dos padrões pré-estabelecidos pela sociedade. Os pais são os primeiros censores dos filhos. Entregamos a eles a cartilha a seguir, não de maneira brusca, mas à conta-gotas, diariamente. Não faça isso, não vá por esse caminho, seja assim, agora assado (aqui é uma citação sutil de uma música do Secos&Molhados, lembram-se?). Manipulamos, cortamos, ordenamos, forçamos, aparamos o que achamos serem arestas que os outros não podem ver nunca. O que a sociedade enxerga nos nossos filhos, é claro, será colocado na conta dos 
pais. Por isso é um tal de "não fale de boca cheia"; "vista-se bem"; "respeite isso"...uma imensidão de "você pode ou não pode". Relação de pais e filhos nunca muda. Agora a relação de pai separado com as filhas, quanta diferença. Inexiste nele (o relacionamento) contrapartidas. Perde-se grandes nacos um da vida do outro. De repente, por conta de um feriado, de uma alteração qualquer no dia a dia das partes, você reencontra sua filha, olha pra ela, a analisa, primeiro sutilmente, depois mais atenciosamente e eis que você descobre o que mudou. Do nada, seu bebê agora usa sutiã com bojo. Seu bebê agora tem seios, aquela mesma menina que passava uma parte do tempo vestida só de calcinhas agora tem uma vaidade a mais no seu catálogo. 
 
Céus, existe uma barreira entre pais e filhos, a menarca surge, o tempo, agora ganha pés de Hermes. E eu, pai separado coruja, sofro a cada mínima alteração. Dói a alma toda vez que percebo que os bebês não são mais bebês. De que têm gostos diferentes do meu. Penso maluquices, quem sabe um pacto com o demônio, riscando alguma encruzilhada à meia noite: "devolva os meus bebês e leve minha alma simplória". Tenho medo do escuro que é ver minhas filhas crescendo. Partindo pra longe de mim, a cada semestre da faculdade que uma completa; a cada creme pra cabelos que a outra experimenta. Sutiã com bojo é uma novidade por demais atroz para um pai presente, quanto mais pra um ausente que nem eu. Sinto vontade de chorar, mesmo sabendo que minha obrigação de pai diz: "felicite-a, diga-lhe que ela ficou linda com o sutiã, lembre-se que você é o primeiro homem da vida dela, dos seus carinhos paternais derivarão os carinhos que ela vai cobrar dos futuros namorados". Sei de toda essa psicologia, mas, a princípio, fecho a cara, me incomoda saber que minha filha tem seios. A sexualidade de filhas só deveria surgir quando elas tivessem dezoito anos, tá pelo menos a das minhas filhas. E eu vou aprendendo conforme a dança. Foi assim com a minha filha do meio. Um dia menstruou; quando eu menos esperava, beijou; quando eu nem fazia ideia...melhor deixar esse assunto pra lá...
 
O bojo do sutiã da minha filha é só o bojo do sutiã dela. As pedras no meio do caminho, ficam por conta da minha imaginação paternal. Ela ficou linda com o novo sutiã. Ela está crescendo, se tornando mais ela, ganhando contornos de uma futura mulher, que eu espero, seja uma pessoa legal, honesta, ética, carinhosa, independente, profissional, mas principalmente, feliz. O bojo é só uma fase, pior talvez será aquela fase em que a mulher sai de casa com o bico do seio furando blusas, adoro ver isso em outras mulheres, mas acho que me matarei quando vir isso nelas....prefiro, aí sim, estar ausente nesta hora, pois se tiver perto, mandarei elas pra casa, colocarem uma roupa mais decente, ou porque não, um sutiã com bojo.
 
 
ps: para ler ouvindo "ciranda da balairina" com a Mônica Salmaso


Escrito por Meridiano Sangrento às 19h35
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Um mundo nem sempre admirável ou novo

Maínha me deu um lápis

Com exceção das músicas, não indico muita coisa aqui não. Mas esse lugar eu tenho visto de vez em sempre, e podem acreditar, é bom. Bom como beijo. Bom como café. Bom como pão com mortadela em movimento. Bom como pastel do japonês. Bom...

Godard

Estranho o que vivo hoje. Esquisito. Sinto como se fosse necessário pra sobreviver, não ser. Não saber. Não pensar. Me embalar pelo tudo de bom que já foi. Por lembranças ainda quentes, como pão caseiro. Desejos por se completar. Sei lá, são dias de Alphaville. É Godard e Anna Karina. É Anna correndo no Louvre. É Karina dançando no bar. É o começo e o fim. É o fim e o começo. Pesadelos sonhados por outras pessoas e contrabandeados para a minha cama, pra atrapalhar minha noite. É açoite sem esperança. Dias com menos brilhos. É espera numa janela. É um copo com água e terra. A lenta espera pra que tudo assente. Palavras são como lentos punhais abandonados, cravados no ego. Mas eis que permaneço, íntegro. Sem muitas marcas aparentes, nem tantas assim dormentes...

"A luz que desaparece,

a luz que regressa.

Um único sorriso para os dois.

Por precisar de saber,

vi a noite criar o dia

sem que mudássemos

de aparência.

É bem amado por todos

e bem amado por um.

Em silêncio, a tua boca

prometeu ser feliz.

'Afasta-te, afasta-te', diz o ódio.

'Aproxima-te mais', diz o amor."

 

Ilustração: Vânia Medeiros



Escrito por Meridiano Sangrento às 20h41
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Batatinha

Ela sempre foi uma criança lindinha. Existem fotos dela, os olhinhos perdidos num horizonte particular, um queixo altivo, um nariz intrépido. Poderia, hoje, desfiar pra um ela um rosário de adjetivos, mas, adjetivar não vai melhorar sua bacia, machucada no acidente que ela sofreu ontem. Um Ford Ka, o carro adolescente. Pequeno "bólido encapuzado", como diria uma música que não me recordo quem fez, a acertou, forte o suficiente para uma fratura, não tão forte que exija cirurgias e rehab complexa. Dois meses de molho. Dois meses sem faculdade. Dois meses deitada, aguardando o tempo passar lentamente, como só ele não sabe passar quando temos pressa.

Ela não é minha filha. Eu a conheci quando tinha três ou quase quatro anos. Numa praça, ela com a mãe. Eu conversava com a mãe dela, até tentei brincar com ela, mas foi fiasco total. Fiasco em cima de fiasco, esse sempre foi meu relacionamento com ela. Eu a chamo de minha 1/2 filha. Ela deve me achar, quando muito, o pai das irmãs dela. Não a culpo pelas complicações na nossa relação. Ela perdeu de uma tacada pai, avó, tias, tios, primos, primas. Eu levei na troca a mãe dela e ela. Talvez hoje ela já entenda os motivos que levaram à separação da mãe dela; os motivos que nos levaram a ficar juntos; os motivos pra tanta mudança em tão pouco tempo, bagunçando a cabecinha de uma criança. Passado o desconforto inicial, eu me atirei de cabeça na tarefa, inglória, de conquistá-la. Me desfiz em mil. Fui o alfa e o ômega dela, bom, pelo menos tentei. Tinha tudo pra dar errado, como acho que deu. Filhos de pais separados, de péssimo desenlace no casamento, mas que mantêm o contato com o pai, tornam-se completas incógnitas. Era o caso dela. O pai nunca se conformou com a situação. Ensinou-lhe que o correto era ter medo de mim. Era me evitar. Não brincar comigo. Ensinou-lhe um mantra pra toda vez que eu chegasse perto dela: "você vai falar pra ele, vagabundo, vagabundo, vagabundo"; ela, criança perdida entre mundos que nunca escolhera repetia então: "vagabundo, vagabundo". Desse começo complicado derivou todo o resto do relacionamento. Por não ser seu pai, ser um vagabundo aos olhos do pai dela, a quem ela achava que devia respeito, a nossa vida não foi fácil. Muita contradição pra uma pessoa só, ainda mais criança, pois eu era legal. Minhas obrigações para com ela eram maiores até de que com as minhas filhas legítimas. Ela vivia entre mundos. Ia e voltava, um final de semana só, bastava pra bagunçar ainda mais a cabeça dela. Passamos por poucas e boas. A pobreza era nossa amiga íntima. Moramos mal, nos mudamos várias vezes e quem vê fotos desse período ela estará sempre longe de mim, propositadamente, para se manter íntegra aos olhos invisíveis do pai. Nunca amenizei, errei com ela tudo que não podia errar. Tentei com ela tudo pra conquistá-la. Lembro-me quando lhe comprei bolitas, é, simples bolitas que a fizeram ficar em êxtase de alegria. Jogávamos numa parte da casa que não dava pra ninguém ver, tínhamos que ser amigos escondidos. Brincar de esconde esconde na penumbra da noite. Montar quebra-cabeças longe de janelas. Ela aprendeu a andar de bicicleta primeiro que eu. Ela achou um skate e existem fotos maravilhosas dela com ele: chupeta amarela, shortinho amarelo e ela em cima de um skate. Eu a ensinei a jogar vôlei, ela sacava bem, mas quando adolesceu os esportes não combinaram mais com saltos altos, ela tinha virado uma patricinha. Vivia então num mundo rosa. Tudo rosa. Se fosse me lembrar de tudo que passamos juntos encheria alguns cadernos.

Hoje ela está com a bacia quebrada, mais uma vítima do que podemos chamar de desastre nacional. Campo Grande é uma das cidades que têm mais carros no país inteiro. Impressiona os números da frota. Impressiona os números dos acidentados. Motoqueiros quebrados. Pessoas atropeladas. Carros arrebentados. Todo mundo aqui conhece pelo menos uma pessoa que sofreu um acidente de trânsito. Todo mundo já presenciou um. Nada vai mudar agora que a Batatinha passou a fazer parte desta contabilidade macabra. Ela vai se recuperar. Voltar a ficar longe de mim. Não me ligar. Não ir na minha casa. São coisas que aprendi com a separação. Tudo muda, mas às vezes, tem coisas que já eram assim e nem percebíamos. Nunca fomos íntimos. Nunca trocamos confidências. Mas mesmo assim saber que ela sofreu um acidente e eu só fui informado quando ela já estava em casa é estranho. Lembro-me de quando ela era pequena e acordava no meio da noite era o meu nome que ela chamava. Vivemos entre muros de afetos contidos. Ela hoje tem seu universo, seus sonhos. Eu vivo os meus. Ela me liga no meu aniversário; ás vezes atende as ligações que faço pra falar com as irmãs delas; eu vejo ela no Natal, na Páscoa compro um ovo gigante pra três, e no dia do aniversário sempre compro um presente, algo que está cada vez mais difícil de fazer. E seguimos, como podemos. Somos bons pedreiros, eu faço a massa ela traz os tijolos, nos revezamos na arte de erguer barreiras de indiferenças cada vez maiores, por hora nada vai mudar.

 

 

ps: eu a vi hoje, fraturou um osso com nome de gente, levei-lhe um livro apesar dela não ler nada; está bem na medida do possível...

ps2: o livro é A Criança no Tempo do Ian MacEwan...



Escrito por Meridiano Sangrento às 21h17
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A arte de morrer aos poucos

Aprender a morrer, é o que Montaigne diz que a filosofia ensina ou devia ensinar. Aprender a morrer é o que faço todo dia, meticulosamente. Aprender a morrer é uma arte. Exige desprendimento. Desejo de continuar intacto. Paciência. Vontade de se partir em mil pedaços. Sabedoria para se recriar. De pequenas em pequenas mortes, recrio-me. Adquiro milhagens para o inevitável dia.

Pretendo que meu velório seja uma celebração. Em meu enterro, tocar-se-à Morphine, Belle & Sebastian, Sonic Youth e otras cositas mas como Klaus & Kinski. Na hora de baixar o caixão, please, sem cerimônia, Miles Davis. Nunca me enterrem numa curva, nem em dia de chuva, tenho horror a essa dobradinha: chuva e enterro. Queria que alguns amigos da cidade em que nasci dessem as caras. Que alguns amigos virtuais mandassem e-mails que seriam pendurados junto às inevitáveis coroas de flores. Quem gostar mesmo de mim, evite esse tão tradicional arremedo de consideração, mande livros. Esses devem ficar espalhados por todos os lugares, principalmente nas cadeiras, para que as pessoas que cheguem sejam obrigados a pegar neles, acariciá-los, quem saber ler um trecho. Passarei a marcar passagens que mais adoro, ler será falar direto comigo. Alguns destes livros devem ser dispostos em torno do caixão. Alguns xodós meus, um Borges, algum Kafka, Hesse, deixarei uma lista mais pormenorizada. Todos os livros que não forem levados, pelos sentidos visitantes, devem ser doados em bibliotecas de bairro, o mais longe do centro da cidade. Pode-se aproveitar a presença dos livros e organizar um sarau. Quem souber poemas de cor, recite-os para o morto ou em voz alta, não se constranja. Acredite, se houver vida após a morte, esse morto em questão estará rindo, feliz por velório tão glorioso. Seria pedir demais que algumas bebidas fossem servidas? Nada escandaloso, algumas garrafinhas, cheias de água que passarinho não bebe, democraticamente, passando de mão em mão. Se, porventura, as leis anti-fumos já tiverem chegado à nossa cidade, uma exceção será aberta. Todos poderão fumar paieiros, ou charutos - cigarros não, que estes matam sem glória nem confabulações. As minhas viúvas terão lugar privilegiado. Se assim desejarem, é claro. Poderão enfim se abandonar em falar mau do morto, pois como dizia Dostoiévski: "os ausentes são sempre os culpados". Na hora de me levarem para o cemitério, como tenho muitos irmãos, deles o privilégio de me carregarem em seus braços. Baixado o corpo, joguem pétalas de rosa, ou se puderem, formosas e cheirosas orquídeas. Evitem jogar terra, é uma barulho horripilante aquele. Para missa de sétimo dia, se conseguirem, troquem os hinos por alegres pop songs, os sermões por poemas ou trechos de ShakespeareIa me esquecendo de algo essencial, como tenho muito medo da solidão, apesar de cortejá-la diariamente, dentro do caixão coloquem um mp4 com uma bateria novinha em folha, tendo cuidado de arrumar bem no meu ouvido, algo que dure o tempo exato para que eu me desgrude da terra e parta para o infinito, não o infinito de Milan Kundera: “o infinito está dentro de nós, para encontrá-lo basta fechar os olhos”; falo da eternidade em que todos os vivos que me conheceram curtirão à sua maneira a minha desajeitada ausência, até que lentamente sobre aquela tristeza comedida e uma alegria sóbria enquanto saudosamente, recuperam em seus arquivos imagens minhas que haviam sido arquivadas em pastas passadasA arte de aprender a morrer, que ninguém tarde a aprender, eis uma grande lição.



Escrito por Meridiano Sangrento às 16h32
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Letters

Em datas festivas, comemoro com minhas meninas, sempre com algum presente, mas sempre com 
uma carta. O mundo seria melhor se as pessoas trocassem mais cartas entre si. Cartas são os melhores psicólogos que existem. Em cartas podemos dar vazão a sentimentos parados. Algumas sensações não podem nem devem ficar paradas como poças de água, cria algo parecido com a dengue, só que no espírito.
 
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Natividade
 
Quando era pequeno o que eu mais gostava de fazer, e fazia, era sonhar acordado. Tal qual um roteirista criava as histórias e por elas e com elas eu levava meus dias. Para mim a vida era um morte sem fim, a grandeza da minha família me condenava aos cantos das casas, andar sobre muros era meu avião, laranjas roubadas eram tesouros, goiabas tinham o sabor de ambrosia. Eu queria ser jogador de futebol, não mais um, o maior de todos; o Maracanã cantava em coro o meu nome (bem, o meu não, que eu achava feio, era Siro), depois de todos os títulos eu ia para a Itália e lá ganhava todos os troféus também e a história ia ficando sem graça por excessos do criador. Aposentava um pouco o jogador, virava piloto de caça, jogador de tênis, médico da Cruz Vermelha, sempre o cara mais legal, o mais bondoso, o mais...mais, e as histórias morriam por falta de realidades.
 
Um dia vieram me visitar, trazidas por cegonhas gigantescas (rosa com pés pretos) algumas meninas, elas não me deixavam mais sonhar, era pai pra cá, vai pra lá...meus sonhos ficaram pendurados, não sobrava tempo para eles. Todo homem precisa sonhar, eu não, eu vivia meus sonhos e posso dizer que ainda os vivo hoje. Ir ao cinema, pegar na escola, comer cachorro quente com cenouras, tentar ler o Great Expectations do Dickens, ouvir músicas, falar ao telefone...tudo isso parece tão pouco não, para quem tinha tanto. Mas não é, as faltas eu preencho com sonhos, e acredite todos são muito emocionantes. Na última vez nós visitamos Machu Pichu juntos, têm dias que eu sinto o cheiro de Moais, vejo a brancura de imensidões geladas que visitamos oniricamente... B******, não se esqueça de viver mas sempre que possível sonhe, a vida fica mais amena assim...
 
Beijos...Feliz Natal....


Escrito por Meridiano Sangrento às 16h26
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Senhas&Songs&Vidas

A solidão é nossa maior parceira vida afora. Na verdade refletimos a solidão que sentimos, pois somos lobos, vagamos mundos, transbordamos taças, avistamos ilhas. Todas as nossas resoluções são tomadas em meio aos silêncios que emanamos. Podemos até nos decidir ir numa festa pois todos os amigos irão, mas nem sempre nossas decisões tem esse cunho comunitário; uma grande parte delas são cruelmente paridas dentro de nós. Nós e o nosso espelho, que é o nosso duplo. Nem sempre podemos contar hoje com uma decisão de ontem para que o amanhã aconteça. Mas sempre teremos que ouvir aquela falta de som que emanamos lenta e sorrateiramente. A palma da mão se umedece, está dado o sinal – o corpo está confabulando. Ficamos aéreos; sensitivos, voláteis, frágeis. De repente as feições se endurecem, o corpo está tocando em assuntos complexos. Se, ao contrário, sorrimos, o corpo caminha para uma decisão que agrada gregos e taurinos. Quanto tempo levamos tomando decisões? O tempo inteiro, o dia inteiro. Até em sonhos decidimos sobre assuntos de vida e morte. Nós somos na verdade não somos homus sapiens e sim homus decisions. Acordar ou fingir que não acordou. Levantar ou não levantar. Escovar os dentes primeiro ou mijar? Tomar banho ou café? Comer pão com manteiga ou com ovo frito? Vestir a calça jeans de ontem ou a limpa que está no guarda roupa? Tênis ou sapato? De ônibus ou a pé? Hoje estou animado ou mau-humorado? Darei bons dias distantes ou esfuziantes? Almoçarei ou não? Neste restaurante ou naquele? Massa ou carne? Com carne ou sem carne? E seguimos desfiando um rosário de pequenas decisões. Decida-se. Eis uma boa camiseta. Esquerda ou direita? Natureza ou poluição. Cigarro numa esquina ou pulmões limpos como consciência de neném? Decida-se. Dilma ou Serra? Loira ou morena? Azul ou lilás? Kafka ou Dan Brown? Decida-se. A vida lhe impõe isso o tempo inteiro. Decida-se ou morra tentando. Algumas decisões te arrancam novamente da caverna que você se escondeu. Outras são timidamente mostradas em meio a um mar de mãos. Viver é isso, um fascinante decidir-se, sabendo que as suas decisões, são sempre suas, pessoais e intransferíveis. Não cabe ao outro a culpa por suas decisões. Não cabe a ti, se o outro errou nas avaliações dele. O que sempre é bem-vindo são decisões sem dores, ou no máximo, com lágrimas por ter se decidido pelo caminho correto. Seja qual for a decisão tomada, todos as direções tem a sua cota de pedras para enfrentar. Temos que estar aptos para nos decidirmos, todo dia, toda hora, todo minuto, a cada instante – de nossas solitárias micro-decisões faz-se o todo que nos compõe. Queiramos ou não, gostemos ou não, é a solidão que melhor nos representa.

 

PS: quem voltou? Ana e o Mar. Mar e Ana. Eu sou o mar e ela sempre será Ana por inteiro.

 

PS2: E porque não Once?

 

 



Escrito por Meridiano Sangrento às 14h00
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